5 de outubro de 2017

O Livro do Juízo Final: Viagens no Tempo, Empatia e Religião

- "Deus enviou o Seu filho único ao mundo."

Deus nunca teria feito isso se soubesse o que aconteceria, pensou Dunworthy. Herodes e o Massacre dos Inocentes e o Getsêmani.

- Leia para mim alguma passagem de são Mateus - pediu ele. - Capítulo 26, versículo 39.

A sra. Gaddson parou, pareceu irritada, mas folheou as páginas até o Evangelho de Mateus.

- "E, indo um pouco adiante, prostrou-se com o rosto em terra e orou: 'Meu Pai, se é possível, afasta de mim este cálice'".

Deus não fazia ideia de onde estava seu filho, pensou Dunworthy. Ele enviara seu único filho para o mundo, mas alguma coisa tinha dado errado com o fix, e alguém desligara a rede, de modo que Ele não pôde mais alcançá-lo, e então as pessoas prenderam o filho, puseram uma coroa de espinhos em sua cabeça e o pregaram numa cruz.

- Capítulo 27 - disse ele. - Versículo 46.

Ela contraiu os lábios e virou a página.

- Eu realmente não acho que estes sejam trechos da Escritura apropriados para...

- Leia - interrompeu ele.

- "Por volta da hora nona, Jesus deu um grande grito: '
Eli, Eli lamá sabachtáni?', isto é: 'Deus meu, Deus meu, por que me abandonaste?'".

Kivrin não faria nenhuma ideia do que podia ter acontecido. Pensaria que havia escolhido o local errado, ou o dia errado, que tinha perdido a noção do tempo de algum modo, que alguma coisa dera errado com o salto. Pensaria que tinha sido abandonada.
O que você faria se pudesse estudar História viajando pela História? É isso que acontece no futuro não-tão-distante de 2054, no Departamento de História de Oxford, cenário que abre O Livro do Juízo Final e que eu estava extremamente ansiosa para ler desde que tive o prazer de descobrir Connie Willis, em duas antologias de contos, no ano passado. Se bem que muito antes disso, meu amigo Enrique já tinha feito a indicação de To Say Nothing of the Dog, que se passa no mesmo universo, de forma que preciso dedicar o texto de hoje a ele. Sério, Enrique, muito obrigada por ter me apresentado à Willis.

Enfim, a história começa com Kivrin, uma estudante de Oxford, preparando-se para uma viagem até o período medieval, para grande consternação do professor Dunworthy - que embora não esteja ligado aos estudos de Idade Média, foi tutor da moça e tem uma ligação até paternal com ela. É a primeira vez que um salto - como se chama o ato de ir ao passado - é feito até o período, já que, em razão das doenças, perseguições às bruxas, criminalidade, falta de saneamento e outras questões complicadas, a Idade Média tem uma nota alta na escala de periculosidade. E isso só ocorre porque o reitor da faculdade de História está de férias e seu substituto, o professor Gilchrist, acha que todos os relatos medievais macabros são, na verdade, um grande exagero e essa é uma perfeita oportunidade de ele mandar um aluno para a época e ganhar os louros. Dunworthy tenta de todas as maneiras demover Kivrin de fazer a viagem, mas ela está decidida e assim é que, quase às vésperas do Natal, ela é enviada para o meio de estrada entre Bath e Oxford, no Ano da Graça de 1320, devendo passar as próximas duas semanas num vilarejo que está sendo escavado por uma de suas professoras no presente.

Exceto que… alguma coisa deu errado. Logo após realizar o procedimento, o técnico responsável pelo salto procura Dunworthy para avisar que algo não seguiu os parâmetros, mas antes de poder explicar o que aconteceu, cai terrivelmente doente. Numa época em que historiadores podem fazer viagens no tempo como projeto de faculdade, é óbvio que a medicina evoluiu de tal maneira que a doença do técnico é uma situação fora da curva e assim é que, em vez de simplesmente seguirmos Kivrin para o passado, permanecemos no presente, onde o que parece uma simples gripe revela-se um vírus violento, que rapidamente se espalha. Oxford fica de quarentena, os Centros de Controle e Prevenção de Doenças correm contra o tempo para sequenciar o vírus e encontrar uma vacina e Dunworthy tenta de tudo para descobrir o que fazer por Kivrin, sem ter ideia sequer se ela conseguiu chegar ao local que deveria chegar… e se foi exposta à influenza antes de ir ao passado.

E, de fato, Kivrin chega ao seu destino quase delirante, com sintomas já bem avançados do vírus. Por sorte, a médica responsável por sua preparação para o salto lhe deu tantas vacinas e reforços imunológicos - incluindo até uma imunização para a peste bubônica - que ela consegue reagir o suficiente e se descobre acolhida na casa de uma família de algumas posses, numa vila próxima a Oxford. Ali, ela passa sua convalescença e começa suas pesquisas, observando as damas da casa, Imeyne e Eliws; as filhas, Rosemund e Agnes; os servos e também o padre da vila, o gigante (e um tanto assustador à primeira vista) padre Roche.

O enredo se alterna em capítulos na Oxford de 2054 e a vila medieval, entre o caos social que se instaura com a quarentena numa, e os preparativos para o Natal e o cotidiano de uma casa senhorial noutra. O interessante é que esses dois focos narrativos são presididos por acadêmicos, mas tanto o professor Dunworthy quanto Kivrin perdem qualquer distanciamento e objetividade, ele em sua preocupação com ela; e ela, no seu interesse pela família que a acolheu. Observar o contraste na forma como os acontecimentos evoluem é também uma das grandes jogadas do livro, porque a situação nos dois focos é paralela - pela preocupação com os outros, pela questão da doença e pelo papel da religião.

Não é por acaso que a história se passa no período natalino. Dunworthy constantemente compara sua situação com Kivrin com Deus e Jesus - “Ele que mandou seu filho para o meio dos homens”, mas que, na visão de Dunworthy, teria se arrependido, mas então era tarde demais e o filho já estava perdido e ele era incapaz de encontrá-lo, e depois o “Pai, por que me abandonaste”, a sensação de Kivrin de não conseguir encontrar o local do salto, o fato de as coisas terem dado errado e ela não estar exatamente quando deveria estar. Eles estão constantemente perguntando a uma divindade ausente “por quê?”, enquanto tentam desesperadamente fazer o seu melhor, as pessoas começam a morrer e parece impossível que isso possa terminar num final feliz - o que é curioso, porque a primeira metade do livro te arranca gargalhadas com a fleuma britânica de muitos dos personagens; aí você chega na terceira parte da história e começa a chorar sem parar.

Willis consegue passar muito bem a sensação de impotência e desespero dos personagens, especialmente no caso de Kivrin - ela dá pistas e nos prepara para o que vai acontecer desde o começo, mas quando afinal entendemos o que o técnico tão desesperadamente queria dizer a Dunworthy que dera errado… já é tarde demais.

Quando peguei O Livro do Juízo Final pela primeira vez, fiquei impressionada com o tamanho dele, porque, ao menos em princípio, a sinopse soava bem clara e, o contato que eu já tivera com o estilo de Willis me dizia que ela era uma escritora que não se perdia em muitos arrodeios, era bem direta. Mas cada uma das mais de quinhentas páginas do livro são necessárias; cada um dos personagens está ali por um motivo, ainda que alguns deles sejam bastante estereotipados. Aliás, é engraçado observar que Kivrin parte para a Idade Média repleta de pré-conceitos, mas os estereótipos estão muito mais relacionados aos indivíduos do seu presente: professores cegos pelo ego ou por suas próprias pesquisas; rapazes conquistadores, secretários preocupados, mães superprotetoras, as sineiras americanas - em contraste às personalidades bem melhor desenvolvidas dos medievais.

Fato é que é fácil se apegar a todos que Willis nos apresenta aqui; Kivrin, com sua curiosidade e entusiasmo, Dunworthy, preocupado, sempre ocupado, mas também sempre a serviço, sem perder a humanidade; Colin e a doutora Mary Ahrens, Agnes, Rosamund, padre Roche… E, caramba, daria para escrever um ensaio inteiro sobre a simplicidade, a fé e o desvelo de padre Roche.

