8 de junho de 2017

#AmericanGods || Diário de Viagem Episódio 06: Uma Revoada de Deuses


A essa altura dos acontecimentos, vou desistir de tentar só ler os capítulos correspondentes ao episódio da semana e terminar de vez minha releitura de Deuses Americanos, porque estamos nos distanciando cada vez mais do romance e, francamente? Isso é ótimo, porque significa que estamos sendo continuamente surpreendidos. O novo episódio é completamente de material novo, incluindo aí Vulcan, o deus das armas, do fogo e da metalurgia, criado especialmente para a série.

O episódio abre com mais uma vinheta “Vinda à América”, na qual imigrantes ilegais mexicanos atravessam o Rio Grande a caminho dos Estados Unidos. Um dos imigrantes, que não sabe nadar, é salvo por um homem de cabelos longos e que caminha sobre as águas - sim, sim, estamos falando de Jesus, o Cristo. Tudo parece relativamente bem, todo mundo se salvou e eles têm até um milagre do qual poderão se lembrar no futuro, até que um monte de carros aparecem e pessoas nas sombras abrem fogo contra os recém-chegados, algumas delas com terços enganchados em suas armas. Jesus se sacrifica para salvar uma família (embora haja dúvidas se a família realmente sobrevive à carnificina…) e, bem, é isso.

Essa cena é muito interessante em vários pontos. No terceiro episódio da série, Wednesday cita um Jesus mexicano, observando ainda que existem outros Jesus, de acordo com cada minoria que nele acredita. Isso faz sentido dentro do que discutimos no capítulo passado sobre assimilação cultural. É mais fácil se identificar com alguém que é parecido com você; é mais fácil crer num deus que tem os seus olhos, o seu tom de pele, a sua língua. Assim é que faz sentido que haja uma miríade de Cristos, e que sob seu nome e proteção os imigrantes tentem a travessia… e os nativos os matem. Porque o close que a câmera faz no terço amarrado na arma de uma das pessoas que participa do massacre é o equivalente a uma declaração de um Cruzado, que vai à guerra contra os Infiéis: é alguém que vê aquelas pessoas como uma ameaça aos valores - incluindo aí os valores cristãos - em que ela acredita.

Embora seja uma vinheta de explicação de vinda à América, é uma cena bastante contemporânea. Aquela, provavelmente, não é a primeira travessia do Jesus mexicano - que primeiro teria vindo nas caravelas espanholas, assimilado pela cultura que se desenvolveria após a colonização da América Latina e passado muitas vezes aos Estados Unidos, desde o tempo em que a Califórnia pertencia ao México, antes do tratado de Guadalupe Hidalgo em 1848. É uma cena, porém, que o senhor Íbis - que a essa altura já sabemos ser o narrador e escritos dessas vinhetas - acha importante registrar, não porque seja a primeira chegada desse divino ser, mas pelos contrastes de uma mesma fé que acaba assassinando seu próprio deus.


O Jesus mexicano se envolve e se sacrifica voluntariamente e esse sacrifício é necessário para se contrapor ao que ocorre no final do episódio. Ele é um deus que morre por seus fiéis, ao contrário de outras divindades, que exigem sacrifício para realizar seus milagres.

Voltando a Shadow e Wednesday, continuamos agora com a fuga dos dois da delegacia em que os novos deuses deixaram uma verdadeira carnificina para trás. Wednesday decide procurar abrigo com um velho amigo e é assim que somos apresentados a Vulcan - Vulcano, o deus romano das forjas, das armas, do fogo, equivalente a Hefestos no panteão grego.

Achei bastante curiosa a inclusão de um deus greco-romano na história, porque Gaiman costuma fugir deles. Não há ninguém desse panteão no romance original; em Sandman, que também trabalha com uma vasta mitologia, Gaiman toca tangencialmente neles para incluir Calíope e Orfeu, dando a entender que em tempos modernos esses deuses teriam partido do nosso mundo, da mesma maneira que o povo de Faërie faz em Sonho de uma Noite de Verão.

