23 de outubro de 2014

360º: As Aventuras de Kolory na Grã-Bretanha || Parte III ~ Em Busca de Mitos

Após dois dias batendo perna para cima e para baixo por Edimburgo, avançamos mais uma vez rumo ao norte e nossa próxima parada é Stirling.

Olha a Kolory ali no gradeado...

Stirling é a maior cidade no centro da Escócia, construída em torno de uma fortaleza medieval, tendo sido capital do país uma vez que serve de ponte entre as terras altas e as terras baixas. Não há uma data de fundação da cidade, mas há indícios de população no local desde 81 d.C.

Chegamos à cidade pela manhã bem cedo e estava um frio cortante. Não havia viva alma nas ruas além do pessoal da excursão e fui descendo a rua até o ponto de encontro para retornar ao ônibus, começando do castelo, passando pelo cemitério – e é interessante perceber que praticamente todas as cidades escocesas pelas quais passei têm em seu centro uma fortaleza e um cemitério.


Aqui no Brasil, o centro da cidade é geralmente uma igreja. Curioso, não?

Rob Roy

Stirling foi palco de várias batalhas pela libertação da Escócia em diferentes guerras. A mais lembrada, provavelmente, é aquela em que o lado escocês foi liderado por William Wallace e não à toa existe num dos montes em torno do vale em que se encontra a cidade um monumento ao herói escocês.

Que vista, não?

É outra subida íngreme e quase vertical em alguns pontos – daquelas subidas de fazer o coração dar pontada de tão rápido que está batendo e de tão curto que está o fôlego. O frio não ajuda muito a respirar, mas ao menos o exercício é o suficiente para esquentar (a essas alturas eu já não estava nem sentindo mais as pontas dos dedos por causa do vento).

Mas tudo vale à pena quando você chega lá em cima e se deparar com a vista.


De Stirling vamos para a região de Blair Athol, onde nossa primeira parada é a destilaria de mesmo nome.


Embora oficialmente a Blair Athol tenha começado em 1826, as primeiras evidências documentais de uma destilaria no local são de 1798 – numa época em que a produção de whisky era ilegal.

Lá é produzido o whisky Bell’s – não que pra mim faça particular diferença, uma vez que eu não bebo... mas o processo como a bebida é preparada não deixa de ser interessante...

Vai uma dose?

Após Kolory se deleitar na degustação de whisky, fomos almoçar em Pitlochry.


Pitlochry começou a se desenvolver no século XVIII. Seu nome vem do gaélico ‘Pit Cloich Aire’, que significa ‘lugar da sentinela de pedra’. Historicamente, em comparação com outros lugares por onde passamos, é um bebê. Mas as paisagens em torno da cidade, especialmente no início do outono, são para encher os olhos.


Eu fiquei particularmente encantada com essa cidade – parece um bibelô, uma cidade toda feita de casinhas de boneca.

Continuando em frente vamos chegar ao Castelo Blair e aqui a primeira coisa que impressiona é o parque no entorno do edifício, com seus gramados imaculados e grandes pinheiros.


A parte mais antiga desse castelo data de 1269 e é conhecida como a Torre de Cumming; tendo havido expansões e renovações no período georgiano – 1740 – e vitoriano – 1860 a 1870.

Olha o Castelo lá ao fundo

Sua história abarca visitas de Mary, rainha da Escócia (aquela que perdeu a cabeça), até a apaixonada Rainha Vitória, que acabou criando aqui um regimento de Highlanders. É a morada ancestral do clã Murray, assento de seu chefe, o Duque de Athol.


A última parada do dia – e esse será o nosso pouso pelos próximos dois dias – é Inverness.


Inverness vem do gaélico ‘Inbhir Nis’, que significa ‘Boca do Rio Ness’. É considerada a capital das Terras Altas da Escócia. Começou como uma fortaleza dos Pictos, tendo sido visitada em 565 por São Columba, um dos grandes missionários escoceses e, supostamente, a primeira pessoa a ter avistado Nessie, o monstro do Lago Ness.


Supostamente, a história contada em Macbeth ocorreu aqui – mas o castelo em que Mac Bethad mac Findláich teria assassinado Donnchad (mais conhecido para os leitores de Shakespeare como Duncan) foi destruído por um rei posterior, Máel Coluim III (ou Malcom III).

O Rio Ness

Sendo um local com importância estratégica, assim como Stirling, de que já falamos, serviu de campo para muitas batalhas – Inverness é, certamente, uma terra banhada por sangue...

Após dormir em Inverness, o dia seguinte começa cedo e fazemos uma rápida parada fotográfica junto ao Lago Carron para admirar a paisagem com seus imponentes fiordes, a neblina e o frio.


Sim, o frio é algo para ser admirado quando você se lembra de se agasalhar corretamente e não deixar luvas, touca e cachecol na mala trancada.


