31 de outubro de 2017

Tradução - Máquinas Assombradas

Sam Weber, ilustração do artigo original

Li Ghosts in the Machines pela primeira vez na coletânea de não ficção The View From the Cheap Seats, mas ele foi escrito originalmente para o New York Times em 2006 e foi também lido pelo próprio Gaiman numa apresentação em 2011 - aliás, deixei o vídeo ao final da tradução para que vocês possam se deleitar com a narração dele.

Uma das coisas que gosto nos ensaios do Gaiman é como ele mistura não-ficção com ficção - como ele está debatendo um determinado ponto de vista e antes que você se dê conta, ele começou a contar uma história. Ele faz isso também em introduções de livros e esse é só um dos inúmeros motivos pelos quais você nunca deve pular uma introdução dele e ir logo para a história. Fato é que, quando li esse específico ensaio, tive calafrios com os contos que ele cria e que pontuam o texto aqui e ali. Creio que não poderia encerrar de forma melhor nosso All Hallow’s Read do que traduzindo um ensaio do Gaiman que fala, justamente, sobre o dia das bruxas e como histórias de fantasmas continuam perfeitamente pertinentes em nosso mundo povoado por tecnologia.

Máquinas Assombradas

Estamos reunidos aqui no final do que Bradbury chamou de País de Outubro: um estado de espírito tanto quanto é um momento no tempo. Todas as colheitas foram recolhidas, a geada está no chão, há uma névoa no ar fresco da noite, e é hora de contar histórias de fantasmas.

Quando eu estava crescendo na Inglaterra, o dia das bruxas não era uma época de celebração. Era a noite em que - nos era assegurado - os mortos caminhavam; quando todas os seres da noite estavam à solta e, crendo nisso, nós, crianças, sensatamente ficávamos em casa, fechávamos nossas janelas, barrávamos nossas portas, ouvíamos os galhos remexerem e tamborilarem nos vidros, estremecíamos e ficávamos contentes.

Havia dias que mudavam tudo: aniversários e Anos Novos e Primeiros Dias de Escola, dias que nos mostravam que havia uma ordem em todas as coisas, e as criaturas da noite e da imaginação entendiam isso, assim como nós. A Véspera de Todos os Santos era sua festa, a noite em que todos os seus aniversários chegavam ao mesmo tempo. Eles tinham licença - todas as fronteiras estabelecidas entre os vivos e os mortos estavam abertas - e havia bruxas também, eu havia decidido, pois nunca tinha conseguido ter medo de fantasmas, mas bruxas, eu sabia, esperavam nas sombras e comiam garotinhos.

Eu não acreditava em bruxas, não à luz do dia. Na verdade, nem mesmo à meia-noite. Mas no Halloween eu acreditava em tudo. Eu até acreditava que existia um país do outro lado do oceano onde, naquela noite, pessoas da minha idade passavam de porta em porta fantasiadas, implorando por doces, ameaçando travessuras.

O dia das bruxas, naquela época, era um segredo, algo privado, e eu abraçaria meu eu menino no Halloween, tão gloriosamente assustado.

Agora eu escrevo ficção, e algumas vezes as histórias se desviam para o sombrio, e então descubro que tenho de me explicar aos meus entes queridos e amigos.

Por que você escreve histórias de fantasmas? Existe algum lugar para histórias de fantasmas no século XXI?

Como Alice disse, há muito espaço. A tecnologia não fez nada para dissipar as sombras nos cantos das coisas. O mundo das histórias de fantasmas ainda paira nos limites da visão, tornando as coisas mais estranhas, mais escuras, mais mágicas, assim como foi desde sempre…

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Há um blog que, creio eu, ninguém mais lê. Eu me deparei com ele buscando por outra coisa, e alguma coisa nele, o tom de voz talvez, tão monótono, sombrio e sem esperança, chamou minha atenção. Marquei-o.

Se a garota que o mantinha soubesse que alguém o estava lendo, talvez ela não tivesse tirado a própria vida. Ela até escreveu sobre o que iria fazer: os comprimidos, Nembutal e Seconal e o resto que ela tinha furtado um pouco de cada vez, ao longo dos meses, do banheiro de seu padrasto; a bolsa de plástico, a solidão; e escreveu sobre tudo isso de forma tão simples e pragmática, explicando que embora ela soubesse que tentativas de suicídio eram pedidos de ajuda, o que ela estava fazendo não era isso - ela apenas não queria mais viver.