É difícil falar muito mais sem entregar um dos pontos principais do plot, o que torna tudo tão mais trágico. Mas é importante perceber que, mesmo quando tudo parece completamente perdido, - na verdade, quando as perdas se somaram tantas que estamos já de coração partido - não se perde a esperança. Ter consciência de que não existe ajuda a caminho e mesmo assim continuar fazendo a sua parte, esforçando-se, tentando auxiliar… o que Kivrin faz naquela pequena vila pode parecer, para ela, algo insignificante no grande esquema das coisas, mas, como Colin observa quando faz a comparação com o outro vilarejo pelo qual ele e Dunworthy passam em busca da estudante, faz toda a diferença: ela impede que as pessoas ao seu redor esqueçam que são humanos e os impele a acreditar.

O título da história é uma referência aos Anais da Irlanda, diário escrito pelo monge John Clyn, cujo relato é uma das nossas principais referências para o que aconteceu na Europa no período da Peste Negra. Clyn é a epígrafe que abre o livro - Kivrin até brinca batizando sua gravação das observações do que está vendo na Idade Média de “Livro do Juízo Final” como uma referência aos escritos do monge e em razão da litania de apreensões do professor Dunworthy - e suas palavras são uma citação constante:
E, para que coisas que devem ser lembradas não sucumbam ao tempo nem se desvaneçam da memória dos que virão depois de nós, eu, vendo tantos males e vendo o mundo, por assim dizer, sob a garra do Maligno, e estando eu próprio como se já entre os mortos, eu, esperando pela morte, deliberei colocar por escrito todas as coisas que testemunhei.
“Para que coisas que devem ser lembradas não sucumbam ao tempo” é o grande tema da história, seja no passado ou no futuro. Os que deveriam ser um objeto de estudo acabam se tornando amigos; quem deveria ser uma aluna é vista como uma filha. Kivrin é a responsável por preservar a memória daqueles que conheceu na Idade Média, da coragem e da tristeza que presenciou; Dunworthy não pode esquecer, carregando consigo a imagem de Kivrin mesmo que tudo pareça perdido. Eles são testemunhas de seu tempo, mais que historiadores imparciais, participantes e catalisadores da ação.

O final da história é em aberto e um tanto agridoce. Há duas ‘continuações’, mas não de forma direta - a noveleta Fire Watch e To Say Nothing of the Dog se passam no mesmo universo, mas com outros personagens. Não acho, contudo, que seja necessária uma continuação. Kivrin nos contou sua história, a história de Agnes e Rosemund, do padre Roche e de Lady Imeyne e tantos outros que apareceram em seu caminho. Fica, ao término, as lições que eles lhe deram, a certeza de coisas terríveis e coisas maravilhosas, de amizade e solidariedade, de conviver com as perdas e continuar. É uma história para emocionar, para refletir e levar para a vida. Para mim, tornou-se um favorito, sem dúvida.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: O Livro do Juízo Final
Autor: Connie Willis
Tradução: Braulio Tavares
Editora: Suma de Letras
Ano: 2017

Onde Comprar

Amazon || Cultura || Saraiva

Outras Recomendações de Leitura: Tive a fantástica oprtunidade no ano passado de ler duas antologias de contos da Willis: The Best of Connie Willis e The Winds of Marble Arch and Other Stories. Foi com eles que tive o primeiro contato com os historiadores viajantes do tempo, com a noveleta Fire Watch, que segue posterior aos acontecimentos de O Livro do Juízo Final. Essa novela já foi traduzida aqui no Brasil, na antologia As Melhores Histórias de Viagens no Tempo, com o título de Vigia de Incêndio. Para quem gosta de aventuras na Idade Média e viagens no tempo, também recomendamos Outlander - mas fica avisado que Gabaldon tem um estilo muito diferente da Willis.


A Coruja


____________________________________

 

Nenhum comentário:

Postar um comentário

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog