30 de junho de 2016

1 Ano, 365 Contos - Junho


Junho foi um mês… difícil. Para além do retorno ao trabalho e as correrias de fim de semestre, com apresentação dos formulários de metas (pois é…) e outras variantes, teve a doença de um tio, que acabou não resistindo e faleceu logo no início do mês.

2016 está sendo um ano de perdas. Tá complicado, viu? Duro é que são situações em que a gente nem sabe o que falar, não tem nem como oferecer consolo. Foi um negócio que aconteceu tão rápido que ninguém estava realmente preparado…

Mas vamos ao diário desse mês para o Desafio dos Contos...

1 Ano, 365 Contos: Junho

Dia 01 – 20h57
O Verão do Foguete de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 2 páginas, 1 min.

Começamos esse mês com mais um livro do Bradbury! As Crônicas Marcianas é a um tempo, uma antologia de contos - no sentido de que todos eles funcionam de forma independente - e também um romance fragmentado sobre a colonização de Marte por seres humanos.

Nessa primeira história, curtinha, quase apenas um prólogo, temos o anúncio, muito poético, do dia em que o foguete foi lançado. Não se diz para onde. Não se diz o porquê. Há apenas sensações e descrições de pessoas comuns contando umas para as outras a história daqueles dias.
O foguete estava no campo de lançamento, e emitia nuvens quentes de fumaça cor-de-rosa. O foguete ficou lá, naquela manhã fria de inverno, criando verão com cada descarga de seus poderosos propulsores. O foguete trouxe tempo bom, e o verão se instalou por sobre os campos por um breve momento...
Dia 02 – 21h10
Ylla de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 18 páginas, 11 min.

Essa história conta a chegada do foguete à Marte, revelando um pouco da natureza telepática dos marcianos, capaz de captar sem sequer saber, os humanos que estão a caminho. Marcianos começam a falar em inglês, marcianos começam a cantar canções que eles não conhecem, marcianos começam a sonhar com encontros com astronautas, marcianos cometem crimes passionais.

E assim foi que a primeira expedição da Terra à Marte simplesmente desapareceu sem ter tempo de dar notícias...

Dia 03 – 08h38
A Noite de Verão de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 4 páginas, 2 min.

E então que os marcianos começaram a tentar se acostumar com os súbitos versos e melodias numa língua completamente estranha que lhes assaltava a mente. Eles declamam Byron e rimas infantis, sem saber que o destino chega.

E a beleza do ritmo e das palavras de Bradbury continua a ser a parte mais bela da história...

Dia 04 – 13h43
Os Homens da Terra de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 22 páginas, 11 min.

Ontem, o irmão caçula do meu pai faleceu. Esse meu tio tinha sido diagnosticado com câncer no estômago no ano passado, tinha passado por toda a quimioterapia e, quinze dias atrás, estava com a última sessão marcada, já tendo ouvido dos médicos que estava curado.

E aí descobriu uma metástase na medula. E em quinze dias, tudo acabou.

Quinze dias… como que em quinze dias as coisas podem mudar tão radicalmente, e irmos da esperança ao luto dessa forma?

Estou sozinha em casa hoje - meus pais foram para o enterro no interior ontem de tarde, quando eu ainda estava no escritório. Difícil saber o que dizer sobre isso. Difícil acreditar que uma pessoa tão vibrante quanto ele era se foi. É uma segunda perda nesse ano - em janeiro tive de dizer adeus a um amigo querido, tão novo, tão novo, com tantos sonhos ainda…

Lendo esse conto agora, penso que me sinto um pouco com os astronautas da história, que esperam ser recebidos em Marte com celebrações, recebendo as chaves das cidades - felizes como nós estávamos à ideia de que meu tio estava curado… - e são então levados a um manicômio, suas afirmações de que são humanos fazendo todos crer que são loucos.

Por hoje é isso. Não tenho muito mais o que dizer.

Dia 05 – 07h44
O Contribuinte de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 2 páginas, 1 min.

O dia amanheceu triste. Acordei cedo sem saber para quê. Li meu conto de hoje - podia ter sido maior, ajudaria a me distrair até hoje de tarde - tem reunião do clube do livro.

Tem dias - especialmente naqueles em que fico acompanhando as notícias na tv - que tenho vontade de seguir o exemplo do contribuinte dessa pequena história: correndo atrás do foguete, gritando ser um contribuinte que paga todos os seus impostos em dia e tem o direito de estar naquela nave e deixar o mundo...

Dia 06 – 20h55
A Terceira Expedição de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 23 páginas, 10 min.

Dessa vez, os astronautas terrenos estavam razoavelmente preparados para o que viria… mas, aparentemente, também os marcianos passaram a acreditar na existência de humanos… e assim é que os astronautas se descobrem no meio de uma cidade povoada com todas as suas pessoas favoritas, com todos aqueles que já se foram, com todos aqueles que eles tinham perdido.

É a primeira vez, nos contos do Bradbury, que vejo os marcianos assumindo uma posição de ataque, e a verdade é que, nessa história, isso se torna absolutamente assustador.

Dia 07 – 21h26
...E a Lua Continua Brilhando de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 34 páginas, 22 min.
Não seria correto, na primeira noite em Marte, fazer um barulhão, instalar uma coisa estranha e tola como um forno. Seria uma espécie de blasfêmia importada. Haveria tempo para aquilo mais tarde; tempo para lançar latas de leite condensado nos orgulhosos canais marcianos; tempo para os exemplares do jornal New York Times saírem voando e, farfalhando, forrar o leito dos oceanos solitários e cinzentos de Marte; tempo para que cascas de banana e papéis de piquenique se infiltrassem nas delicadas ruínas das antigas cidades dos vales marcianos. Haveria muito tempo para tudo isso. E ele tremeu um pouco por dentro com a ideia.
Senti vontade de chorar com essa história. É chegada a quarta expedição à Marte, e eles encontram o planeta vazio, corpos secos em todas as construções: os homens levaram consigo o vírus da catapora e exterminaram uma civilização inteira.

Não seria a primeira vez que isso aconteceria em nossa história. Mas a escala imaginada aqui é planetária e muito mais desesperadora.
Os homens da Terra têm talento para acabar com coisas grandes e belas.
De fato, Bradbury. De fato...

Dia 08 – 06h39
Os Colonizadores de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 2 páginas, 2 min.

Um interlúdio bem curtinho para colocar em cena os humanos decidindo se mudar para a Marte - os desbravadores, os colonizadores, os solitários.
E essa doença se chamava Solidão, porque quando viam sua cidade natal ficar do tamanho de um punho, depois de um limão, e então da cabeça de um alfinete, acabando por desaparecer no rastro de fogo, sentiam-se como se nunca tivessem nascido, se a cidade não existisse, se estivessem em lugar nenhum, rodeados pelo espaço, nada conhecido, só outros homens estranhos.
A essa altura, não devia mais estranhar como o domínio de linguagem do Bradbury me comove. Mas não consigo me conter. O cara é um gênio.

Dia 09 – 15h37
Manhã Verde de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 7 páginas, 6 min.

Gostei desse conto. Ainda que a idéia de encher o solo marciano de árvores da Terra para poder fazer mais oxigênio seja, em essência, uma idéia egoísta - afinal, o que o narrador quer é essencialmente mudar o clima do planeta inteiro, pensando nas consequências desse fato apenas para os humanos que estão chegando para colonizar o lugar - a imagem dele é muito bonita.

Fiquei me perguntando se o Benjamin desmaiou porque as árvores estavam realmente lá ou se ele estava tendo uma alucinação por falta de ar. Se for o primeiro caso, devo dizer que o solo de marte é extraordinariamente fértil na versão de Bradbury… ou Benjamim tem um polegar verde simplesmente milagroso...

Dia 10 – 06h38
Os Gafanhotos de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 2 páginas, 1 min.

Acordei hoje com o barulho da chuva…

A primeira coisa em que pensei quando li o título dessa história foi “os humanos serão equiparados aos gafanhotos das pragas do Egito?” Considerando o que li até o momento nesse livro, achei que seria uma comparação justa.

De certa maneira, acho que esse é de fato o sentido do conto, com centenas de homens desembarcando em Marte e começando a remodelar o planeta à sua imagem e semelhança, trazendo sua feia arquitetura e seu desrespeito para com a cultura que ali antes existia.
E dos foguetes corriam homens com marretas nas mãos, para modelar aquele mundo estranho até um formato conhecido, eliminando toda a estranheza, a boca cheia de pregos, parecidos a animais carnívoros com dentes de aço, cuspindo-os nas mãos ágeis conforme iam martelando as estruturas dos chalés e cobriam os telhados com telhas para bloquear as estrelas reluzentes, e ajeitavam persianas verdes para segurar a noite.
Ah, humanidade...

Dia 11 – 08h55
Encontro Noturno de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 12 páginas, 7 min.

Um encontro entre passado e futuro, embora não fique claro quem representa cada tempo: Tomás e o marciano, num único momento perfeito de respeito e coexistência, ainda que um deles represente apenas uma fantasma de coisas que virão ou já foram.

Gostei desse. Na verdade, tenho gostado de todas as histórias desse livro, e da forma como elas se entrecruzam. Já me apaixonei antes pela forma como Bradbury manipula a linguagem, e agora sigo concordando com seu retrato da humanidade.

Não estou me revelando muito otimista, não é mesmo? Bem, eu gostaria que o mundo me desse mais motivos para estar otimista… mas não parece que isso vai mudar tão cedo...

Dia 12 – 09h45
A Praia de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 2 páginas, 1 min.

História bem curtinha, mais para especificar quem eram os homens que estavam chegando para povoar Marte que para avançar no enredo.

Dia 13 – 07h51
Intermédio de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 1 páginas, 1 min.

Uma boa ironia nesse aqui, com os homens recriando em Marte as cidades existentes na Terra, como se um ‘furacão de proporções dignas de Oz tivesse carregado a cidade inteira em Marte, para pousá-la sem nem um sacolejo’.

Sinto que essa reprodução do conhecido na Terra represente também uma continuidade de comportamento.

Dia 14 – 22h24
Os Músicos de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 3 páginas, 2 min.

Que belo jogo para as crianças: entrar nas casa abandonadas dos marcianos e chutar seus cadáveres até que se transformem em pó. Não, sério, que diabos! O que ensinam para esse povo????

Dia 15 – 20h39
Flutuando no Espaço de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 19 páginas, 11 min.

Os negros construíram um foguete e estão indo embora para Marte - um lugar em que serão livres, sem o estigma do preconceito. Os brancos da cidade, contudo, não estão particularmente satisfeitos e nem entendem porque eles estão fazendo aquilo, afinal,
Não consigo entender por que eles foram embora agora. As perspectivas são boas, quer dizer, cada dia conquistavam mais direitos. O que eles querem, afinal de contas? Aqui já não há mais imposto, cada vez mais estados aprovam lei anti-linchamento e eles têm todos os tipos de direitos igualitários. O que mais querem? Ganham quase tanto quando os brancos e, mesmo assim, lá vão eles.
Sério, eu quase senti náuseas quando li isso, uma sensação que piorou quando Silly, em sua despedida do chefe, pergunta a ele o que ele vai fazer à noite agora que os negros foram todos embora.
Quantas noites com o vento batendo no carro, jogando o cabelo para cima de seus olhos maldosos, vagando, até escolherem uma árvore, uma boa árvore bem forte, e batiam na porta de um barraco!
O filho da puta faz parte da KKK. Esse ser humano de merda se ressente de os negros irem embora porque isso acabará com sua diversão, porque agora ele não tem mais para onde direcionar seu ódio e sua baixeza.

Essa, provavelmente, é uma das histórias mais fortes, mais amargas desse livro. Não consigo imaginar que algum personagem possa ser mais repugnante que Samuel Teece e nada me deixaria mais feliz que ele sofrendo uma humilhação ainda maior ao final da história.

Dia 16 – 21h47
A Escolha dos Nomes de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 2 páginas, 1 min.

Parabéns pela criatividade para os humanos que decidiram repovoar a superfície de Marte com cidades como “Cidade do Ferro”,”Cidade do Aço”, “Cidade do Alumínio”, “Vilarejo Elétrico” e “Detroit II”. Seu senso de imaginação é algo impressionante.

Dia 17 – 17h39
Usher II de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 22 páginas, 15 min.

Curioso… terminai por esses dias o livro novo de ensaios do Gaiman e num dos artigos ele cita nominalmente esse conto como um precursor para o que viria em Fahrenheit 451, que é outro livro que pretendo ler ainda esse ano.

Pelo título, fica bem óbvio que se está querendo aqui emular Edgar Allan Poe. Ou, ao menos, homenageá-lo. De uma forma bastante macabra, mas tenho de dizer que concordo com a vingança aqui perpetrada contra indivíduos que se acham bastiões da moralidade e decidem que queimar bibliotecas é a melhor resposta para qualquer que seja a pergunta.

Sério, se eu estivesse na mesma situação… provavelmente faria o mesmo...

Dia 18 – 07h45
Os Velhos de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 1 páginas, 1 min.

Essa aqui é mais um comentário que uma história: os idosos descobriram Marte. Como um espaço para turismo ou será para morar?

Dia 19 – 05h19
O Marciano de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 18 páginas, 12 min.

Por que pombas e cargas d’água estou acordada tão cedo num domingo? Sério, faz mais de hora que estou tentando voltar a dormir, mas não tem jeito. Maldita seja a insônia. Maldita, maldita…

Como o que não tem remédio, remediado está, vamos ler mais um conto para o projeto...

Essa história me lembrou uma dos que li em A Cidade Inteira Dorme, também do Bradbury: em O Messias, o desejo de um padre faz com que um marciano assuma a aparência de Jesus.

Aqui, o marciano assume a forma do filho morto de Tom e Anna, um casal que deixou a Terra para morar em Marte e assim escapar, até onde fosse possível, a tristeza da perda do filho. Contudo, o intenso desejo de ter de novo a criança ‘aprisiona’ um marciano, que toma a forma do garoto.

É interessante isso - não se trata do marciano tentando atacar humanos assumindo a forma de pessoas que eles amam, mas sim de humanos com com seus desejos forçam marcianos a se transformarem em quem eles desejam - porque os marcianos, que são telepatas, não conseguem se defender desse desejo humano.

Deu-me um certo nó no estômago, especialmente porque o marciano da história está indefeso, vulnerável - ele segue a corrente e se submete aos imperativos com que as mentes humanas o bombardeiam. E os homens, claro, estão mais interessados em usá-lo como forma de lidar com suas próprias perdas, em vez de aceitar a realidade...

Dia 20 - 07h15
A Loja de Malas de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 2 páginas, 2 min.

Mais um dia acordando brutalmente cedo, mas pelo menos hoje é segunda… Esperando dar a hora de seguir para o escritório, após desejar boa sorte para papai mais cedo - ele vai hoje fazer a cirurgia de catarata do outro olho (ele fez a do primeiro no mês passado).

Uma guerra se iniciou na Terra… os humanos que vivem em Marte voltarão? O dono da loja de malas acredita que sim - se mais tempo tivesse se passado, seria outra coisa, mas muitos dos que moram em Marte ainda se lembram de sua vida no planeta natal, ainda têm família e amigos que moram lá.

É interessante o argumento entre o padre e vendedor. Longe dos olhos, longe do coração, certo? Se te dizem que está acontecendo uma guerra num lugar distante, você não se importa muito, nem acredita muito, porque é tão distante de tudo o que você conhece…

Talvez isso pudesse ser verdade na época em que Bradbury escreveu essa história, mas hoje, num mundo de globalização e redes sociais, em que as notícias são acompanhadas ao vivo de qualquer lugar do mundo, essas distâncias se encurtaram. Sabemos o que está acontecendo, acreditamos no que está acontecendo, ainda que nos sintamos impotentes diante das forças em jogo. Simplesmente não se importar, fechar os olhos e fingir que nada está acontecendo me parece quase… criminoso.

Estou me sentindo particularmente emocional hoje...

Dia 21 - 06h19
A Baixa Estação de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 17 páginas, 9 min.

Amarga ironia esse final… mas vou confessar que quase me senti satisfeita com o final. Não apenas porque achei muito bem feito a frustração de Sam, mas, após certa altura dessa história, eu queria mesmo que todos os humanos se explodissem para sempre.
Não gosto de estranhos. Não gosto de marcianos. Nunca tinha visto nenhum. Não é natural. Durante todos esses anos, vocês ficam escondidos, e de repente você aparece para me importunar.
Sim, Sam, fale-me mais sobre como marcianos vivendo em Marte não são naturais...

Dia 22 - 07h01
Os Observadores de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 3 páginas, 1 min.

A guerra estourou na Terra e agora as pessoas que moram em Marte relembram todos aqueles que deixaram para trás, todos para quem se esqueceram de escrever, para quem deixaram de ligar, mas que continuam a ser importantes, e que agora estão perdidos naquele desconhecido planeta acima do horizonte.

E então eles começam a se preparar em massa para voltar ao seu planeta de origem. Para lutar? Para reencontrar seus entes queridos? Quem vai dizer?

Dia 23 - 11h10
As Cidades Silenciosas de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 15 páginas, 10 min.

Então que temos duas pessoas solitárias que foram esquecidas pelos foguetes retornando à Terra… e mesmo na solidão absoluta, vaidade e preconceito ainda valem...

Dia 24 - 08h11
Os Longos Anos de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 16 páginas, 9 min.

Uma história bela… e triste, muito triste. Eu pensei inicialmente que o resto da família do Hathaway fosse marcianos capturados pelo seu desejo de rever a família. Fiquei surpresa quando se revelou quem eles eram de fato.

Essa história é um interessante contraponto ao egoísmo de Walter Gripp no conto anterior.

Dia 25 - 14h20
Chuvas Leves Virão de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 9 páginas, 7 min.

Primeira coisa: a casa dessa história é realmente o que há de mais avançado em casas inteligentes. Pensar que Bradbury escreveu isso quase meio século atrás chega a ser profético - embora a casa dele ainda seja mais avançada do que temos hoje em dia.

Segundo, a única coisa em que eu conseguia pensar, quando se descreveram as sombras na parede, foras das sombras das pessoas vaporizadas pelas bombas atômicas em Hiroshima e Nagasáki.

Essa é uma daquelas histórias que desce amarga pela garganta, bem pouco otimista em sua visão de futuro para a humanidade. O pior é que discordo bem pouco do Bradbury - ainda que não seja uma Guerra Fria, estamos sim vivendo uma guerra com potencial para se tornar mundial - uma guerra não entre Estados, alimentada pelo terrorismo e crescimento da extrema direita.

Bem, o futuro, ao futuro pertence… Vejamos o que vai acontecer a seguir...

Dia 26 - 07h15
O Piquenique de Um Milhão de Anos de Ray Bradbury. Lido na coletânea As Crônicas Marcianas. 14 páginas, 9 min.

Última história das Crônicas Marcianas. Sentirei falta desse livro - ele me surpreendeu, mesmo já tendo conhecido alguma coisa do Bradbury. Muito mais que uma ficção científica, esse é um livro sobre civilização e humanidade e devo dizer que nem sempre o Homem sai dessas histórias em seu melhor ângulo.

E, no entanto, esse final é quase esperançoso - o planeta Terra e a civilização como conhecemos acabou, mas existe uma possibilidade de recomeçar e de tentar escapar de cometer os mesmos erros. Esse fim é meio que um A Lagoa Azul, mas nos dá uma certa ilusão de que ainda é possível mudar.

Dia 27 - 19h53
A Morte do Funcionário de Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 3 páginas, 2 min.

Saindo do americano Bradbury para um clássico russo, mestre dos contos: Tchékhov.

Essa é uma história sobre um funcionário público que, no teatro, espirra na careca de um general e atormentado pela possibilidade de que esse passo em falso signifique o fim de sua carreira, ele pede desculpas de forma repetida, mesmo quando já não é mais necessário, ainda que isso só faça reavivar mais e mais a memória do general até… que seu coração arrebenta.

Não sei o que pensar sobre essa história. Uma crítica ao servilismo? Ao fato de o general não ter aceitado o pedido de desculpas formal? Mas ele já dispensara qualquer necessidade de repetir aquilo… É muita ansiedade e estresse para uma criatura só...

Dia 28 - 17h13
O Enxoval de Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 5 páginas, 5 min.

Tenho a ligeira impressão que Tchékhov não é um autor de histórias particularmente felizes - e há um certo humor mórbido, um riso forçado que quase nos envergonha de conseguir achar graça naquela situação.

É algo que me faz pensar na pobre Miss Bates de Emma, da Austen. Aliás, a mãe e filha que o narrador descreve nesse conto muito me fizeram lembrar de a Miss Bates pela sensação de vulnerabilidade, pela forma como a conversa inane é uma espécie de proteção contra o resto do mundo, contra as perdas que essas criaturas sofreram.

O final desse aqui é particularmente amargo.

Dia 29 - 07h29
Aniúta de Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 4 páginas, 3 min.

Deus do céu, vai ser todo o livro com personagens que nos cortam o coração e nos exasperam em sua fragilidade e incapacidade de reagir? Fiquei querendo brigar com o estudante de medicina explorando a pobre Aniúta, especialmente quando você percebe que ela se acostumou com aquilo, que é algo que ela já espera - tanto que ela não reage nem mesmo com lágrimas quando ele decide colocá-la para fora.

Dia 30 - 08h04
A Corista de Anton Tchékhov. Lido na coletânea A Dama do Cachorrinho e outras histórias. 6 páginas, 4 min.

Ok, então, esse conto tem, aparentemente, dois vigaristas aplicando um golpe numa coitada de uma corista particularmente chorosa e manipulável. Eu não sei de quem fico com mais raiva, se dos vigaristas ou se da moça, por ser incapaz de reagir.

Será que todos os personagens de Tchékhov são assim? Essa vulnerabilidade exasperante, que não sabemos se dá mais vontade de chorar ou de rir?

Esse é um livro curtinho, e ainda não sei o que pensar sobre o autor. Terminarei a antologia no mês que vem e veremos o que penso dele ao final.

Conclusões

Mais uma vez, Bradbury conseguiu me encantar e comover - com sua fluência da linguagem e com seu conhecimento da alma humana. Eu acho esse homem absolutamente impressionante e a cada livro dele que leio, tenho vontade de ir atrás de mais, de procurar mais um e mais um e mais um.

A novidade de junho ficou, dessa vez, a encargo de um russo. Nunca tinha lido Tchékhov - peguei-o porque os críticos consideram um dos grandes contistas da literatura. Não sei se peguei o melhor livro para enxergar toda essa força e me peguei a compará-lo por hora com outros russos que conheço - Dostoiévsky e Gogol me vêm à mente (por sinal, acho que eu deveria ir atrás de ler Gogol para meu projeto…). Não cheguei ainda à metade do livro dele, então ainda não tenho um veredicto sobre o autor.

Esse foi, de uma maneira geral, um mês de histórias bem curtas, contos, por vezes, de menos de uma página. Mas estou feliz em ter escolhido fazer as coisas dessa forma - junho não foi um mês fácil e talvez se eu tivesse separado contos maiores para ler agora, não teria conseguido chegar até o fim do mês.

Enfim, chegamos ao meio do projeto 1 Ano, 365 Contos. Vejamos como andam as coisas em termos de números por aqui...

Contos: 182/365
Páginas: 3.726 (290 lidas esse mês)
Tempo: 42 horas e 55 minutos (2h 59min de leitura esse mês)

Em julho terminarei de ler a antologia do Tchékhov que peguei e depois… não tenho certeza - não sei se me mantenho com os russo, se me arrisco com outro gênero (estou com O Rei de Amarelo aqui, pode servir) ou se pego alguma das indicações que me fizeram quando eu estava começando a organizar as idéias para iniciar esse desafio.

Vamos ver o que acontece no próximo mês...


A Coruja


____________________________________

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog