29 de maio de 2017

A Vertigem das Listas: Cinco Mitos Heróicos


Lulu: Maio é o mês de aniversário do Coruja, o que significa que é também o mês de escrever extensamente sobre um assunto que me seja particularmente caro ao coração - vez que escrever esses artigos especiais envolve muita pesquisa, muita leitura sobre o assunto e muita paciência para digerir tudo que tenho de estudar para escrevê-los. Esse ano, escolhi falar da Jornada do Herói e como esse tema tem tudo a ver com mitologia - da qual a estrutura narrativa descrita por Campbell é inteiramente derivada - decidi deixar como tema do vertigem Cinco Mitos Heróicos - ou, em outras palavras, cinco histórias da mitologia (ou personagens mitológicos) que sejam nossos favoritos.

Minha primeira indicação é a história de Orfeu e Eurídice. É uma tragédia do começo ao fim - e eu aparentemente tenho um fraco por tragédias - com a moça morrendo no dia do casamento, Orfeu descendo ao mundo dos mortos para resgatá-la e perdendo-a no último minuto e depois o herói sendo destroçado pelas mênades… mas, caramba, o moço faz música de forma tão bela que faz balançar até Hades, senhor do Mundo Inferior, para não dizer de águas que param de correr para ouvi-lo e até o cão de três cabeças do inferno é domado! Eu gostaria de ir a um concerto de Orfeu…


É uma tragédia, é fato, mas é uma bela tragédia, com uma história de amor transcendental. Lulu aprova!


Ísis: A primeira vez que ouvi falar desse mito, foi de uma coleção de livrinhos de histórias antigas que eu tinha. Eu achei linda, porém de partir o coração. É que nem aquele filme, A Vida é Bela, ou a história de Anne Frank… Eles morrem pouquíssimo tempo antes da salvação …

Eu apoio o concerto Ofêudico. XD


Lulu: Meu segundo mito favorito é o de Psique e Eros, que, creio eu, é uma das inspirações para a Bela e a Fera. É uma história que começa bizarra, com um amante que só surge à noite, mas tudo bem, porque ele é gentil e salvou a vida de Psique (coisas de mitologia…), ou pelo menos tudo vai bem até que as irmãs de Psique a convencem a fazer o óbvio que é… usar uma vela para olhar qual cara tem o marido misterioso.


O que eu gosto nesse conto é que Psique vira o jogo. Ela começa como uma mocinha indefesa oferecida em sacrifício e, como Orfeu, tem de descer ao Mundo Inferior (noto um padrão em minhas preferências?) para cumprir as provas postas para ela por Afrodite, a sogra, para poder ganhar o direito de reencontrar Eros. E ela consegue! Joinha pra ti, Psique!


Ísis: Por que todos são contos dos clássicos gregos? Eu vou mudar um pouco isso e apontar para a lenda de Ísis, a deusa de mil e uma coisas, mas primordialmente da fertilidade. Quando seu irmão/marido (lembre-se que no Antigo Egito isso era normal!)

Osíris foi covardemente morto pelo próprio irmão, Set, e esquartejado em 14 pedaços, os quais Set espalhou Egito agora para que seu corpo não tornasse a ser um só, Ísis saiu em busca de todos os pedacinhos de seu amado.


Ísis é tida como uma das mais poderosas e espertas dentre os deuses egípcios. Ela não só teve sucesso em reunir todos os pedaços de seu amado, como o ressuscitou e engravidou do mesmo. O filho deles anos depois vingou o pai e derrotou (matou) Seth. Osíris tornou-se o senhor do submundo.

Eu sempre achei bonita a dedicação de Ísis e por isso é um dos meus mitos favoritos.

E continuando, aponto também o mito hindu de Sati/Parvati e Shiva. Há mil e uma versões, parece-me, mas o resumo da ópera é que a primeira esposa de Shiva, Sati, morreu e ele se exilou no monte Kailash em meditação por anos e anos. Sem o poderoso e generoso Shiva para o impedir, o grande e o invencível demônio Taraka passou a aterrorizar mortais e deuses, e ninguém mais podia pará-lo.

A bela princesa Parvati (que em algumas versões é a reencarnação de Sati, que por sua vez parece que é reencarnação de uma das deusas do Panteão hindu), é apaixonada por Shiva e se dedica ao mesmo desde criança. O deus da paixão (Kama!) chega a interferir e acertar Shiva com a flecha do desejo para que ele a perceba, vez que foi profetizado que inflijo dos dois derrotaria Taraka, mas isso apenas enraivece Shiva que o transforma em cinzas ao abrir seu terceiro olho.


A certa altura, Parvati deixa o conforto de seu palácio e passa a “pagar penitências” e a meditar, quase tanto quanto Shiva, e assim passa a gerar muita energia (leia-se: calor), o que, sem ela perceber, põe em risco os mortais. Tamanha a sua dedicação, Shiva percebe e vai à sua procura, se apaixona (ou, dependendo da versão, percebe que é a reencarnação de sua amada Sati) e eles se casam, formando o casal perfeito da mitologia hindu. Kama reencarna (quer como filho dos dois, quer porque Shiva, senhor dos três mundos, permite-o fazê-lo).

Embora haja várias formas de contar a história, a essência é a mesma: a dedicação e o amor andam juntos… Que, pensando bem, é parecido com minha primeira escolha também...


Lulu: Bem, em minha defesa, os mitos gregos foram os primeiros com os quais tive contato e, por isso, eles marcaram fortemente minha formação mitológica (hã…). Mas eu gosto da mitologia egípcia também e da hindu sei muito pouco para ter muitas opiniões sobre o assunto…

Fato é que conheço mais as mitologias européias. Queria muito ler sobre mitos da Ásia… e tenho um particular interesse em descobrir algum bom livro sobre mitologia e folclore russo.

Enquanto isso não acontece, termino minha lista com mais um mito romântico, dessa vez dos celtas - que é também um dos ciclos míticos de que mais gosto. Fiquei na dúvida aqui entre falar dos filhos de Lir e o sonho de Angus, e ambos têm personagens se transformando em cisnes… mas o sonho de Angus sempre foi um conto que me encantou.

Angus Mc Og é filho do Dagda, o deus maior dos Tuatha Dé Dannan, sendo um deus da juventude, amor e beleza, possuidor de uma harpa com a qual encantava a todos com suas canções (de novo, percebemos um tema nos meus mitos favoritos?).

Angus se apaixonou por uma dama que encontrou em seus sonhos e decidiu bater o mundo atrás da moça, até encontrá-la à beira de um lago, entre outras tantas mulheres. O problema é que Caer, a bela dos sonhos de Angus, sofria com uma maldição: a cada ano, no dia de Samhain, ela trocava da forma humana para a de um cisne e assim passava um ano inteiro até que no Samhain seguinte, retornava à forma humana e tinha um ano como mulher, alternando-se dessa maneira.


O pai de Caer disse a Angus que ele poderia casar com sua filha se fosse capaz de reconhecê-la em sua forma de cisne. Angus fez melhor que isso: não apenas reconhecer Caer, como também se transformou num cisne para acompanhá-la durante o período em que ela era forçada a se transformar.

Gosto muito da delicadeza dessa história, de Angus e Caer se conhecendo e ansiando um pelo outro em sonhos e do fato de eles ficarem juntos mesmo quando transformados em cisnes.

Enfim, por hoje é só! Mas contem para a gente, e vocês, quais são seus mitos favoritos?

Mês que vem voltamos com mais uma lista vertiginosa para compartilhar com vocês!



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