31 de outubro de 2016

#AllHallowsRead: A Danse Macabre de Neil Gaiman


Em um dos mais notáveis capítulos de O Livro do Cemitério, Ninguém Owens, mais conhecido como Nin, o protagonista da história, participa da dança entre vivos e mortos, num ritual tão antigo cujas origens se teriam perdido no tempo e do qual, ao final, os vivos não recordam e os mortos se negam a explicar. Embora Nin não saiba, a cena evoca não um ritual milenar, mas uma das mais emblemáticas alegorias da arte medieval, centrada na noção de universalidade da morte: a Danse Macabre.

O mais antigo painel de que se tem notícia utilizando o tema é o do Cemitério da Igreja dos Santos Inocentes em Paris, que teria sido pintado entre 1424 e 1425. Não demorou, contudo, para que o cenário se alastrasse na arte européia do período: o século XIV foi uma época propícia para se falar de morte (se é que exista alguma época em que ela não esteja de alguma forma em nossas mentes), com a Guerra dos Cem Anos, a escassez de alimentos e, claro, a Peste Negra. A onipresente possibilidade de uma morte súbita e dolorosa foi assimilada por uma sociedade em colapso, inclinada por um lado à penitência e indulgência e, por outro ao prazer rápido e frívolo.


Essa dicotomia é perfeitamente representada na ‘Dança da Morte’: o frio conforto de uma última dança como lembrança do inescapável fim na qual somos todos iguais independente das vaidades terrenas. Assim, a iconografia do tema nos mostra os mortos conjurando representantes de todas as classes sociais - do Papa e o Imperador até o mais humilde lavrador - para que dancem sobre seus túmulos.

Para Nin, especificamente, a Danse Macabre tem outro significado. Criado desde bebê pelos fantasmas do cemitério, vez que sua família foi assassinada, a dança é a primeira vez em que o garoto assume posição ao lado dos vivos, ainda que a princípio não compreenda a importância de tal fato. É só mais tarde, quando tenta conversar sobre o evento, que Nin é confrontado com a realidade que ele não pertence, de fato, ao mundo em que cresceu e que, mais cedo ou mais tarde, terá de deixar o cemitério e viver.


É curioso aqui como Gaiman subverte o que costumamos esperar de uma história típica de amadurecimento - coming of age como se costuma chamar o gênero. Costumeiramente, o protagonista desse tipo de romance passa pelo processo de crescimento confrontando em algum momento o fato de sua mortalidade. A morte, sendo um final, fornece a necessidade de dar significado à existência, de aproveitar o tempo que temos. Em O Livro do Cemitério, por outro lado, não é com a morte que Nin tem de se defrontar, porque a morte é sua realidade desde que se entende por gente: a vida, o estar vivo é o verdadeiro mistério.

Após pesquisar vários painéis e telas representando a ‘Dança da Morte’, a referência visual mais forte que tenho do conceito é da animação A Noiva Cadáver, de Tim Burton, cujo mundo dos mortos é infinitamente mais colorido e interessante que o mundo dos vivos.


Pesquisando sobre o assunto, descobri que uma das inspirações de Burton teria sido um curta dirigido por Walt Disney em 1929, chamado A Dança dos Esqueletos. Quando assisti ao filme, cheguei à conclusão de que nossa iconografia moderna da Danse Macabre deriva toda dessa animação.


Voltando a Gaiman, O Livro do Cemitério não foi a única vez em que o autor usou a alegoria da Danse Macabre - ela é também o conceito por trás do capítulo de Morte no especial Noites Sem Fim da série Sandman. Nessa história, a Morte é impedida de entrar num espaço congelado no tempo, onde todos os prazeres e excessos são permitidos sem receio, até que ela atravesse a magia que protege os convivas dessa festa. A referência imediata que fazemos ao ler o conto é, claro, à Máscara da Morte Rubra, de Edgar Allan Poe. Em ambas as histórias, os vivos tentam construir um refúgio onde estejam a salvo do próprio tempo, mas são forçados a participar da dança dos mortos ao final. A morte é paciente, infalível e chega para todos, não importa quanto queiram negá-la.

É curioso que quando comecei a escrever esse artigo, pretendia falar apenas de O Livro do Cemitério como indicação para o projeto All Hallow’s Read. Afinal, ele um dos meus livros favoritos do Gaiman e não podia encerrar o especial desse mês sem fazer referência ao idealizador original da campanha. Parti da cena da dança porque é um dos pontos altos da história para mim. Aí comecei uma espiral de pesquisa, fui para História Medieval e saí encontrando ligações com outros amores - adoro A Noiva Cadáver e A Máscara da Morte Rubra é meu conto preferido do Poe. Não sei se meu aparente pendão por gostar de histórias que trabalham a ideia da Danse Macabre tem algum significado oculto. Mas, bem, acho que pelo menos serviu para terminar esse mês com mais algumas indicações e ligações interessantes.

Então, é isso… espero que tenham se divertido com nosso mês temático cá no Coruja. Ano que vem tem mais! Enquanto isso… Feliz Dia das Bruxas para vocês! E fica a pergunta que não quer calar…

Gostosuras ou Travessuras?


A Coruja


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