5 de maio de 2017

#AmericanGods || Diário de Viagem Episódio 01: Pomar de Ossos


Ok, então que todo mundo por aqui já sabe a essa altura o quanto eu amo o Gaiman e como sou apaixonada por tudo o que esse homem escreve. Não é surpresa, portanto, que eu estivesse extremamente empolgada com a estreia de American Gods, a série. Estou agora contando os dias para que o pessoal da Funko anuncie uma linha de bonequinhos dos personagens da série para que eu possa colecionar, porque minha estante está precisando de alguns deuses para se sentir mais completa.

Enfim, anseios consumistas à parte, fato é que aqui estamos, primeiro episódio assistido, imediata vontade de começar a reler o livro pela já-nem-sei-quanta-vez e no que isso se traduz? Ora, num diário de viagem com comentários comparando, comentando e desmembrando a história nas duas mídias, é claro! (e considerando o começo da série, desmembramentos são uma parte inescapável do projeto).

Mas porque um diário de viagem? Bem, Deuses Americanos é, num resumo grosseiro, um livro sobre uma daquelas viagens de carro em família, em que sempre que toca uma música legal todo mundo começa a fazer um karaokê improvisado meio ensurdecedor, e você vai parando no meio do caminho para experimentar a culinária duvidosa das barraquinhas no acostamento (queijo com mel de engenho, milho cozido, coxinha e caldo de cana, fatias de abacaxi, farofa de doce de leite são exemplos das minhas viagens de família…), dorme em hotéis de decoração excêntrica (nunca vou me esquecer do lago com jacarés e tartarugas perto de Presidente Prudente) e aproveita toda possibilidade de distração para calar a boca das crianças brigando na parte detrás do carro (parques de diversões quase desertos, museus de cachaça e o Santuário de Aparecida fazem parte das histórias da família).

Se você nunca fez uma viagem desse tipo só o que posso dizer é que sinto muito por você. Ainda que sempre terminemos a estrada jurando ‘nunca mais!’, a verdade é que elas são sempre memoráveis e muito divertidas… especialmente depois que elas terminaram e as dores de cabeça do caminho se transformam em boas histórias para se contar depois.

Muitos dos lugares pelos quais passamos em Deuses Americanos foram inventados por Gaiman, mas ainda existe uma boa quantidade deles que é bastante real e, caso algum dia alguém queira fazer uma peregrinação literário-religiosa seguindo o itinerário do livro, este é um plano perfeitamente fazível.

Tendo feito todas essas considerações iniciais, vamos ao que realmente interessa! Vou misturar um bocado do que acontece no livro com a série, mas tentarei deixar claro o que ocorre onde e assim comentar os dois, sem deixar de notar todos os pedacinhos de pão que Gaiman foi deixando cair para seus leitores na trilha pelo meio da floresta...

Originalmente publicado em 2001, Deuses Americanos é dividido em capítulos que seguem a história de Shadow Moon, um ex-presidiário contratado pelo misterioso Mr. Wednesday como guarda-costas e faz-tudo, intercalados com pequenos interlúdios que explicam eventos do passado dos Estados Unidos ou apresentam outros personagens que, à primeira vista, não parecem ter relação direta com a jornada do protagonista. O primeiro episódio da segue a ação dos dois primeiros capítulos, embora abra com um interlúdio que vem logo após o terceiro capítulo. O título, The Bone Orchard é uma referência direta ao segundo capítulo, logo após o enterro de Laura, quando Shadow lembra que o companheiro de cela chamava o cemitério da prisão de “Pomar de Ossos”, imagem que ficara gravada na mente de Shadow, causando-lhe pesadelos.


Esse início de história nos apresenta aos personagens e nos dá algumas pistas interessantes sobre o mundo em que estamos entrando. Shadow é um grandalhão de 32 anos (quase a idade de Cristo), pragmático e bastante simples em seus desejos. Ele passou os últimos três anos presos por lesão corporal qualificada, dividindo a cela com um “vagabundo de Minnesota” e sorriso com cicatriz chamado Low Key Lyesmith - um nome muito pouco sutil, mas, bem, Gaiman não está muito preocupado em ser sutil, considerando o próprio título do livro. O nome poderia até ser uma coincidência, mas quem conhece um pouco de mitologia nórdica provavelmente entenderá a importância do detalhe sobre os lábios cicatrizados, já que Loki teve a boca costurada como punição por sua incrível capacidade de se meter (e aos outros deuses) em confusões.