Enfim… Shadow, a despeito de ter sido submetido a algumas situações bastante bizarras e surreais, continua tendo dificuldade em aceitar o que presenciou e acreditar. Ele ainda não se deixou convencer e mais, está dividido agora em sua lealdade ao empregador e à esposa morta - ou, pelo menos, essa parece ser a impressão de Wednesday, considerando o quanto ele se esforça em separar os dois. E, no entanto, mesmo sem acreditar, Shadow demonstra uma vez mais que ter sido escolhido para acompanhar Wednesday não foi algo aleatório: ser capaz de enxergar Laura quando ela está praticamente do outro lado do país, olhando pela janela da casa da família dela não é algo que um simples mortal seria capaz de fazer.
“What is a God? Can we even know they exist? People believe things which means they’re real, that means we know they exist. So what came first, Gods or the people who believed in them?”

“Where was all this before I met you?

“On the periphery, just outside. There’s always a window. People are frightened to look through it. Safer in the prison cell.”

“We’re not safe now.”

“No. We’re not.”

“Who are you?”

“If I told you, you wouldn’t believe me.”
Shadow é salvo por Wednesday de um parasita que o contaminou quando a árvore que cresceu na delegacia o acertou - e posso dizer que a coisa toda me lembrou uma cena de Matrix? - e nisso temos a resposta sobre o que é aquela árvore: Wednesday explica ao companheiro que aquele é o Senhor Wood, que outrora fora um dos antigos deuses, senhor de florestas e das árvores, mas que se adaptou e moldou às necessidades modernas, tornando-se subordinado dos novos deuses.

O que também aconteceu com Vulcan. Vulcan, que outrora fora o deus do fogo, que forjara as armas de todos os grandes heróis da mitologia, um artista e um ferreiro como nenhum outro, orgulhoso mesmo quando traído - é bom lembrar que ele foi marido de Afrodite até pegá-la na cama com ninguém menos que Ares, o deus da guerra, armando uma vingança à altura da deslealdade dos dois - agora reaproveitado num modelo de produção de massa, parte da engrenagem na cultura armamentista americana, desprovido do sentido que tivera no passado.


Vulcan é importante para a história porque ele serve de demonstração para o que os Novos Deuses realmente ofereceram a Wednesday no capítulo passado. Não se trata de ter uma nova chance, de reconquistar fiéis e poder - Vulcan pode ser um deus, mas é também um empregado, um subalterno… uma franquia - e aqui lembramos todo o discurso do Mr. World sobre fusão e corporativismo. No contexto do show, ele está no mesmo patamar da vinheta de Anansi, que abriu o segundo episódio da série, como comentário social e político. O que vimos nesse ponto da história é o que de pior a América pode oferecer, de intolerância, fanatismo, vidas humanas reduzidas a custo/benefício, violência, fascismo. Não consigo imaginar exatamente como um americano se sentiu assistindo os acontecimentos na cidade de Vulcan, mas para o resto do mundo, ali estavam representados todos os estereótipos do que hoje imaginamos como “eleitores de Trump”.

Interessante também é o fato de que temos um círculo completo nas ações desse episódio, na forma como eles se entrelaçam como o prólogo que o abriu, e uma justiça poética bastante irônica: foram as armas de Vulcan que abriram fogo contra os imigrantes mexicanos, foram as balas de Vulcan que acertaram Jesus, fazendo assim daquele deus um sacrifício; e é uma arma forjada por Vulcan que Wednesday utiliza para matá-lo, usando o deus romano não apenas como sacrifício em seu nome, mas também como um mártir de sua causa. É fácil prever a essa altura que a morte de Vulcan será o argumento que Wednesday usará para convencer outros dos deuses antigos a pegarem armas contra os novos deuses, afinal, ele diz com todas as letras: “You pledged allegiance and made me a blade, and they killed you for it”.

A principal diferença entre Vulcan e Jesus aqui é que um se sacrificou de forma voluntária, sendo que o sacrifício faz parte de seu ciclo mítico - ao passo que Vulcan é sacrificado e ‘amaldiçoado’ no processo. Em outras palavras, Jesus ressuscita (até porque ele foi citado por Wednesday anteriormente e é bem provável que o Jesus que Mad Sweeney conhece seja ele também), mas Vulcan provavelmente não conseguirá fazer o mesmo.

Enquanto isso tudo acontece de um lado do país, de outro, Laura reencontra Mad Sweeney, que se oferece para levá-la a alguém que pode verdadeiramente ressuscitá-la (a citação a Jesus de que falamos acima), e não apenas transformá-la num zumbi, como a moeda estaria fazendo. Assim, não tendo mais necessidade da moeda, “esposa morta” pode devolver o objeto ao leprechaun. Os dois tentam roubar um táxi, quando então são impedidos por… Salim, o muçulmano que teve um encontro com um djinn no terceiro episódio.


Temos agora não uma, mas duas viagens de carro através da América. Enquanto de um lado Wednesday arrasta Shadow em visitas a divindades esquecidas, do outro temos um trio de tristes criaturas que são, de certa maneira, os danos colaterais da primeira jornada: Mad Sweeney, que perdeu para Shadow sua moeda da sorte; Laura, a esposa morta-viva que tenta encontrar propósito em Shadow e Salim, cuja vida foi transformada pelo gênio e a quem ele agora quer reencontrar - e, considerando que já vimos o gênio antes, conversando com Wednesday, é bastante possível que ele esteja também a serviço do deus.

Salim é provavelmente o personagem mais bem resolvido do show a essa altura - e com a religiosidade mais positiva também. Ele crê no que crê e não sente dificuldade em aceitar e incorporar a sua visão de mundo aquilo que encontra de novo, e, enquanto tinha medo de tudo o que a América representava antes, agora ele não tem medo de nada. O que exatamente ele deseja do Djinn ainda não está bastante claro, mas é óbvio que não é sua antiga vida de volta. Ele está bem do jeito que está.


Aliás, vou dizer, que cena linda a do fechamento do episódio! Eu entendo lhufas de enquadramento e coisas do tipo, mas ainda assim, fiquei enlevada com a beleza da imagem, com a luz natural, e, claro, com o tom delicado, esperançoso desse final, tão diferente do cenário de pesaelos que é Vulcan.

Sobre o título do episódio, em inglês há um trocadilho interessante nele: A Murder of Gods tanto se traduz como ‘um assassinato de deuses’ como ‘um monte de deuses’, sendo esse segundo o sentido da fala de Mad Sweeney a certa altura do episódio quando usa tais palavras: murder é o coletivo para corvos e corvos estão bastante presentes em cena, especialmente ligados a Wednesday. Gaiman já se utilizou antes desse trocadilho em Sandman, e por isso acabei traduzindo com nosso próprio coletivo passarinhesco em vez de ir pelo sentido mais óbvio.

De forma geral, esse episódio é mais um capítulo de transição, em que os personagens humanos pouco a pouco se adaptam às suas novas realidades, às mudanças a que foram forçados, procurando suas novas identidades. O comentário político-social ganha maior destaque, tornando-se até meio caricato, mas ainda bastante pungente. Foi um episódio um pouco mais lento do que o anterior, mas importante para deixar realmente claro o problema que existe em ficar ao lado dos novos deuses.

Para semana que vem, vou parar de criar expectativas. Que venha o que vier, estou totalmente disposta a me sentir surpreendida ou familiar com o que decidirem nos jogar.

Capítulos equivalentes ao Episódio
Aparentemente nenhum

Itinerário de Shadow até aqui
Vulcan, Virginia

Canções para Tocar na Estrada
C’mon Get Happy, The Partridge Family
I Put a Spell on You, Brian Reitzell Ft. Mark Lanegan


A Coruja


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