1 de abril de 2015

Para ler: A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras

Chegamos ao cume e olhamos para baixo, na direção da costa. Vi os vilarejos lá embaixo, perto da água. E vi as altas Montanhas Negras diante de mim, do outro lado do mar, despontando em meio à neblina.
Quando estive na Escócia no ano passado, uma das paradas da excursão foi o castelo de Eilean Donan, de onde é possível ver uma ponta da Ilha de Skye – o lugar que serviu de inspiração para esse livro. Estava nublado – e pelo que ouvi dos guias, a Escócia de uma maneira geral vive permanentemente nublada -, a maré estava suficientemente baixa para eu sair escorregando pelas pedras que de outra maneira ficariam encobertas pela água para encontrar um bom lugar para tirar fotos e quando afinal o encontrei, tive a impressão de estar completamente sozinha no mundo.

De um lado você tem as ruínas do castelo; do outro, uma massa de colinas envoltas por nuvens e ao seu redor as águas profundamente escuras de três grandes lagos que vão se encontrar naquele ponto. O vento é constante e gelado – se infiltra nas brechas do casaco, das meias, cachecóis e toda a parafernália que você tenha para se proteger do clima.


É o lugar perfeito para acreditar em espíritos, fantasmas e deuses perdidos, heróis e monstros.

Quando li A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras eu já conhecia a história de uma outra antologia de contos do Gaiman (Stories, se não me engano, editado por ele com o Al Sarrantonio), e das leituras e entrevistas que ele fez pouco antes da publicação do livro ilustrado. Eu sabia que Gaiman tivera a inspiração para a história numa passagem pela Escócia, exatamente por Skye – e assim, quando reli o conto nessa edição, não conseguia tirar da cabeça a impressão que tive quando estive naquele lugar.

A história em si parece um conto simples de ambição, culpa e vingança, mas existe bem mais em sua essência. Há uma mistura de mundano e sobrenatural, um senso de angústia ao longo de toda a narração – angústia, expectativa e mal reprimida violência. Os fatos e as lembranças começam de forma desencontrada, revelando-se à medida que vamos subindo a montanha, e você não entende bem os motivos que levam o protagonista a procurar Calum e pedir que ele o guie até a caverna - ele não parece ser o tipo de pessoa que se preocupa com ouro.

Quando afinal compreendemos o que aconteceu, é um choque.

As ilustrações de Eddie Campbell enfatizam essa sensação com seus contrastes e sombras e ajudam a visualizar as majestosas paisagens pelas quais o narrador e Calum passam em sua jornada. Elas se harmonizam perfeitamente com o clima da história.

A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras é um livro bem típico do estilo do Gaiman, sombrio e fascinante. Recomendado.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica
Título: A Verdade É uma Caverna nas Montanhas Negras
Autor: Neil Gaiman
Tradução: Augusto Calil
Ilustrações: Eddie Campbell
Editora: Intrínseca
Ano: 2015
Número de páginas: 80

Onde Comprar

Amazon || Cultura || Saraiva

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A Coruja


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17 comentários:

  1. A Escócia é um lugar onde tudo parece mágico... Gostaria de poder ir lá. Dizem que um outro canto do mundo onde se sente o tipo de solidão que você falou é a Islândia - outro lugar que parece mágico. Será que Neil Gaiman já foi à Islândia? :-)

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    1. Eu acho que já li algum post dele em algum lugar sobre uma visita à Islândia... ou posso estar enganada, quem sabe? E, definitivamente, a Escócia é o tipo de lugar em que você acredita em todo tipo de magia. Fiquei totalmente apaixonada...

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  2. Que fofura esses marcadores! Principalmente o de Sandman. Angel arrasando como sempre! :D

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    1. A Angel está sempre se superando, não é?

