16 de março de 2017

Com quantas adaptações se faz um Contos de Fadas?


Considerando o número de vezes em que falei de contos de fadas cá no Coruja - por vezes de forma quase obsessiva - é meio surpreendente que nunca tivesse arranjado tempo para escrever sobre minhas adaptações favoritas de contos de fadas. Pensei de usar o tema no Vertigem, mas a verdade é que queria ser egoísta e ter pelo menos metade da lista só para mim.

Finalmente, decidi me aproveitar da deixa que a estreia de A Bela e a Fera deu para tratar do assunto… e aí completei o ‘era uma vez’ convidando a Fernanda, do The Bookworm Scientist, para fazer a lista comigo, já que ela gosta de fantasia, entende de arquétipos e sempre apresenta excelentes insights.

Assim, cá estamos nós para falar sobre as melhores, as mais lembradas, as encantadoras histórias de fadas que fazem parte da nossa memória afetiva ou que nos dizem algo de importante; subversivas ou musicais; na telinha ou nas páginas de um livro!

Fernanda: Antes de começar, queria falar uma coisinha ou duas. Primeiro, queria agradecer pelo convite. É um prazer enorme participar de um post do Coruja e ver minhas palavras num dos blogs que mais me inspirou e com certeza o que mais me indicou leituras até hoje. Ainda mais pra falar de fantasia, meu gênero favorito desde criancinha. Definitivamente, estou pisando em solo sagrado da internet, haha.

Lulu: Corei aqui agora… *.*

Fernanda: Em segundo lugar, resolvi deixar as animações da Disney de fora da minha lista. Não porque não sejam boas, mas porque o Mickey Feiticeiro já é a primeira imagem que aparece quando a gente pensa em adaptações de contos de fadas, então preferi dar espaço para outros títulos. Também não vou falar sobre Once Upon a Time porque parei de acompanhar a partir da segunda temporada, embora o seriado tenha me tornado uma fã incondicional do Rumpelstiltskin.

Dito isso, vou começar escolhendo um dos filmes que mais marcaram minha infância, daqueles que você assiste trezentas vezes na Sessão da Tarde sem cansar. Estou falando de Hook: A Volta do Capitão Gancho, uma releitura de 1991 onde um Peter Pan adulto (interpretado pelo saudoso Robin Williams) precisa retornar à Terra do Nunca para resgatar os próprios filhos.


O filme em si é uma mistura de aventura e xaropada familiar bastante criticada pelo público especializado, mas meus olhos de criança sempre brilharam com aquelas imagens. Até hoje, é a única adaptação live action de Peter Pan que me agrada. E acho que é um paralelo interessante pensar num Peter adulto e completamente esquecido do passado. Seria a mesma exaltação à infância feita por Barrie no texto original, só que ao contrário. Além disso, quem não tinha um crush no visual punk do Rufio?

(O elenco do filme se reuniu ano passado para comemorar os 25 anos da produção e relembrar o colega Robin Williams)



Lulu: Eu lembro de ver e rever e ver de novo esse filme… Excelente escolha para abrir a lista!

Vou começar também tirando um título lá do fundo do baú, um filme que é mais de uma década mais velho que eu, mas pelo qual nutro um enorme carinho: o musical francês Peau d’Âne, de 1970, com Catherine Deneuve no papel de Pele de Asno.

A história de Pele de Asno é, em si, um dos meus contos de fadas favoritos. A história começa com um pai enlutado que decide só se casar de novo com uma mulher que seja tão ou mais bela que a esposa falecida e aí lança sua atenção na própria filha. Para escapar do pai, a princesa tem a ajuda de sua fada madrinha, que a aconselha a pedir presentes cada vez mais absurdos para impedir o casamento - primeiro, um vestido da cor do tempo, depois, um vestido com o brilho da lua e outro com o brilho do sol e, por fim, a pele de um asno que defeca ouro, responsável por manter sempre bem abastecido o tesouro real.

O pai consegue realizar todos esses desejos aparentemente impossíveis e sem mais escolhas, a princesa termina por fugir, disfarçada como uma criada, usando a pele de asno para se esconder.

O filme tem uma estética surreal, o figurino é de encher os olhos, as canções são maravilhosas e há uma mistura de real e imaginário - a fada madrinha usa um helicóptero! - que muito me agrada.



Fernanda: Parece de fato fascinante. Pele de Asno virou uma espécie de piada interna aqui em casa, da época em que eu e minha irmã desenvolvemos alergias terríveis que nos deixavam completamente empoladas, haha.

Bem, para dar continuidade, minha segunda escolha é Malévola, tanto por causa do meu amor às bruxas quanto pelo meu fascínio com pontos de vista invertidos. Acho realmente incrível como uma mesma história pode ter tantas interpretações a partir de quem a conta. E o filme dá uma oportunidade justíssima de resposta para uma das vilãs mais queridas dos contos de fadas.

Culpa da Disney, principalmente, por ter nos dado uma Aurora tão insossa. O contraste com Malévola, sempre irônica, altiva e dona de si era inevitável. Por mais que o telespectador fosse doutrinado na dicotomia do bem e do mal, era impossível não torcer por Malévola. E sempre acredito que, no caso desses vilões que inspiram nossa simpatia imediata, um ponto de vista próprio é capaz de enriquecer uma história como ninguém.

É preciso destacar ainda a estética maravilhosa do filme: figurinos, maquiagens e CGI impecáveis.



Lulu: Eu adoro essas inversões de ponto de vista - um dos meus livros favoritos é uma versão de O Mágico de Oz contado a partir do ponto de vista de Elphaba, a bruxa má. Maligna, do Gregory Maguire foi transformado num musical (e eu ADORO as canções dele), mas a versão impressa é bem mais interessante, repleta de questões de política, preconceito e traição.

Concordo contigo sobre como Malévola é uma personagem infinitamente mais interessante que a Aurora; na verdade, a essa altura todo mundo no Coruja já me ouviu resmungar sobre como a história da Bela Adormecida me causa náuseas e calafrios, então sobre o assunto, nem vou me estender tanto. Gostaria apenas de acrescentar que para minha eterna exasperação, o balé da Bela Adormecida de Tchaikovsky talvez seja minha soundtrack favorita de música clássica...

Dito tudo isso, vou agora de fato para minha segunda escolha, que é, na minha opinião, a melhor adaptação de um conto de fadas clássico para o cinema: Ever After: A Cinderella Story, de 1998. Eles conseguiram atualizar a história de uma maneira muito inteligente, trazer o fantástico para o mundo real.


Para Sempre Cinderela - título com que o filme saiu cá no Brasil - ainda traz uma protagonista extremamente interessante para o padrão dos filmes românticos, especialmente a se tratar de contos de fadas. Danielle tem uma personalidade forte e opiniões que vão para além das fofocas da corte se disfarça inicialmente como uma nobre não para conquistar o príncipe encantado, mas para resgatar um criado da casa que foi vendido por sua madrasta.


Há uma inversão dos papéis de gênero, com Henry, o príncipe, prometido em casamento contra sua vontade, vez que ele desejava poder se casar por amor. O encontro com Danielle é por um acaso e os dois se aproximam e se apaixonam de maneira muito natural, nada clichê. Danielle é o tipo de princesa de contos de fadas que merece servir como modelo, que é perfeitamente capaz de se salvar sozinha e que termina com o príncipe não porque ele seja a salvação dos maus-tratos que sofre na casa da madrasta, mas porque eles de fato tiveram tempo para se conhecer, se admiram e se respeitam.

Para completar, de bônus tem o fato de que a fada madrinha de Danielle aqui é… Leonardo Da Vinci!


Fernanda: Esta seria com certeza absoluta uma das minhas escolhas. Para Sempre Cinderela é uma adaptação excelente, sendo ao mesmo tempo inteligente, atual, romântica e muito girl power. A cena em que Cinderela salva o príncipe de um bando de ladrões é impagável, e gosto bastante de como as personalidades das irmãs de Cinderela foram construídas. Dona Anjelica Huston também dá um show ao encarnar a detestável madrasta.

De fato, Para Sempre Cinderela pavimentou o caminho para uma série de adaptações onde as mocinhas, sempre vulneráveis e delicadas nos contos de fadas, finalmente assumem as rédeas das próprias vidas. O que nos leva a minha próxima escolha: Ella Enchanted (Uma Garota Encantada).

Após ser “abençoada” por sua fada madrinha com o dom da obediência, que faz com que seja obrigada a obedecer qualquer tipo de ordem, Ella precisa fugir e lutar para conseguir seu livre arbítrio. O que ela não contava era encontrar com um príncipe no meio do caminho…

Ella Enchanted é uma versão leve e bem descontraída, que mistura Cinderela e uma série de outras histórias. O filme tem uma linguagem bem moderna apesar do cenário medieval, o que torna o plot ainda mais divertido. E se você for como eu, que se vende fácil para números musicais, vai amar os créditos do filme ao som de Don’t Go Breaking My Heart.

Ps: O ator que faz o vilão, Cary Elwes, também interpretou o mocinho de outro filme que vai aparecer aqui na lista. Isso é que é ser especializado em contos de fadas!



Lulu: Continuando minha lista, vou agora para Neil Gaiman e ele vai aparecer aqui duas vezes, com dois contos que subvertem completamente o gênero dos contos de fadas: o primeiro é Neve, vidro, maçãs, publicado na coletânea Fumaça e Espelhos, que revela o lado da Rainha Má na história da Branca de Neve. É uma releitura extremamente sombria, e completamente inesperada - e é exatamente por ser tão diferente que tanto me chamou a atenção quando li pela primeira vez e que ainda hoje considero um dos melhores contos que Gaiman já escreveu.

O segundo é The Sleeper and the Spindle, que aqui no Brasil foi traduzido como A Bela e a Adormecida. Branca de Neve está aqui novamente, mas num papel mais próximo ao qual estamos acostumados… ao menos de princípio. A história originalmente foi escrita como um conto, e depois adaptada num livro magnificamente ilustrado pelo Chris Riddell - sério, considero esse um dos livros mais bonitos que tenho na estante.


Gaiman juntou nessa história Branca de Neve - mas uma Branca após o felizes para sempre, preparando-se para seu casamento com o príncipe encantando e não muito satisfeita com isso - e a Bela Adormecida, que a essa altura todo mundo já sabe que eu detesto, mas com a qual muito simpatizei nessa versão.

A Bela e a Adormecida criou bastante polêmica ao ser publicado, em virtude do beijo que Branca dá na Adormecida, o que já é ridículo por si só e se torna ainda mais desnecessário ao ler a história e perceber o que realmente aconteceu. Pessoas preconceituosas nem mesmo leem nada antes de já começar a julgar a coisa, né?

Se no primeiro conto Gaiman nos dá uma princesa de contos de fadas que é, na verdade, uma criatura monstruosa; no segundo temos uma protagonista que se decide pela liberdade e pela aventura, nada ingênua e perfeitamente capaz de se salvar sozinha.


Fernanda: Nós não conseguiríamos criar uma lista sem citar o Gaiman, não é mesmo?

Lulu: Não seríamos nós se assim não fosse...

Fernanda: Se é assim, vou escolher Stardust, que apesar de não focar num conto de fadas específico, se encaixa perfeitamente entre as histórias do gênero.

Tanto o livro quanto o filme são obras maravilhosas, e acho importante que se tenha contato com os dois: algumas mudanças no enredo fizeram o filme ser mais profundo em certas questões, enquanto o livro abordará melhor outras. No entanto, dá pra sentir o espírito de Gaiman bastante vivo em ambos.

A graça de Stardust é nos mostrar uma grande história de amor ao mesmo tempo em que ridiculariza as idealizações românticas, típicas dos contos de fadas. Amor à primeira vista, alma gêmea, provações...tudo isso é questionado e revisto pelo protagonista Tristan Thorne ao longo de sua aventura. Gaiman ensinará que o amor pode ser algo pé no chão e ainda assim manter a sua dose de magia. Ou, como diria o homenzinho peludo: você poderia achar alguém que te beijasse sem pedir a terra em troca.



Lulu: Acho o filme um deleite visual e gosto das mudanças que foram feitas no roteiro, embora mantenha a ideia de que o final do livro, por mais melancólico que seja, era melhor… É um dos meus livros favoritos do Gaiman e tenho uma edição dele de colecionador que considera um dos livros mais belos da minha estante...

Ok, então, continuando…. O último título da minha lista não é bem uma adaptação de um conto de fadas conhecido e famoso, mas ele se sustenta em todos os clichês clássicos do gênero extraindo daí tanto humor quanto o encantamento que costuma estar presente nesse tipo de história. Falo de The Princess Bride - aqui no Brasil, A Princesa Prometida - filme de 1987, baseado no livro de William Goldman.


Cheio de hipérboles, personagens inesquecíveis e situações francamente ridículas, o filme traz um príncipe encantado que é na verdade um vilão; uma princesa de coração partido, o terrível pirata Roberts, um espadachim atrás de vingança, um gigante gentil, um homem misteriosos de seis dedos, um vilão que obviamente não sabe o significado de ‘inconcebível’, amor verdadeiro e outras aventuras.


E se toda vez que penso nesse filme, a primeira coisa que me vem à mente é “olá, meu nome é Inigo Montoya, você matou meu pai, prepara-se para morrer”, isso é perfeitamente aceitável e aposto que todo mundo que já assistiu esse filme faz a mesma coisa.


Fernanda: Eu amo Inigo Montoya e irei protegê-lo! A Princesa Prometida é outro clássico que logo me veio à memória enquanto pensava sobre essa lista.

Bem, acho que eu não teria como finalizar sem citar uma das maiores franquias de contos de fadas de todos os tempos: Shrek, responsável por trazer crianças e adultos novamente para o mundo da fantasia.

Se A Princesa Prometida sustentará sua história fazendo uso de todos os clichês possíveis, Shrek se sustentará ridicularizando cada um deles. Com inúmeras referências à cultura pop, momentos hilários e muitas reflexões importantes escondidas atrás das cortinas, Shrek abraçará praticamente todos os contos de fadas e trará uma roupagem refrescante e representativa. E tudo bem que o quarto filme da franquia foi um fracasso retumbante: a gente perdoa pelos três brilhantes longas que o antecederam.

Ah, e eu sempre gosto de ressaltar o quanto a dublagem de Shrek foi cuidadosa e bem planejada: os dubladores conseguiram não só adaptar o humor para o público brasileiro, mas também ampliá-lo. A exemplo do que aconteceu em A Era do Gelo, a versão nacional de Shrek sempre será incomparavelmente melhor do que a original.


De fato, parece que a reversão dos tropes clássicos anda mesmo na moda. Seja através de abordagens cômicas ou mais pesadas, onde mocinho e vilão não são exatamente quem parecem ser (além de Malévola, A Garota da Capa Vermelha me vem à mente), temos uma tendência em revisitar contos de fadas sob um novo viés, sob olhares mais representativos e democráticos.


Lulu: Contos de fadas são uma parte intrínseca da identidade cultural ocidental - a nossa identidade cultural. Querer se apropriar deles, fazê-los novos, fazê-los dialogar com a nossa realidade, com nossos anseios modernos, é algo muito natural.

Talvez por isso mesmo tantas novas adaptações - como a da Bela e a Fera, que foi a deixa para esse post - surgem todos os anos. São histórias que apelam para a nossa nostalgia, que nos apresentam novos pontos de vista - e que são, também um veículo para que novas gerações também se apropriem desses contos. São pontes entre pais, tios, avós e suas crianças, um encantamento que eles podem compartilhar independente da idade.

São histórias que, não importam quantas vezes as escutemos, de quantas maneiras diferentes, nunca verdadeiramente nos cansamos delas.

E vocês? Que adaptações de contos de fadas os deixaram de olhos brilhantes, que histórias os acompanharam da infância à maturidade, que guardam um lugar especial nas suas memórias? Digam aí nos comentários, afinal, contos de fadas são histórias para compartilhar ;)



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