Continuamos na estrada e devo observar que há tanto para se ver na estrada entre uma e outra cidade quanto em cada atração turística em que paramos pelo caminho. Para além da vegetação colorida de outono (que não me cansei de admirar) há uma constante de riachos e lagos, montanhas e regiões cobertas de neblina e de repente você dobra uma curva e aparecem ruínas misteriosas de relance – casas de pedra de séculos atrás, torres que poderiam ser de igrejas ou castelos abandonados, inteiras vilas que parecem cidades fantasmas.

 

E aí chegamos a Eilean.

Posso me mudar pra cá?

Provavelmente um dos mais famosos panoramas escoceses, o Castelo de Eilean se localiza numa ilhota defronte a Ilha de Skye. Eilean Donan significa ilha de Donnán, nome de um santo martirizado em 617, que teria construído uma igreja ali.


Há indícios de um pequeno monastério datando do século VI ou VII. Posteriormente, um castelo foi construído no século XIII na tentativa de proteger a região de ataques dos vikings. Ao longo dos séculos, expandiu e se contraiu até que em 1719, em uma das revoltas jacobitas, o castelo foi bombardeado pelos ingleses.


Por quase duzentos anos manteve-se como ruínas, até ser reconstruído entre 1912 e 1932 pelo Lt Col John MacRae-Gilstrap, que a transformou em sua casa.

Ao sul do lago Ness fica situado o Forte Augustus, conhecido pela fortaleza cujo nome homenageava o segundo filho do Rei George, Augustus duque de Cumberland, conhecido como açougueiro por seus crimes contra os escoceses.

Pontes de pedra

É conhecido especialmente pelo sistema de eclusas e um ponto de parada para observar o lago Ness - vez que a fortaleza já não existe mais. É um ponto rápido da viagem, só para almoçar e esticar as pernas, antes de avançarmos para a cereja do bolo: Urquhart e o Lago Ness.

Há de se adorar ruínas

O castelo de Urquhart, junto ao lado Ness, é uma ruína que data do período entre os séculos XIII e XVI, tendo, como o Castelo de Eilean, sido destruído por conta das revoltas jacobitas.

 

É de Urquhart que parte nosso pequeno cruzeiro pelo Lago Ness. O frio é intenso, mas revigorante a essas alturas e a paisagem em nosso torno é magnífica. Eis então que por entre as águas escuras do lago, revela-se a verdade. Eis a... CORUJA DO LAGO NESS!

BEWARE THE MONSTER!

Eu estou esperando para dizer isso desde que a idéia de ir à Escócia primeiro me passou pela cabeça...

Ok, então... embora os últimos avistamentos do monstro tenham sido revelados como comprovadamente fraude, a lenda em torno da Nessie começou muito antes de montagens com máquinas fotográficas. Conta-se que o primeiro a vê-la foi um missionário sob ordens de São Columba, por volta de 550 d.C.

Achei a Nessie!

O monstro teria tentado comer o pobre missionário, mas São Columba teria intervindo, colocando-se à frente da criatura e convencendo-a a voltar para as profundezas.

Fazendo amizade

Considerando as águas quase negras do lago, a grande profundidade de algumas partes - há trechos com mais de duzentos metros de profundidade – e dificuldades de relevo, nunca foi possível fazer um mapeamento completo real do lugar. Isso alimenta a lenda.


Isso e a própria geografia e sentimento geral despertado pelo lugar. Eu não acharia difícil acreditar em tudo e qualquer coisa se morasse na Escócia.

Sério, se existe uma única palavra para descrever a Escócia, essa palavra é “dramática”. Seus montes e vales, suas charnecas cobertas de neblina, sua arquitetura, sua história, suas lendas – tudo é intenso, grandioso, misterioso. Acho difícil acreditar em monstros e fantasmas sob o calor do Recife, mas no cenário escocês é muito fácil crer em magia e criaturas fantásticas.

Continuando a viagem, chegamos a Spean Bridge.


Spean Bridge é uma pequena vila nas Terras Altas onde existe um maco chamado ‘Commando Memorial’ dedicado ao Comando Britânico original na Segunda Guerra. Seguindo um pedido de Churchill, voluntários se uniram numa brigada especial para fazer incursões em território germânico ainda em 1940, tendo treinado numa região próxima ao vilarejo.


Daqui estamos aos pés do Ben Nevis, o ponto mais alto das Ilhas Britânicas, com 1.344 metros. Não à toa, é uma região famosa por suas trilhas.

Neblina cerrada, nem dá para ver o topo...

Seguimos para a simpaticíssima Inveraray, uma cidade pequena e calma, com um dos horizontes mais amplos e apaixonantes que vi na viagem, graças ao lago Fyne.

Fiquei totalmente apaixonada por essa vista

Junto ao lago há mais um memorial para soldados e devo observar que memoriais honrando os soldados que lutaram na primeira e segunda guerras são uma outra constante dessa viagem. Praticamente toda cidade pela qual passei na Escócia tinha seu próprio memorial e eles estão sempre bem cuidados e cheios de coroas de papoulas vermelhas.


Essas flores se tornaram um símbolo de homenagem para os soldados porque, após os confrontos, nos campos arrasados por bombardeios, só o que nascia eram papoulas vermelhas.


A essas alturas me pergunto se vocês já não estão cansados de castelos... Inveraray é mais uma cidade construída em torno de um castelo medieval, este de 1744, em estilo georgiano – mais uma mansão que um castelo, para dizer a verdade, mas antes aparentemente havia um castelo ali sim...

Foi o terceiro Duque de Argyll, que tem suas terras na região, que decidiu reconstruir a casa ancestral de sua família – e no processo reformou toda a cidade. Hoje, o castelo serve como uma das locações para a série Downton Abbey.

Continuando em frente e a essas alturas já começamos a descer para o sul, chegamos ao Lago Lomond.

O Lomond é o maior em termos de superfície da Grã-Bretanha, com 71 km² (contra 56 km² do Lago Ness) contendo várias ilhas e aparecendo inclusive em várias canções da região.

Ah, sim, antes que eu me esqueça, Loch Lomond é também o nome do whisky escocês que o Capitão Haddock amigo de Tintin gosta de beber na série do Hergé.

Lomond serve de morada para uma das criaturas mais temidas do folclore escocês – o kelpie. Posso achar hilariante o fato de que eu já escrevi uma história inspirada nessa lenda e agora conheço o lugar onde ela supostamente poderia ter acontecido?


Para quem não sabe, o kelpie é uma espécie de cavalo espectral que pode ser identificado por sua crina encharcada. Ele pode usar de ilusões para convencer você a montar e, uma vez que sua vítima caia na armadilha, sua pele faz com que a pessoa fique grudada nele, de forma que ele a leva para dentro do lago, a afoga e devora.

E não, antes que perguntem, não vi kelpies na minha viagem. Não tenho também certeza que gostaria de vê-los...

Para não ficar atrás do Lago Ness, Lomond também tem um monstro misterioso que as pessoas quase nunca vêem, mas que aparentemente é uma espécie gigantesca de crocodilo. Vá entender...

Mas o que eu gostei mais de descobrir sobre Lomond é que, aparentemente, foi desse lago que ninguém menos que o Rei Arthur tirou a espada Excalibur. Também próximo, em Glen Douglas, teria ocorrido uma das batalhas travadas pelo rei, segundo a Historia Brittonum do monge Nennius – que é considerada uma das versões primevas do mito arturiano.

Chegamos ao último ponto da excursão antes de retornar a Londres: Glascow, a maior cidade da Escócia, terceira maior da Grã-Bretanha e um dos principais portos do país. Há sinais de habitação da área desde tempos pré-históricos, mas a cidade como conhecemos hoje começou a crescer por volta do século IX. Infelizmente, muito pouco da arquitetura medieval sobreviveu – a maior parte do que se vê hoje data do século XIX.

Glascow foi mais uma parada estratégica que propriamente uma visita – chegamos já no final do dia, estava quase tudo fechado e só passamos pela cidade com o city tour. Particularmente, preferi Edimburgo, mas não tive tempo de realmente caminhar por Glascow, já que no dia seguinte acordamos cedo para pegar a estrada para Londres...

Mesmo o atravessar da fronteira foi sem maiores pompas. Havia apenas uma placa de “Welcome to England”. A parte mais interessante do dia foi quando, pouco antes de atravessar a fronteira, passei por uma pequena placa dizendo que há duas milhas ficava a entrada de Gretna Green.

Leitores de romances de época certamente entenderão porque caí na gargalhada ao ler a tal placa: sempre que um casal na Inglaterra quer fugir para se casar – porque não quer esperar o tempo das proclamas, porque a família não consente – eles fogem para Gretna Green. Essa é a primeira cidade ao entrar na Escócia e aqui o casal podia se casar sem se preocupar com a burocracia inglesa, bastando entrar em alguma ferraria e pedir ao ferreiro que procedesse com a união.

Eu bem que gostaria de conhecer essas casas de ferreiro, porque esse detalhe nesse tipo de história sempre me despertou grande hilaridade. Talvez numa viagem futura...

2.275 km após sair de Londres, estávamos de volta e a partir daqui, fiquei por minha conta. Conseguem adivinhar o que decidi aprontar?


A Coruja


____________________________________

 

2 comentários:

  1. Deu vontade de morar na Escócia... é tudo tão lindo... u.u

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Pois é, também fiquei com vontade de mudar de mala e cuia...

      Excluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog