23 de novembro de 2016

Incendiando Ideias ou da atualidade de Fahrenheit 451

Temos tudo de que precisamos para ser felizes, mas não somos felizes. Alguma coisa está faltando. Olhei em volta. A única coisa que tive certeza que havia desaparecido eram os livros que queimei durante dez ou doze anos. Por isso, achei que os livros poderiam ajudar.
O último encontro do clube do livro me deu chance de ler um título que estava há anos na minha lista, mas por um motivo ou por outro, sempre deixava para depois. Clássico contemporâneo e considerado obra maior de Bradbury, Fahrenheit 451 é uma distopia que apresenta uma sociedade profundamente alienada, na qual os livros foram banidos e os bombeiros tiveram sua função desviada para começar incêndios em vez de apagá-los.

O livro foi publicado na década de 50, derivado de contos como O Pedestre e Usher II, mas permanece extremamente atual: há ganchos para debater sobre excesso de informação, manipulação mediática, realidade aumentada e o abandono do pensamento crítico em troca de uma suposta felicidade anestesiada frente a programas interativos. Confrontado com todas essas questões, o protagonista da história - o bombeiro Montag - vive uma crise de identidade atiçada, é claro, pelos livros que ele tem de queimar.

Muita gente afirma que Fahrenheit 451 é um livro sobre censura e controle governamental. De certa forma, eu concordo, e digo que na discussão dele caberia muito bem uma comparação com 1984, Admirável Mundo Novo e Laranja Mecânica. São visões de mundo complementares, que apresentam a humanidade sob um aspecto pouco lisonjeiro, em que violência, velocidade e programas de TV pensados para nada ensinar asseguram a continuidade do sistema.

Bradbury é um pouco mais otimista, ainda que o banimento dos livros tenha começado não por imposição de um governo ditatorial, mas sim por parte da própria sociedade, que prefere se nivelar pela mediocridade a troco de uma suposta igualitária utopia. Otimista porque o romance termina numa nota de esperança, na qual após a destruição (literal) do sistema antigo, há possibilidade de reconstruir e resgatar valores esquecidos. Fahrenheit 451 é, sim, um livro sobre censura e alienação, mas é também uma história sobre independência e aprender a pensar por si mesmo, sobre se descobrir e se reinventar, sobre ser capaz de construir sua identidade.
Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. Descarregue a arma. Façamos uma brecha no espírito do homem. Quem sabe quem poderia ser alvo do homem lido?
Essa dicotomia é representada sobretudo pelo embate entre Montag e Beatty, o capitão dos bombeiros. Beatty é, sob um certo ponto de vista, o grande vilão da história, porque é bastante claro que ele conhece e compreende o valor dos livros - e das ideias - que queima, ao contrário dos outros bombeiros, que amam o fogo pelo fogo e para quem os livros são apenas objetos sem importância. Ironicamente, de todos os leitores com que Montag cruza ao longo da narrativa, Beatty é o mais passional: se seus discursos são repletos de cinismo, são também uma ode ao conhecimento - e o capitão decididamente possui um vasto conhecimento literário.

Beatty é alguém que viveu antes dos livros serem banidos e, por seu discurso, não é difícil presumir que ele foi uma pessoa que amou os livros, até alguma grande decepção voltá-lo contra eles. O quanto, em seu âmago, ele realmente aceita a identidade de incendiário de livros é, contudo, questionável. Há amargura em seu sarcasmo - e talvez seja essa contradição que explique o aparente suicídio de Beatty.

Se Beatty é o desalento, Montag é a esperança. Montag é movido pela curiosidade, pela vontade de entender o que está acontecendo ao seu redor - ele é tocado por pessoas como Clarisse, Faber e Grange, e também pela velha senhora que se imola junto a sua biblioteca; num mundo em que a televisão substituiu o convívio social, inclusive familiar, ele tem surpreendente empatia. Ele é levado a questionar, mas quando o faz, dá partida num processo de mudança que seria inimaginável no começo da narrativa.

Ainda que, de princípio, Montag não compreenda o porquê dos livros serem tão importantes, ele tem suficiente sagacidade para adivinhar que a resposta está neles: ler é primeiro uma desajeitada rebelião a uma sociedade na qual ele começa a não mais se reconhecer; é uma resposta ao vazio com que ele se confronta diante da tentativa de suicídio da esposa.

Despidos os eventuais anacronismos que caracterizam a época em que Bradbury escreveu o romance, Fahrenheit 451 permanece atual e importante frente a uma sociedade que consome informação sem ter tempo de digeri-la, transformando dados em memes e viralizando boatos sem consultar fontes. Bradbury foi um visionário, espetacular em sua capacidade de divertir e de fazer pensar e é exatamente por isso que o debate de um livro como esse é tão relevante.

Neil Gaiman, leitor e fã de Bradbury, e um dos motivos de eu ter ido atrás de ler esse livro, resume muito bem a essência do que significa Fahrenheit 451 e do que Montag descobre em sua jornada e é com as palavras dele que encerro por hoje:
Ideias, ideias escritas, são especiais. Elas são a maneira pela qual transmitimos nossas histórias e nossos ideais de uma geração para a outra. Se nós as perdemos, perdemos nossa história compartilhada. Nós perdemos muito do que nos faz humanos. E ficção nos dá empatia: nos coloca dentro da mente de outras pessoas, nos dá o presente de ver o mundo pelos olhos delas. Ficção é a mentira que nos diz coisas verdadeiras, de novo e de novo.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Fahrenheit 451
Autor: Ray Bradbury
Tradução: Cid Knipel
Editora: Globo
Ano: 2012

Onde Comprar

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A Coruja


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