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  3. Ando curiosa com esse livro, as resenhas são sempre boas... e dia desses, no facebook da editora, acho, eles disponibilizaram um vídeo com partes da apresentação que Gaiman fez lendo esse livro, naquela voz poderosa dele... Só pra aumentar a curiosidade :)

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    1. Eu estive na Escócia acho que um mês antes ou um mês depois (agora não lembro exatamente...) da série de leituras que ele fez em Edimburgo, acompanhado de um quarteto de cordas. Pode imaginar o luxo que é, assistir Gaiman ler o conto, com música ao vivo, as ilustrações e no lugar em que ele se inspirou para escrever a história? Ah, como eu queria...

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  4. Engraçado que, embora eu saiba que a Escócia seja geralmente cinzenta, eu sempre a imagino clara e ensolarada...e fria.
    Gosto muitíssimo de Neil Gaiman, mas este eu não conhecia. Fiquei curiosa agora...

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    1. Ele é recente, tinha sido publicado em antologias mas como livro em si, acho que saiu em inglês no meio do ano passado... E em português esse ano.

      Se vale de consolo, peguei sol e céu azul em Edimburgo e isso porque viajei no outono... Mas quanto mais ao norte você vai, mais cinzento e frio fica...

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  5. Eu acho que acabo de ter um comentário quase-semi-gigante devorado pelo Blogspot! Tudo bem, Blogspot, pode ficar com meu comentário...tantos anos lendo fantasia e ficção, já aprendi que é melhor não desafiar sistemas-de-comentários-prestes-a-adquirir-consciência-de-si-mesmos =(

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    1. É por essas e outras que eu SEMPRE copio o que acabei de escrever antes de apertar o botão de publicar. O problema é que o blogger não consegue fazer seu login e publicar comentario ao mesmo tempo. Ele prefere fazer o login e aí come seu comentário...

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  6. Oi, Lu!
    Não sabia nada sobre este conto, mas é claro que ele já estava na lista de querências, sabendo agora dessa inspiração achei ainda mais tri, tenho uma quedinha pela Escócia sem nunca ter ido lá hehehehehe...
    Adorei o tema do mês? Sim ou com certeza :D
    estrelinhas coloridas....

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    1. Eu li sobre isso acho que no blog dele... ou na introdução de Trigger Warning - porque esse conto aparece na antologia também, mas, claro, sem as ilustrações que fazem esse volume tão especial. Quando bati o olho nele dizendo 'ilha de Skye" na hora lembrei "ei, eu estive lá por perto..." XD

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  7. Confesso q ainda não sabia desse livro, ando super desatualizada do universo literário, mas já fiquei com vontade de ler. P.s.: a Escócia deve ser lindíssima, morro de vontade de conhecer

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    1. Eu recomendo para todo mundo ir visitar a Escócia... que lugar maravilhoso... E, bem, esse aqui é lançamento, normal não saber dele. Mas você tem o Coruja para falar desses livros do Gaiman ;)

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  8. Que legal! Essa último sábado fui a Livraria Cultira e folheie o livro, realmente as ilustrações são lindas, grandes, ocupam a página inteira! Pela descrição feita aqui, acho q é o tipo de história que eu curto! O modo como foi descrito me lembrou mto Edgar Allan Poe, principalmente na narração do começo do conto A Queda da Casa de Usher, onde não se tem um sobrenatural exatamente, mas a atmosfera do lugar e das pessoas passa a impressão do sobrenatural! Curti! Quero ler o livro! Espero conseguir pelo sorteio.... Se não terei que ir até a livraria pra comprar, pois não sei se comseguirei ficar sem ler! Kkkkk

    Nome: Laura M Barros
    E-mail: lauramedina90@hotmail.com

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    1. De fato, Laura, acho que dá mesmo para identificar com o Poe, com o clima das histórias dele... até pela forma da narrativa em primeira pessoa. Fiquei um bom tempo depois que terminei o livro refletindo sobre ele...

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    2. KKK assim como eu fico quando leio Poe ou os contos fantásticos que adoro! Diga-se de passagem, to lendo Poe (The black cat) agora, para a aula de ingles! Kkkkkk

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