Acompanhamos Shadow em seus últimos dias na prisão, contando as horas para receber de volta a liberdade e poder correr aos braços da esposa, Laura. Curiosamente, ao mesmo tempo em que afirma não ser supersticioso - “não acredito em nada que não possa ver” - ele é assaltado por premonições, a sensação de uma tempestade a caminho e o cheiro de neve no ar. Em sua última semana de sentença, ele é chamado ao gabinete do diretor, que o informa que ele será liberado mais cedo… uma vez que sua esposa faleceu num acidente de carro.

Shadow, que vinha se mostrando em níveis consideráveis de paranóia com a certeza de que algo aconteceria para impedir sua saída da prisão, simplesmente… pára. Ele não chora, ele não demonstra sofrimento, engole calado as provocações do guarda penitenciário… desconecta-se da realidade para tentar proteger sua vulnerabilidade. Ao menos até o momento do aeroporto, quando tem de respirar fundo e lembrar da valiosa lição sobre não provocar pessoas que trabalham no aeroporto - uma lição valiosa em tempos de tão pouca empatia e tanta desconfiança - e, depois, ao se descobrir sentado ao lado do misterioso Senhor Wednesday.


Da mesma forma que Low Key Lyesmith, Wednesday se esconde a céu aberto. Ele é cego de um olho - no livro, Shadow nota como um é mais escuro que o outro e depois confirma que um deles é de vidro e na série não apenas a diferença é perceptível como Wednesday faz uma referência direta quando diz “tenho um olho para essas coisas, apenas um, mas eu posso ver…” - possui um prendedor de gravata que é uma árvore de prata com longos galhos e raízes e, claro, afirma que a quarta-feira, wednesday em inglês, é seu dia. Ora, Wednesday significa, literalmente, dia de Woden, sendo Woden o nome de Odin em inglês antigo.

Não que qualquer uma dessas referências vá fazer algum sentido para Shadow, que continua, em seu âmago, a ser um homem como são Tomé, do tipo que precisa ver para crer. Ainda que ele continue tendo sonhos que parecem mais visões proféticas, com um lugar “onde os esquecidos aguardam” e um homem com cabeça de búfalo e olhos que se enchem de fogo ordenando que ele acredite se quiser sobreviver. Fato é que a familiaridade com que Wednesday o trata e a insistência do velho em lhe oferecer um emprego que é simplesmente bom demais para ser verdade, fazem com que Shadow antipatize quase de imediato com o homem.

Wednesday, contudo, é incapaz de aceitar negativas, mesmo quando Shadow tenta fugir dele, desembarcando do avião e preferindo viajar mais uma boa centena de quilômetros de estrada de carro a continuar na primeira classe ao lado de alguém cujos interesses potencialmente podem levá-lo de volta à prisão. A atitude de Shadow sempre me pareceu bastante extremada do livro, fazendo mais sentido que Wednesday suma, como acontece na série, e novas coincidências desviem o avião de Shadow e forcem sua mão a terminar o caminho de carro. Mas, bem, como Gaiman faz questão de frisar desde o começo, Shadow está numa forte onda de paranóia e é certo que ainda que ele não acredite em coisas que pareçam impossíveis, seus instintos e sentido de autopreservação são impecáveis.

Infelizmente, os instintos de Shadow não são páreo para a astúcia de Wednesday, e assim os dois personagens se reencontram, de forma completamente inesperada, num bar em meio a lugar algum, próximo a cidade de Nottamun, que também não existe no mapa: Jack’s Crocodile Bar. Aqui tenho que abrir um parágrafo para dizer que a ambientação da série para o bar deu de dez a zero em qualquer coisa que eu pudesse imaginar. O balcão por trás dos dentes de um enorme crocodilo é mais um indicador de que estamos deixando o mundo comum para penetrar em algum lugar extraordinário e a forma como a câmera se concentra em mostrar Shadow entre as mandíbulas do bicho é também premonitória dos riscos que ele irá assumir logo em seguida, quando Wednesday rouba no jogo de cara ou coroa manipulado por Shadow para forçá-lo a aceitar o trabalho de seu guarda-costas.


Para selar o acordo, é preciso seguir a tradição, pois há poder no ritual: três copos de hidromel, a bebida dos deuses e dos grandes heróis. Na série, Wednesday complementa a afirmação do pacto dizendo “você agora é meu ajudante de campo, o governante do meu castelo, proteger e servir”. Por duas vezes nessa cena, Wednesday reconhece a identidade de Shadow: quando lhe oferece o hidromel e quando o caracteriza com as palavras ‘proteger e servir’, que são o significado original do termo herói. Shadow é O Herói dentro de uma narrativa que está tomando forma num contexto mitológico e se o leitor conhece algo sobre o monomito, a jornada do herói, a essa altura já começou a juntar os pontos e somar o número de vezes em que referências a forcas apareceram na história.

Tudo o que aconteceu com Shadow até aqui, todas as fantásticas coincidências em seu caminho, não são apenas coincidências. Sua liberdade antecipada, seu encontro com Wednesday no avião, a morte de Laura e também de Robbie, o melhor amigo que lhe prometera um emprego. Ele pode não saber do seu papel na história, mas é certo que Wednesday compreende e está disposto a usar o poder da narrativa em seus planos.

Claro que no meio do caminho havia um leprechaun... Mad Sweeney, o gigante irlandês de dois metros, mestre nos truques com moedas e sedento por uma boa briga, apresenta-se a Shadow sem quaisquer subterfúgios. Mad Sweeney se apresenta exatamente como ele é e tenta alertar o outro para a identidade e intenções de Wednesday. Ele é honesto e direto, mas claro que Shadow não acredita nele. Afinal, quem acreditaria num gigante bêbado afirmando ser um tipo de fada irlandesa? Ainda que ele ande por aí oferecendo estranhas moedas de ouro puro...

Após uma épica briga de bar, Shadow acorda no banco de trás do carro de Wednesday, completamente ressacado, a caminho do funeral da esposa e de algumas duras realidades: Shadow não apenas está sozinho no mundo, sem qualquer âncora que o impeça de seguir com Wednesday, como ainda descobre que Laura o estava traindo com Robbie. A despedida final no cemitério é enterrando a moeda de ouro de Mad Sweeney - uma última lembrança antes de iniciar sua nova jornada.

Antes, porém, que Shadow possa se reencontrar com Wednesday, que está a sua espera num hotel das redondezas (ironicamente chamado hotel América), ele é interceptado por um garoto estranho fumando pele de sapo sintética numa limousine. O garoto quer saber quais são os planos de Wednesday e qual o papel de Shadow nesses planos. As respostas de Shadow são menos que satisfatórias, contudo, e aí...

De maneira geral, a série segue bem de perto o livro, com as devidas adaptações para fazer caber pouco mais de sessenta páginas em uma hora de vídeo. As maiores diferenças ficam pelo prólogo e pelo final do episódio, não apenas pelas mudanças na ação e até dos personagens, como pelo nível de violência.

Originalmente, os vikings recém-chegados à América não têm dificuldade em se fazer em casa, construindo um salão com estacas de madeira, capturando um nativo e enforcando-o como sacrifício para o Pai de Todos, Odin, deus das forcas, com direito até a bardo cantando sobre como Odin pendeu por nove dias da Árvore do Mundo, a lateral de seu corpo perfurada, sangrando livremente, para conseguir domínio sobre as runas e, com isso, sabedoria e poder. Claro que a festa não dura muito e logo os trinta intrépidos aventureiros são obliterados por quinhentos guerreiros nativos furiosos, mas aí o trabalho já estava feito e Odin, Thor e ‘Týr de uma mão só’ já tinham feito morada no Novo Mundo. Na prática, a forma como a série deixou os nativos invisíveis, uma ameaça velada, trazendo à frente a violência fratricida entre os próprios vikings não fugiu ao tema, apenas reforçou o status de Odin como um deus que deseja sangue, não importando de quem seja - uma característica que é significativa para o desenvolvimento da história como um todo (mas que não explicarei mais do que isso para quem ainda não sabe o que vai acontecer a seguir). A franca selvageria do prólogo chega a ser caricata, mas, ao menos para mim, funcionou bem para o tom que o programa introduz.


Escolher usar essa cena como prólogo é importante, porque apresenta, desde o começo, a ideia de que os deuses colonizaram o novo mundo através das ondas de imigração que ali foram chegando. Da mesma maneira que Gaiman não e preocupou em ser sutil ao nomear e descrever seus personagens, também a série entrega de pronto qual o contexto em que a ação irá transcorrer.

A cena com Technical Boy, por sua vez, passou por uma série de importantes modificações, a começar pela própria aparência do personagem. Considerando que o livro foi publicado em 2001, numa época em que a internet ainda engatinhava - especialmente no uso civil e antes da quase onipresença dos smartphones - essa alteração não era apenas razoável, mas necessária. O Technical Boy original, que é a personificação da internet, era uma garoto gordo com espinhas, um estereótipo de nerd de mais de uma década atrás. Seu encontro com Shadow era repleto de ameaças, mas terminava bastante cordial, incluindo uma carona ao hotel em que Wednesday aguardava Shadow.

O Technical Boy da série, contudo, é irascível, não particularmente interessado em ouvir desculpas, impaciente e precipitado em tirar conclusões. É muito adequado que a estética da cena, em especial dos asseclas dele, remeta a Laranja Mecânica, que é também uma história que glorifica violência sem sentido e sem razão. A internet é veloz, amoral, um manancial de informações, mas também de mentiras, um ambiente fértil para crescimento de todo tipo de ideologia e propaganda. Num mundo tão obcecado por tecnologia a ponto de priorizarmos relações e experiências virtuais a suas contrapartes reais, não é surpreendente que Technical Boy trate Shadow e sua existência com tanta indiferença - ‘deletar’ Shadow é uma crueldade casual, desnecessária brutalidade. Ele poderia ter ordenado apenas que dessem um tiro, mas é claro que isso não seria o suficiente. E aí aparece a forca, mais uma vez - um símbolo que, acredito, se tornará constante até o final da história.


Não comentei nada sobre Bilquis, mas a cena com Bilquis é algo que fica meio… perdido enquanto não temos o contexto completo do papel que ela tem nos planos de Wednesday. Só o que posso dizer dela até aqui é que a cena de sexo em que ela consome seu parceiro pela vagina é uma das imagens mais bizarras que já encontrei na vida.

Impressões finais: gostei muito do ritmo da adaptação, Ricky Whittle e Ian McShane conseguem tomar para si, dominar os papéis de Shadow e Wednesday e as interações deles são muito boas. As mudanças que notei no enredo foram todas bastante positivas, não são alterações gratuitas, mas adicionam à tensão e carga emocional que estão se formando - gostei particularmente da viúva de Robbie, Audrey, cujo luto é muito mais pungente na série. Estou bem ansiosa por ver o que mais virá por aí.

Por hoje é só… mas, ah, antes que eu me esqueça, e já que isso é um diário de viagem… seguem os dados do livro sobre por onde já passamos na estrada e o que ouvimos até o momento.

Capítulos equivalentes ao Episódio
Vinda à América - 813 d. C. (após o capítulo 03)
Capítulo 01
Em Algum Lugar dos EUA - Bilquis
Capítulo 02

Itinerário de Shadow até aqui
Uma prisão em algum lugar não indicado no mapa
A cidade mais próxima da prisão
Aeroporto de St. Louis, Missouri (único endereço real até o momento)
Aeroporto de Cidade Pequena Não Nomeada
Cidade de Nottamun (que não existe, mas é uma música)
Jack’s Crocodile Bar
Eagle Point, Indiana

Canções para Tocar na Estrada
Nottamun Town, Fairport Convention
Walkin’ After Midnight, Patsy Cline
Iko Iko, Dixie Cups
Who Loves the Sun, Velvet Underground
The Fool on the Hill, Beatles
Torture, Kris Jensen
In the Pines, Danny Farrant e Paul Rawson


A Coruja


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