12 de maio de 2015

Wonderland – Parte II: Somos Todos Loucos Aqui

“Poderia me dizer, por favor, que caminho devo tomar para ir embora daqui?”

“Depende bastante de para onde quer ir”, respondeu o Gato.

“Não me importa muito para onde”, disse Alice.

“Então não importa que caminho tome”, disse o Gato.

“Contanto que chegue a
algum lugar”, Alice acrescentou, à guisa de explicação.

“Oh, isso você certamente vai conseguir”, afirmou o Gato, “desde que ande o bastante.”

Como isso lhe pareceu irrefutável, Alice tentou uma outra pergunta. “Que espécie de gente vive por aqui?”

Naquela direção”, explicou o Gato, acenando com a pata direita, “vive um Chapeleiro; e naquela direção”, acenando com a outra pata, “vive uma Lebre de Março. Visite qual deles quiser: os dois são loucos.”

“Mas não quero me meter com gente louca”, Alice observou.

“Oh! É inevitável”, disse o Gato; “somos todos loucos aqui. Eu sou louco. Você é louca.”
Alice no País das Maravilhas e Através do Espelho são, muito provavelmente, os mais famosos livros infantis do século XIX (antes que alguém tente argumentar, Peter Pan, de J. M. Barrie, foi publicado já no século XX). De fato, eles inauguraram uma nova era na literatura infantil inglesa – livros que não precisavam ser didáticos ou moralistas, que não ensinavam lições, mas que simplesmente criavam mundos fantasiosos em que as crianças podiam brincar com sua imaginação livremente.

Embora tenha havido outros autores antes de Carroll a usar de mundos fantásticos em suas obras, o sucesso que ele conseguiu com seus livros foi o que fez o mercado enxergar que existia um inteiro filão literário que não era explorado e que crianças (e adultos) também gostavam de histórias sem lições e moralismos.

Ísis: Amém!!!

Dé: Surpreende que tenham demorado tanto para perceber isso.

Os dois volumes das aventuras de Alice são, simultaneamente, sem qualquer senso, ricos de significado e fortemente fundamentados na lógica. Isso pode parecer bastante contraditório, mas a verdade é que faz todo o sentido do mundo aplicado à obra de Carroll.

Tanto o País das Maravilhas quanto o Outro Lado do Espelho são mundos que, comparados ao nosso – e Alice, em suas jornadas, está constantemente fazendo comparações – são ‘o avesso do avesso do avesso’. Contudo, vistos mais de perto, eles possuem sua própria lógica, e, a partir do momento em que Alice – e o leitor – é capaz de compreendê-lo, ela pode usar essa lógica a seu favor.

Para ilustrar melhor esse ponto, vamos começar lembrando que a era vitoriana é um período famoso pela expansão do Império Britânico, o que gerou um enorme interesse pelo estrangeiro: o estranho, pigmeus, múmias, o misticismo oriental, tribos perdidas, cultos secretos, e por aí afora.

A idéia de Alice explorar de forma ‘profissional’ esse novo mundo em que ela chega – e o estranhamento que lhe causa os aparentes absurdos dessa cultura que ela não conhece – ecoa uma geração de aventureiros como Livingstone e Richard Burton, parte invasores, parte cientistas, parte ‘esforço civilizatório’.

Dé: Não vou negar que provavelmente faria o mesmo, caso estivesse no lugar dela...

Lulu: Melhor que se sentar no chão e começar a chorar, não é verdade?

Não à toa, a violência é também parte intrínseca das jornadas exploratórias da garota: a expansão do Império não se deu sem muito derramamento de sangue. Nos mundos imaginários de Carroll existem também conflitos e batalhas, muitas vezes inevitáveis, mas, ao mesmo tempo, desnecessárias e sem sentido. Essa violência gera um humor mórbido quase sadista, não particularmente diferente de desenhos animados de nossa infância, como Picapau ou Tom e Jerry.

Ísis: Eu odiava esses desenhos por esse exato motivo, mesmo quando criança... (Bem, no segundo caso, porque eu não gostava que o Jerry se safava 98% das vezes, mesmo sendo ele a começar a implicância pelo menos metade dos episódios...)

A curiosidade move Alice, uma curiosidade infantil incapaz de avaliar riscos – afinal, ela se enfiou pela toca do coelho sem qualquer plano ou meio de retorno, e, não hesita muito a beber ou comer de cogumelos e frascos oferecidos por estranhos. Talvez isso possa nos horrorizar e usar como exemplo do que não se deve jamais fazer, mas não podemos esquecer que Alice é uma criança, e crianças não aprendem por deduções e inferências, mas através da experimentação – colocando o que não deve na boca, metendo o dedo na tomada...

Dé: Comendo terra, ralando os joelhos, escalando árvores...

Ísis: Essas listas tão soando como experiências próprias... Hehehehe...

De uma forma geral, os personagens nos dois volumes são bidimensionais, presos perpetuamente em padrões de conduta do qual não podem se desvencilhar. Tweedledum e Tweedledee estão sempre brigando, Humpty Dumpty sempre cairá do muro, a Rainha de Copas sempre pedirá as cabeças de seus súditos, a festa do chá nunca termina. Eles são francos ao ponto de serem bruscos, compartilhando seus pensamentos mais privados sem qualquer tipo de censura – em outras palavras, tudo o que precisamos saber deles está na superfície.

Uma das poucas exceções à regra é a Lagarta, que irá se metamorfosear em borboleta – e, não à toa, é a Lagarta que serve como uma das mais importantes guias de Alice no País das Maravilhas, levando-a a fazer uma das principais perguntas do livro: a questão da identidade.

Os jardins de Christ Church College, uma das inspirações para Carroll

Identidade, para Alice, é algo que está sempre mudando, junto com seu tamanho. Essa instabilidade cria um bocado de ansiedade e confusão para nossa heroína, mas também permite certo tipo de exploração diferente da geográfica . Quando perguntam a Alice “quem é você?”, somos levados, junto com ela, a questionar o que realmente constitui identidade – somos um nome, um comportamento, uma crença? Quem somos nós?

O motivo mais óbvio para essa confusão passa pela questão do crescimento – na mudança da infância para a adolescência. Mas devemos notar que Carroll não trata dessa transformação como algo bom e natural – para Alice, crescer é algo sobre o que ela não tem qualquer controle e que é, no mais das vezes, sinônimo de confinamento. Ela consegue se libertar através do engenho e imaginação, ‘armas’ frequentemente vinculadas à juventude – não apenas de corpo, mas de mente.

Alice precisa se confrontar com esse tipo de pergunta porque, até então, sua educação é uma imensa lista de fatos e frases decoradas – e decoradas muito mal a julgar pelo atropelo que ela faz do que está declamando. É uma clara crítica ao sistema educacional, da decoreba sem raciocínio: o que as crianças aprendem na escola não é nem um pouco prático, e Alice tem dificuldade de colocar o que aprendeu em contexto ou aplicar isso à vida real. Em vez de aprender como pensar, ela é ensinada sobre o que pensar.

Ísis: Engraçado (ou não) que essa crítica se faz até hoje... Isso já era considerado crítica na época, ou essa é uma interpretação mais contemporânea?

Lulu: Já era uma crítica na época. Acho que essa sempre foi uma crítica em todo e qualquer sistema educacional que não se preocupa em ensinar a criança a pensar por si...

Para além disso, a dificuldade que nossa heroína sente em explicar quem é ela decorre do fato que Alice também é uma personagem bastante bidimensional. E isso também não é coincidência.

No ‘mundo real’, a única personagem com nome com que Alice interage é sua gatinha Dinah. Fora isso, ela tem uma irmã mais velha que para além da breve aparição da moça ao final do primeiro volume, não dá mais o ar da graça. Alice não pensa em sua mãe, ou seu pai ou qualquer outro membro da família, mesmo nos momentos em que está mais assustada . Num certo aspecto é uma heroína completamente genérica e isso é o que permite a nós, leitores, nos imaginarmos em seu lugar.

Ísis: Isso realmente é incomum. Foi verdadeiramente proposital?

Lulu: Tudo indica que sim... mas não temos como ter certeza sem perguntar ao Mr. Dodgson e só poderíamos fazer isso com a ajuda de um médium...

Para além das famosas ilustrações de John Tenniel, e de algumas expressões idiomáticas características do período, há muito pouco nos livros que nos prenda a uma única e determinada época e lugar. Alice transcende esses contextos.

A falta de profundidade aparente nos permite usar Alice para refletir e descartar preconceitos, a nos afastar de presunções. Junto com ela, nos esforçamos para entender a lógica atrás de situações aparentemente insanas ou absurdas e assim nos abrirmos a novas interpretações.

Cá entre nós? Isso é uma das minhas coisas favoritas em Alice...

(Continua em... A Casa do Espelho)

Já está na hora do chá?

p.s.: A segunda rodada do The Great (Owl) Game já começou. Entre sorteios e o grande prêmio final, o que está esperando para participar?

 
 A Coruja


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