21 de setembro de 2017

Lá e de Volta Outra Vez: 80 Anos de O Hobbit

Numa toca no chão vivia um hobbit. Não uma toca desagradável, suja e úmida, cheia de restos de minhocas e com cheiro de lodo, tampouco uma toca seca, vazia e arenosa, sem nada em que sentar ou o que comer: era a toca de um hobbit, e isso quer dizer conforto.
Em 21 de setembro de 1937, oitenta anos atrás, era lançado um livrinho despretensioso, uma história escrita por um professor de Oxford para os próprios filhos, e que apenas por sorte caiu em mãos de editores interessados em publicá-lo. O título do livro era O Hobbit e seu protagonista era “um membro de um povo imaginário, uma variedade pequena da raça humana, que deram a si próprios esse nome (cujo significado é “habitante de toca”), mas que eram chamados por outros de pequenos, visto que tinham a metade a altura dos Homens normais”, batizado de Bilbo Bolseiro. Era o início de uma das maiores e mais amadas sagas da ficção fantástica: o mundo criado pelo professor J. R. R. Tolkien acabaria por se tornar um divisor de águas do gênero.

O Senhor dos Anéis e O Silmarillion costumam ser mais lembrados por sua grandiosa construção de mundo - línguas, mitologia, diferentes povos e culturas interagindo numa complexa História que se desdobra ao longo de milênios. Comparativamente, O Hobbit é uma narrativa modesta, com um herói de meia-idade que embarca numa jornada atrapalhada com treze anões e um mago - uma jornada repleta de perigos, numa missão que só pode ser chamada de suicida quando analisada com mais cuidado, tendo um dragão ao final do caminho - repleta de detalhes bem humorados, vislumbres de um universo maior, mas sem muita preocupação em se aprofundar sobre o caráter de seus personagens. Contudo, é com Bilbo Bolseiro e a companhia de anões de Thorin Oakenshield que o público tem a primeira visão da Terra-Média, é a primeira aparição do Um Anel, então apenas um objeto curioso, capaz de tornar seu dono invisível.

É a primeira vez que ouvimos falar em hobbits.

Elfos e humanos são os grandes nomes dos contos que compõem O Silmarillion, a mais ambiciosa obra do professor. São histórias de tempos distantes, de antes mesmo de o mundo ser mundo. São personagens nobres, intensos, enigmáticos, que, muitas vezes, encontram seu fim de forma trágica. Alguns anões aparecem, normalmente como contos acautelando o leitor para os perigosos da ganância. Maiar e Valar tremulam aqui e ali, raramente se envolvendo de perto com os conflitos da Terra-Média após partirem para Valinor. Em contraste, os grandes heróis dos dois livros mais populares da saga são hobbits - um grupo de criaturas que, à primeira vista, parece muito mais preocupada com seu próprio conforto, cuja característica mais marcante e lembrada é o número de refeições que fazem por dia.

Frodo, Sam, Pippin, Merry e, claro, Bilbo, são a razão pela qual duas das principais jornadas pelo futuro da Terra-Média alcançam êxito. As maquinações de Bilbo salvam a companhia de Oakenshield em mais de uma ocasião, sendo inclusive ele o responsável pela união entre anões, humanos e elfos para a batalha dos cinco exércitos. Frodo e Sam seguem por Mordor para destruir o Um Anel, enquanto Merry e Pippin tornam-se cavaleiros em Rohan e Minas Tirith, além de serem peças fundamentais na derrocada de Saruman. Esse sucesso, parece-me, está intimamente relacionado a sua natureza como hobbits.

Pequenos e insignificantes no grande esquema de forças da Terra-Média, é fácil subestimá-los. Isso ainda é mais verdadeiro no que diz respeito a Bilbo, um respeitável hobbit que já entrou na meia-idade, e cuja grande paixão é estudar runas e mapas do conforto de sua poltrona. Bilbo não é um guerreiro, não está interessado em honra, glória ou tesouro, não tem ninguém de quem se vingar ou mesmo em quem se espelhar (embora se possa falar que ele puxou à mãe e aos Took), nem ninguém lhe diz que o futuro da Terra-Média depende dessa missão. Frodo - bem como Sam, Merry e Pippin - deixa o Condado seguindo os passos de Bilbo. Bilbo, por outro lado, tem de desbravar seu próprio caminho desde o começo.

Com exceção de Gandalf - que opera numa frequência diferente e tem sua própria agenda - todos os outros personagens de O Hobbit são, de alguma forma, movidos pela ambição… exceto Bilbo. É curioso pensar isso, mas a verdade é que a grande razão de Bilbo para seguir os anões foi… curiosidade.

Considerando todos esses fatores, é difícil pensar em Bilbo como um herói - ao menos, não no sentido clássico pelo qual costumamos classificar heróis. E, no entanto, ele é o grande campeão do livro, muito mais que personagens como o próprio Thorin Oakenshield, que se molda como uma luva ao arquétipo do herói trágico. Como pode ser isso?

Bem, Bilbo é generoso, amigável, compassivo e perspicaz. E também muito, muito sortudo - mas é o que ele escolhe fazer com essa sorte que realmente faz diferença. Ao longo da estrada até a Montanha Solitária, Bilbo encontra sua coragem, consegue se adaptar a uma realidade que está bem longe dos confortos de sua toca (não vamos parar para o segundo café da manhã?), e enfrenta seus próprios amigos para fazer aquilo que acredita ser certo. Ele cresce ao longo da história, mas não muda sua natureza amável e nem esquece suas raízes.


A segurança e estabilidade de ter um lar é o que ancora Bilbo, e uma das justificativas para não cair enfeitiçado pelo ouro. É também o motivo pelo qual ele é capaz de passar tantos anos sob a influência do Anel sem, de fato, se corromper. Nenhum dos outros grandes e nobres personagens da história - Gandalf, Galadriel, Aragorn - se sente capaz de sequer tocar na jóia. Boromir, por um breve momento, deixa-se seduzir e isso causa sua ruína. Bilbo convive com ele por mais de meio século e, ao final, é capaz de se separar dele.

São essas as qualidades que fazem Bilbo ganhar o respeito e admiração de elfos e anões. Ele é um herói não por suas façanhas num campo de batalha (até porque ele passa boa parte da batalha desmaiado…), mas por sua amizade, pela lealdade que, contraditoriamente, leva-o à traição, entrando a Arkenstone para Bard para tentar salvar seus anões e evitar um derramamento de sangue desnecessário. Por sua capacidade de perdoar Thorin depois de tudo o que aconteceu. Pela astúcia que demonstra com as charadas para Gollum e ao conversar, sozinho, com um dragão. Por ser pequeno e, ainda assim, capaz de mudar a história da Terra-Média.

O Hobbit é, sem dúvida, diferente do que temos hoje em matéria de fantasia. E, no entanto, oitenta anos após sua publicação, é uma história que não perdeu seu encanto. Seu ritmo é de uma narrativa contada em voz alta, afetuosa e até um pouco zombeteira, sem muito espaço para ambiguidade moral. Mas é um conto que nos ensina valiosas lições, capaz de nos render boas risadas e tão confortável como uma toca de hobbit.


A Coruja


____________________________________

 

3 comentários:

  1. O livro é genial. A forma como ele é narrado é deliciosa. Me decepcionei com os filmes exatamente por isso: transformaram uma história que é, no melhor de sua essência, simples, divertida e singela, em uma trama de proporções épicas.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Concordo, Rogério. O grande problema do filme foi querer esticar demais a história e trazê-la mais para perto do ritmo épico de SdA, quando a linguagem dos dois livros é completamente diferente. Uma das coisas que se salva no filme, pra mim, é a escalação do Martin Freeman como Bilbo - ele já me parecia um hobbit mesmo antes da escalação XD

      Excluir
    2. E também gosto da trilha sonora! Tô ouvindo ela agora...

      Excluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog