4 de maio de 2017

A Jornada do Herói - Parte I: Mito, Sonhos e Estruturas Narrativas


O Coruja está hoje completando oito anos de existência e é claro que a data não poderia passar em branco: é tempo de um novo especial-quase-monografia e o tema deste ano é um que me é muito caro e sobre o qual há tempos eu queria escrever: a Jornada do Herói, ou monomito, a sopa primeira que experimentamos do caldeirão de histórias. Acredito que todo mundo que goste de fantasia seja razoavelmente familiar com os conceitos que vamos trabalhar por aqui, mas de toda maneira, comecemos pelo começo.

No prefácio de O Herói de Mil Faces, no qual apresentou a ideia da jornada do herói, o estudioso de folclore Joseph Campbell explica de pronto seu propósito para o livro: revelar “algumas verdades que nos são apresentadas sob o disfarce das figuras religiosas e mitológicas”. Quando leio isso, é-me impossível não lembrar de uma cena de Hogfather, do Terry Pratchett - um mestre em apresentar a Verdade sob o disfarce da Fantasia -, quando Susan Sto. Helit questiona Morte sobre a necessidade de acreditar em símbolos infantis, personagens de contos de fadas e mitos:
“Está bem,” disse Susan. “Não sou estúpida. Você está dizendo que humanos precisam de… fantasias para fazer a vida suportável.”

MESMO? COMO SE FOSSE ALGUMA ESPÉCIE DE PÍLULA COR-DE-ROSA? NÃO. HUMANOS PRECISAM DE FANTASIA PARA SEREM HUMANOS. PARA SEREM O ESPAÇO NO QUAL O ANJO CAÍDO ENCONTRA O SÍMIO ASCENDIDO.

“Fadas do dente? Pai dos Porcos? Pequenos-”

SIM. COMO PRÁTICA. VOCÊ PRECISA COMEÇAR ACREDITANDO NAS PEQUENAS MENTIRAS.

“Para então acreditarmos nas grandes?”

SIM. JUSTIÇA. COMPAIXÃO. DEVER. ESSE TIPO DE COISA.

“Isso não são as mesmas coisas!”

VOCÊ PENSA ASSIM? ENTÃO TOME O UNIVERSO E TRITURE-O ATÉ O MAIS FINO PÓ E O PENEIRE PELA MAIS FINA PENEIRA E ENTÃO ME MOSTRE UM ÁTOMO DE JUSTIÇA, UMA MOLÉCULA DE MISERICÓRDIA. E AINDA ASSIM - Morte gesticulou com uma mão. E AINDA ASSIM VOCÊ AGE COMO SE HOUVESSE ALGUMA ORDEM IDEAL NO MUNDO, COMO SE HOUVESSE ALGUMA… ALGUMA RAZÃO NO UNIVERSO PELO QUAL VOCÊ PODERÁ SER JULGADA.

“Sim, mas as pessoas têm de acreditar nisso, ou qual o ponto-”

MEU PONTO EXATAMENTE.
Histórias têm muitas funções. Elas nos dizem de onde viemos, elas nos confortam e nos ensinam a viver em sociedade, elas nos mostram o que é amadurecer e o que é esperado de nós quando isso acontece, elas nos iniciam em todos os mistérios da vida e também nos preparam para receber a morte. Independente de serem narrativas de tribos de esquimós ou xamãs africanos, todas elas têm em comum verdades intrínsecas ao que é ser humano. São padrões universais, que não se ligam a credos, etnias ou períodos históricos, sendo a jornada do herói um deles.

Gosto particularmente da explicação dada por Christopher Vogler, de quem falarei com mais vagar adiante, porque ela resume perfeitamente o ponto essencial da questão:
“Essas histórias são modelos exatos de como funciona a mente humana, verdadeiros mapas da psique. São psicologicamente válidas e emocionalmente realistas, mesmo quando retratam acontecimentos fantásticos, impossíveis ou irreais. Isso explica o poder universal delas. As histórias construídas segundo o modelo da jornada do herói exercem um fascínio que pode ser sentido por qualquer um, porque brotam de uma fonte universal, no inconsciente que compartimos, e refletem conceitos universais. Trata-se de questões universais simples, que podem até parecer infantis. Quem sou eu? De onde vim? Para onde vou quando morrer? O que é bem e o mal? Como será o amanhã? Para onde foi o ontem? Será que tem alguém lá em cima?”
A ideia da jornada do herói é a busca por esse padrão, paralelismos, segundo Campbell, que “são uma constante dos princípios que guiam a humanidade em sua evolução”. O estudioso apresenta sua teoria ligando-a especialmente ao campo da religião - Buda e Jesus são exemplos constantes em todo o livro - e da psicanálise. Reduzido a sua essência, o monomito se divide em três atos: primeiro, a separação do que seja seu normal; segundo, sua iniciação num universo extraordinário e, por último, seu retorno: “um herói vindo do mundo cotidiano se aventura numa região de prodígios sobrenaturais; ali encontra fabulosas forças e obtém uma vitória decisiva; o herói retorna de sua misteriosa aventura com o poder de trazer benefícios aos seus semelhantes”.


Dentro de cada um desses três atos há 17 estágios, num conjunto que foi extremamente bem recebido em vários campos de estudo - da psicologia à narratologia. Campbell, contudo, não foi o primeiro a buscar estruturas narrativas básicas nos mitos e contos folclóricos. Outros estudiosos, especialmente nos séculos XIX e início do XX trabalharam em termos similares, com destaque para o folclorista russo Vladimir Propp, que publicou em 1928 o livro Morfologia dos Contos de Fadas, apresentando 31 funções narrativas das situações dramáticas, que se equivalem bem de perto aos estágios de Campbell.

O Herói de Mil Faces é uma leitura interessante, mas para fins deste artigo, meu foco é como o que ele chama de monomito se repete dos contos mitológicos aos super-heróis modernos - e por revelarem o que já especificamos serem verdades universais, dialogam com seus leitores em muitos níveis. É a história e a evolução dessa jornada que nos interessa aqui. Assim, começamos por questionar alguns pontos: faz sentido falar de um modelo universal de narrativa? Qual a necessidade da jornada do herói como arquétipo narrativo definitivo? E o que mudou da era dos mitos para o período moderno na forma como enxergamos o monomito e como ele nos influencia?

Muitos estudiosos e especialistas em mitologia e folclore criticam o modelo pensado por Campbell por pensar a matéria em termos de generalizações, descartando as diferenças para pensar apenas nas similaridades. A questão, contudo, é que Campbell está interessado naquilo que sobra quando tudo o mais que nos faz desigual deixa de ter importância. Particularmente, gosto da ideia da jornada do herói não porque acredito que uma história só funciona se ela segue uma determinada receita de bolo, mas porque é um arquétipo que faz parte da nossa herança cultural - especialmente no Ocidente - e, ainda que seja universal, toca também em algo intangível, individual, que ressoa com nossas próprias experiências. Qualquer que seja nosso povo, qualquer que seja o lugar do mundo em que estejamos, pensamos em nascimento e morte, em comunidade e família, em amor e ódio. São os grandes temas por trás de todas as histórias e é por isso que faz, sim, sentido pensar em modelos universais de narrativa.

Deuses e heróis não morrem de verdade - eles mudam. Nascem na Terra dos Sonhos, alimentados pela crença dos humanos, e para lá retornam quando deixam de ser fato inegável e absoluto para tornar-se contos fantásticos de tempos distantes. Entender essa mudança é importante, porque ela diz muito sobre o que somos, e no que acreditamos, como indivíduos e como sociedade.


Somos um reflexo de nossas histórias, quer elas estejam sendo contadas ao redor de uma fogueira, pintadas nas paredes de cavernas esquecidas, num livro, numa história em quadrinhos ou no escuro do cinema. São as histórias que nos fazem humanos, pois elas são nossas primeiras tentativas de compreender e racionalizar o mundo ao nosso redor. Elas carregam nosso passado, nosso presente e nossos sonhos de futuro.

Antes, contudo, de prosseguir falando sobre a jornada do herói, gostaria de refletir um pouco sobre arquétipos, um conceito criado por Jung para a psicanálise, mas também extremamente importante dentro de nosso estudo sobre padrões narrativos. Jung chama arquétipos de “resíduos arcaicos” ou “imagens primordiais”, incrustadas no inconsciente coletivo. Não se tratam de imagens ou temas mitológicos definidos, nem de uma representação culturalmente herdada - não é algo, segundo ele, que se origina ou é adquirida pela consciência, mas sim, algo bem mais primitivo, uma “tendência instintiva”, instintos que se manifestam como fantasias e se revelam na maioria das vezes como imagens simbólicas. Arquétipos, nesse sentido, não têm uma origem específica, não pertencem a essa ou aquela determinada cultura, e se repetem independente de local ou época.

É algo que teria se originado da repetição de experiências ao longo de diversas gerações. São imagens primordiais, como a Morte, o Velho Sábio, a Grande Mãe e, claro, o Herói. Num dos ensaios compilados em O Homem e seus Símbolos, organizado por Jung, o analista americano Joseph L. Henderson observa:
“Em época de guerra, por exemplo, há um aumento de interesse pelas obras de Homero, Shakespeare e Tolstoi, e lemos com uma nova percepção as passagens que dão à guerra o seu sentido permanente (ou ‘arquetípico’). Elas hão de evocar uma reação muito mais profunda de nossa parte do que de alguém que jamais tenha vivido a intensa experiência emocional de uma guerra. As batalhas nas planícies de Tróia em nada se assemelham às de Agincourt ou Borodino e, no entanto, aqueles grandes escritores foram capazes de transcender as diferenças de espaço e de tempo na tradução de temas universais. E nós reagimos a esses temas porque são, fundamentalmente, temas simbólicos.”
Gosto dessa passagem pelas referências literárias, que têm mais a ver com nosso foco que conceitos de psicanálise, e também porque ele dá uma das melhores definições que posso pensar para arquétipos: algo que transcende barreiras - fronteiras no mapa, línguas, períodos históricos - e nos faz reagir, que nos emociona, que nos toca.

Propp, que já citei lá no começo, trabalha com o conceito de classes de personagens ou “agentes”, que ele divide em sete esferas: o agressor; o doador (que dá ao herói um objeto mágico necessário a sua jornada); o auxiliar; a princesa e o pai; o mandador, o herói; o falso herói. Os personagens nos contos de fadas analisados por Propp estariam sempre em uma dessas esferas, o que determinaria também que tipo de funções constantes dos personagens estariam presentes. Combinado com seu esquema de funções narrativas das situações dramáticas, Propp criou um sistema pelo qual categorizar cada conto de fadas.

Esse sistema de Propp inspirou Christopher Vogler, roteirista americano que trabalhou na Disney e escreveu A Jornada do Escritor: Estrutura Mítica para Roteiristas, livro que bebe também da fonte de O Herói de Mil Faces para expor todo o conceito da jornada do herói especificamente num contexto de estrutura narrativa. O objetivo de Vogler era criar um roteiro ou guia prático que apresentasse essas ideias e ajudassem a criar histórias de compreensão universal. O resultado do seu trabalho inaugurou a segunda era de ouro dos estúdios Disney.


Gosto de Vogler porque ele simplifica um pouco o esquema de Campbell - que pode ser um tanto repetitivo - e também o adapta, desvinculando do processo de busca religiosa que está bastante presente na jornada do herói original.

Vogler não foi o primeiro a trazer esse esquema mítico para a cultura pop; essa honra vai para George Lucas, cuja admiração pelo trabalho de Campbell rendeu Star Wars e uma amizade com o autor e, num ciclo completo, inspirou Campbell e o jornalista Bill Moyers na produção do documentário O Poder do Mito - que também se transformou em livro. Fato é que praticamente todo fã de fantasia e ficção científica de hoje ouviu falar na jornada do herói e essa popularização do trabalho do Campbell deve muito ao Vogler e ao Lucas.

Feitas todas essas considerações introdutórias, vamos ao que interessa… ‘From zero to hero’, que caminhos percorremos na jornada do herói?


(Continua em O Chamado da Aventura...)


A Coruja


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2 comentários:

  1. Adorei, já ansiosa pela continuação..! Coruja e cia, queria dizer que descobri o blog de vocês só esse ano graças ao Pipoca Musical e estou encantada, viu? Já fucei quase tudo e adoro as resenhas,listas e ensaios de vocês, me identifico muito, fantasia é a melhor coisa ♡ E toda vez que eu penso na Jornada do Herói,,não adianta, pra mim o melhor exemplo é sempre Harry Potter rs..

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    1. Oi, Arika! Fico ridiculamente feliz de saber que você andou fuçando por tudo aqui, é sempre bom saber que pessoal chega por aqui, se interessa e vai atrás de ver o que mais já apareceu no Coruja. É o que faz à pena o trabalho de escrever tudo isso, comentários como o seu. As próximas partes do especial vão explicar cada estágio da jornada sempre com exemplo e sim, Harry Potter é uma das sagas que usei de forma constante para fazer as explicações. A próxima parte deve ser publicada na terça, espero que continue acompanhando e se divertindo ;) abraços!

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