24 de julho de 2014

Desafio Corujesco: Sir Richard Francis Burton

Eu costumava ridicularizar a idéia de que minha honra estivesse de alguma maneira ligada ao fato de falar a verdade. Considerava uma impertinência ser interrogado. Não conseguia entender a baixeza moral que podia haver numa mentira, a menos que fosse dita por medo das conseqüências de dizer a verdade ou que lançasse a culpa sobre uma outra pessoa. Esse sentimento continuou por muitos anos, e finalmente, como ocorre muito amiúde, tão logo entendi que a mentira é desprezível, ele se transformou no extremo oposto, um hábito desagradável de dizer escrupulosamente a verdade, fosse ou não o momento adequado.
Mais um livro para o meu desafio corujesco! E pensar que eu estava planejando ler apenas um dos calhamaços daqui de casa para o tema desse mês... mas até que estou fazendo uma boa média esse ano, então, cá está mais um volume de mais de quinhentas páginas para resenhar.

Não me lembro exatamente quando foi a primeira vez que ouvi falar no nome de Burton – provavelmente quando li As Mil e Uma Noites, vez que é graças a ele que o Ocidente conheceu Sherazade. Mas à época ele era apenas uma nota de rodapé para mim.

Meu real interesse pelo ilustre personagem surgiu quando comecei a ler As Crônicas da Imaginarium Geographica, mais especificamente em The Shadow Dragons. Burton começa a história como um ‘vilão’ e depois se alia aos guardiões – mas desde sua primeira aparição, ele é absolutamente fascinante.

Foi por causa de sua contraparte ficcional que fui atrás de ler a biografia do personagem real. E, caramba, minha gente, mas a vida de Richard Burton é um daqueles casos em que o real é muito mais inacreditável que a ficção.

O pai de Burton era um coronel do exército que foi aposentado por ser um cavalheiro e ter se recusado a depor num processo de adultério contra a esposa de George IV (que estava fazendo de tudo e mais um pouco à época para se livrar da mulher). Sem se sentir particularmente à vontade na Inglaterra, o coronel carregou a família para a França, onde Richard cresceu como um pequeno patife, em meio a brincadeiras com o irmão, Edward.

Por questões de saúde, a família foi um tanto nômade e em sua infância e adolescência, o rapaz morou em vários lugares na França, na Itália, antes de retornar à Inglaterra para começar a estudar em Oxford. Desde o princípio, ele se revelou um gênio para línguas (e meio que comprou briga na universidade por seu latim e grego perfeitos, melhor até do que o dos professores...), e embora tenha detestado o ambiente da universidade, foi lá que teve seu primeiro contato com as línguas orientais.

Após ser expulso de Oxford, ele conseguiu convencer o pai a deixá-lo entrar no exército – o Coronel Burton se desencantara com a própria profissão e preferia que os filhos se tornassem respeitáveis clérigos – e assim é que Richard entrou para a Companhia das Índias Orientais e foi para a Índia.

Lá, ele continuou com seus estudos de línguas, deixou o anglicanismo para se tornar primeiro católico, depois entrar no culto das najas, depois ir para outras religiões mais antigas, estudar a sério o hinduísmo, o tantrismo, o islamismo, um tanto de cabala e judaísmo e por aí afora. O mais importante nisso, contudo, é que ele foi o primeiro branco a ser aceito em muitos desses círculos de iniciados. Burton esteve em muitos lugares pelo Oriente em que nenhum europeu antes se aventurara.

Sua facilidade para línguas e sua tez morena (nasceu ruivo, mas foi se tornando mais ‘cigano’ com o tempo) fizeram com que ele se tornasse capaz de sumir em meio a todo tipo de multidão e o tornaram um dos mais importantes agentes do serviço secreto à época.

Ele andou por praticamente todo o mundo (morou até no Brasil!) numa época de profundas complicações políticas. A despeito de certos preconceitos, foi uma das poucas vozes do período a se levantar contra abusos nas colônias inglesas, em especial na forma como se tentava obliterar as culturas dos povos conquistados – não necessariamente porque fosse bonzinho, mas porque compreendia que isso só geraria mais rancor e mais revoltas. Em pleno período vitoriano, uma época de intensa repressão sexual, ele traduziu o Kama Sutra e As Mil e Uma Noites e defendia abertamente a capacidade feminina para também sentir prazer.

Foi escritor, tradutor, soldado, geógrafo, diplomata, espião, explorador, orientalista, esgrimista, poeta. Liderou uma expedição para descobrir a nascente do Nilo, entrou disfarçado em Meca, lutou na Guerra da Criméia, serviu na Real Sociedade Geográfica e recebeu o título de cavaleiro.

Burton parece ter feito de tudo um pouco, experimentado de tudo um pouco, refletido sobre tudo um pouco. Era um extraordinário erudito, um prolífico escritor, um filho da mãe corajoso e astuto.

É incrível pensar em tudo o que ele fez e viu. Rice, o autor dessa biografia, nos leva a mergulhar nessas aventuras, com citações diretas de Burton e descrições com conhecimento de causa dos lugares pelos quais o homem passou – para escrever a biografia, ele viajou para todos os marcos da vida de Burton.

Minhas impressões finais? Quero ser Richard Burton quando crescer. Mas, enquanto isso não acontece, tenho eu a impressão de que mais cedo ou mais tarde, voltarei a esse livro. Não costumo ler muitas biografias, mas para além do absoluto fascínio despertado pela figura do biografado, o livro é muito bem escrito, muito bem organizado. Vale à pena conhecer.


A Coruja


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