Ela fez uma contagem regressiva até o grande dia, e eu continuei lendo, incerto sobre o que fazer, se é que alguma coisa podia ser feita. Não havia informações suficientes sobre a identidade dela na página para confirmar sequer em que continente ela estava. Nenhum endereço de e-mail. Nenhuma maneira de deixar comentários. A última mensagem dizia simplesmente, “essa noite”.

Eu me perguntei sobre quem eu deveria alertar e então dei de ombros, e, da melhor maneira que podia, engoli a sensação de ter decepcionado o mundo.

E então ela começou a postar de novo. Ela diz que está com frio e está sozinha.

Eu acho que ela sabe que eu continuo lendo…

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Lembro-me da primeira vez em que me encontrei em Nova York no dia das bruxas. O desfile passou, e passou e passou, todos bruxas e ghouls e demônios e rainhas perversas e todos gloriosos, e eu tinha, por um minuto, sete anos mais uma vez, e estava profundamente chocado. Se você fizesse isso na Inglaterra, peguei-me pensando na parte da minha cabeça responsável pelas histórias, aqueles seres acordariam, todas as coisas que nós queimamos nas fogueiras de Guy Fawkes para mantê-los longe. Talvez possam fazer isso aqui porque as coisas que as veem não são inglesas. Talvez os mortos não caminhem aqui no Halloween.

Então, alguns anos depois, eu me mudei para a América e comprei uma casa que parecia ter sido desenhada por Charles Addams num dia em que ele estava se sentindo particularmente mórbido. Para o dia das bruxas, aprendi a esculpir abóboras, então me abasteci de doces e esperei que os primeiros pedidos de gostosuras-travessuras chegassem. Quatorze anos depois, continuo esperando. Talvez minha casa pareça um pouco perturbadora; talvez seja apenas muito longe da cidade.

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Houve, naquela época, ela que gravara na entrada do correio de voz do celular, soando divertida enquanto falava, que temia ter sido assassinada, mas que deixássemos uma mensagem e ela nos retornaria depois.

Não foi até lermos as notícias, vários dias depois, que soubemos que ela realmente fora assassinada, aparentemente de forma bastante aleatória e horrível.

Mas então ela retornou notícias para cada uma das pessoas que tinha lhe deixado uma mensagem. Por telefone primeiro, deixando gravações que soavam como alguém sussurrando em uma tempestade, sons abafados e molhados que nunca se resolviam em palavras.

Eventualmente, claro, ela retornará nossas chamadas pessoalmente.

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E ainda perguntam: por que contar histórias de fantasmas? Por que lê-las ou ouvi-las? Por que tirar tanto prazer em contos que não tem qualquer objetivo além de, confortavelmente, nos assustar?

Eu não sei. Não realmente. Isso vem de longe. Nós temos histórias de fantasmas do antigo Egito, afinal de contas; histórias de fantasmas na Bíblia; histórias clássicas de fantasmas de Roma (junto com lobisomens, casos de possessão demoníaca e, claro, sempre e sempre, bruxas). Estivemos nos contando contos do diferente, de vida além do túmulo, por um longo tempo; histórias que fazem formigar a carne e tornam as sombras mais profundas e, o mais importante, que nos lembram que vivemos, e que há algo especial, algo único e notável sobre o estado de estar vivo.

O medo é uma coisa maravilhosa, em pequenas doses. Você pega carona no trem fantasma para a escuridão sabendo que, eventualmente, as portas se abrirão, e você sairá para a luz mais uma vez. É sempre reconfortante saber que você ainda está aqui, ainda é seguro. Que nada estranho aconteceu, não de verdade. É bom ser uma criança de novo, por um momento, e temer - não governos, nem regulamentos, nem infidelidades ou contadores ou guerras distantes, mas fantasmas e coisas que não existem e, mesmo que existam, não podem fazer nada para nos machucar.

E esta época do ano é a melhor para uma assombração, pois mesmo os objetos mais prosaicos podem lançar as mais inquietantes sombras.



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