18 de agosto de 2016

Clube do Livro: Os Cinco Porquinhos

'Essa história precisa ser esclarecida, monsieur Poirot. E o senhor vai fazer isso.’

Hercule Poirot disse devagar: ‘ Admito que o que você diz seja verdade, mademoiselle, passaram-se dezesseis anos!’

‘Oh! É claro que vai ser difícil! Ninguém além do senhor poderia fazer isso!’
Os Cinco Porquinhos será tema do Clube do Livro de Bolso desse mês e confesso que mal posso esperar para o debate - esse é um dos crimes mais complexos desvendados por Hercule Poirot, tendo em vista o tempo que se passou desde os acontecimentos e a ausência de evidências para além daquilo que a memória é capaz de nos dar.

Dezesseis anos atrás, Caroline Crale foi julgada e condenada pelo envenenamento de seu marido, o pintor Amyas Crale. Prestes a se casar e desejosa de pôr em pratos limpos a história do que realmente ocorreu então, Carla, a filha do casal, pede a Poirot que investigue o caso. E assim Poirot entrevista as cinco pessoas que estavam presentes à época e cada uma delas dá a sua própria versão da história. Através desses relatos, o detetive belga deve chegar a um veredicto.

Tudo parece apontar para Caroline Crale como culpada, inclusive pelo silêncio da mulher no tribunal. A única pista em contrário é a carta que Caroline escreveu para a filha, dizendo ser inocente, bem como o relato de Carla que a mãe era brutalmente honesta e não mentiria nem mesmo para tentar proteger a filha.

Poirot não tem a sua disposição mais do que as narrativas muito pouco confiáveis das pessoas que estavam presentes dezesseis anos atrás. O leitor está aqui em pé de igualdade com o detetive, tendo as mesmas oportunidades dele para enxergar inconsistências, interpretar os fatos e encontrar uma solução.

Talvez por isso esse tenha sido um dos raros livros em que eu soube quem era o assassino antes de chegar ao final - o que não me tirou a satisfação com a história. Ler o mesmo encadeamento de fatos de cinco pontos de vista diferentes pode parecer repetitivo, mas é, na verdade, um excelente exercício em lógica.

Confesso que nenhuma das vítimas do caso me inspirou particular simpatia - a crueldade casual de Amyas me fez pensar ‘bem feito’ e seu relacionamento com Caroline não me pareceu um modelo particularmente saudável, mesmo sem jogar Elsa, a amante, no meio. Interessante é que Agatha Christie conseguiu trabalhar muito bem esse triângulo, incluindo o tema do divórcio numa época em que isso era considerado um escândalo (se bem que de qualquer ângulo os feitos de Amyas são escandalosos).

O título do caso é tirado de uma rima infantil - no livro, Poirot a usa como referência para sua organização mental dos suspeitos e testemunhas. Conhecimento prévio da quadrinha não altera a percepção da história, tendo em vista que ela não tem ligação direta com o caso (como ocorre, por exemplo, com Cem Gramas de Centeio).

Os Cinco Porquinhos é considerado um dos melhores livros escritos pela tia Agatha. Publicado em 1942, é um dos primeiros romances policiais a tratar de um crime arquivo morto - cold case em inglês. É a primeira vez em que ela utiliza essa estrutura narrativa e o faz magistralmente. Mais um ponto para a Rainha do Crime.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Os Cinco Porquinhos
Autor: Agatha Christie
Tradução: Otacílio Nunes
Editora: Globo Livros
Ano: 2014

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A Coruja


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