1 de julho de 2016

Desafio Corujesco 2016 - Um Livro de Não-Ficção || The View from the Cheap Seats

E literatura escapista é exatamente isso: ficção que abre uma porta, mostra o dia ensolarado do lado de fora, te dá um lugar para ir onde você está no controle, está com pessoas que você quer estar (e livros são lugares reais, não se engane sobre isso); e, mais importante, durante sua fuga, livros também podem te dar conhecimento sobre o mundo e sua dificuldade, te dar armas, te dar armadura: coisas reais que você pode levar de volta para sua prisão. Habilidade e conhecimento e ferramentas que você pode usar para escapar de verdade.

Como C. S. Lewis nos lembra, os únicos que investem contra fugas são os carcereiros.
É sempre um risco chegar a uma obra - um livro ou um filme - cheio de expectativas. No mais das vezes, você está se colocando numa posição em que terminará frustrado, vez que sua expectativa se choca com a realidade e o impede de aproveitar a história frente ao desapontamento que sente.

Em contrapartida, há aquelas raras ocasiões em que todas as suas expectativas não são apenas atendidas, como superadas, e você não sabe nem por onde começar a derramar louvores e mal pode esperar para compartilhar aquilo com todo mundo.

The View from the Cheap Seats, para mim, encaixou-se no segundo caso. Entrei numa espécie de frenesi desde que o livro apareceu em pré-venda, contando os dias até que ele fosse oficialmente publicado. Confesso que não sei explicar o porquê de tanta ansiedade, porque para além do fato de já ter lido um volume de ensaios do Gaiman antes - Adventures in the Dream Trade -, alguns dos textos coletados no livro já tinham sido disponibilizados antes no próprio blog do autor e em diversos outros sites especializados.

O fato é que eu tinha minhas expectativas - mesmo porque, gosto de ensaios. E, mesmo assim, fui pega de surpresa pelo prazer e genuíno entusiasmo que Gaiman transpira em praticamente todas as páginas desse livro - seu fascínio e excitação, mesmo após décadas no meio, em descobrir e criar histórias.

Dividido em dez seções, com mais de 80 artigos compilados, Gaiman revela muito de si, lembrando e celebrando autores, músicos e personagens que ajudaram a formá-lo. Ele reflete sobre liberdade de expressão, disseminação de idéias e a importância da literatura escapista; sobre mitologia, contos de fadas e o poder da palavra; sobre os motivos e desafios por trás de seus grandes sucessos.


Isso para não falar do número de autores que ele nos apresenta. Por indicação de Gaiman li Susanna Clarke e Hope Mirrlees, Ray Bradbury, Diana Wynne Jones e Lorde Dunsany. Douglas Adams, Terry Pratchett , Lovecraft e Poe eu já conhecia. Agora quero ir atrás de mais Chesterton, Gene Wolfe e Fritz Leiber, Samuel R. Delany e tantos outros. Ele ainda não me guiou errado e prevejo a descoberta de novos autores e histórias favoritas num futuro próximo.

Para os suspeitos habituais, leitores de longa data de Gaiman, não preciso dar nenhuma justificativa para provar que esse é um livro necessário para ter na estante. Para quem ainda não conhece o deleite (e delírio) que é o tio Neil, The View from the Cheap Seats é uma síntese de tudo o que o torna admirável, fascinante e um dos melhores autores de fantasia da atualidade. E também revela que ele é um troll viciado em sushi, mas isso não é o mais importante.

Um volume para ler, reler e se inspirar.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: The View from the Cheap Seats
Autor: Neil Gaiman
Editora: William Morrow & Company
Ano: 2016

Onde Comprar

Amazon || Cultura || Saraiva


A Coruja


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8 comentários:

  1. Enrique Trevelin2 de julho de 2016 21:16

    Sobre a resenha: concordo absolutamente quando você fala sobre o fascínio e excitação que transpiram do que ele escreve. O que eu mais gostava quando o Gaiman escrevia sempre em seu blog eram dessas recomendações de livros, autores, músicas, obras artísticas em geral...elas vinham sempre acompanhadas de justificativas fantásticas, de um entusiasmo que me fazia querer sair correndo pra ler aquilo que era recomendado!

    Bom, vamos lá!

    Dos autores que o Gaiman sempre fala e eu ainda não li: principalmente Gene Wolfe, Michael Moorcock (já li um ou dois contos do Elric, mas não fui fundo), M. John Harrison (autor de "Viriconium") e John Crowley (e aí pausamos pra falar da sua obra "Little, Big": é um livro que eu já deveria ter lido há séculos, que conta a história de um homem que se casa e entra para uma família "tocada" pelo mundo das fadas e que vai morar em uma casa que são várias casas em uma só - me parece um "Cem Anos de Solidão" que enfia os dois pés no fantástico. Não sei porque ainda não li, só sei que está pra sempre na minha lista ). Hope Mirrlees já não está nessa lista: comecei a ler Lud-in-the-Mist ontem mesmo!

    Dos autores que eu li por causa dele e por isso sou eternamente grato: Terry Pratchett (vale a explicação: eu li "A Cor da Magia" e não gostei, nunca fui fã do Rincewind; alguns meses depois li "Good Omens" e MEU DEUS MELHOR LIVRO DE TODOS TODOS TODOS e resolvi dar mais uma chance pro Terry...e o resto nós já sabemos); os contos maravilhosos maravilindos fodásticos do Ray Bradbury; Susanna Clarke (aqui vale uma ressalva: cadê minha continuação, dona Susanna? Cadê o livro que te pedi, focado no Childermass? Nossa, Su, nunca te pedi nada! :~ ); Dianna Wynne Jones (Crestomanci! O Castelo Animado! Christopher Chant! \o/); e finalmente, a excelentíssima Connie Willis (autora do meu livro-espírito-animal; eu não sou de reler livros, mas "To Say Nothing Of The Dog" eu reli cinco vezes e a cada vez descubro um detalhe a mais, uma piada a mais, uma tirada de sarro que passou despercebida. A trama envolve: viagem no tempo, Inglaterra Vitoriana, a reconstrução da catedral de Coventry, um viajante no tempo que gostaria muito de descansar, uma viajante no tempo que conseguirá por em prática tudo o que aprendeu nos livros de mistério, um casal de Vitorianos apaixonados, um mordomo descobrindo a consciência de classe, sessões mediúnicas altamente disputadas, gansos sendo violentos com humanos, o resgate de uma gata de estimação e a busca pelo artefato "eclesiástico" mais feio da Inglaterra. E nem falei nada do cachorro: um buldogue, muito sensato, chamado Cyril. )

    AAAAAAAH! E eu já ia esquecendo do Jonathan Carroll, que conheci por conta do blog do Gaiman e também se tornou um dos meus escritores favoritos. "Land of Laughs", "Voice of Our Shadow" e principalmente "White Apples"...é realismo mágico de uma vertente própria, que me lembra o próprio Neil Gaiman mas de um jeito mais ameaçador, e talvez um pouco mais sádico.

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    1. Esse entusiasmo me lembra muito o Eco - eu adorava ler os livros de ensaios sobre literatura dele, e mesmo sabendo que iria odiar algumas das indicações que ele fazia, em certos momentos o homem falava com tanta empolgação, tanto absoluto entusiasmo que eu tinha de me controlar para não sair correndo atrás...

      Nossa, o Gene Wolfe está para se tornar uma prioridade na minha lista... "Little,Big" também está na minha lista desde que eu li a sinopse pela primeira vez (e eu nem sabia que o Gaiman o tinha indicado... ou não ligara autor à obra), e "Viriconium" eu já coloquei várias vezes na cesta de compras e acabei por um motivo ou outro deixando...

      VOCÊ ESTÁ LENDO LUD-IN-THE-MIST!!! TERMINE DE LER E VENHA COMENTAR COMIGO!!!

      Agora... Falando da Connie Willis... li em algum lugar que a Suma das Letras vai publicar no segundo semestre Doomsday Book. Lembrei de ti na hora!

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    2. Enrique Trevelin4 de julho de 2016 09:12

      (Estou quase acabando Lud-in-the-Mist! O Sr. Nathaniel saiu da cidade em direção à fazenda da viúva, depois de descobrir a verdade sobre o doutor Leer! O jovem Ranulph saiu correndo em direção a Fairyland!)

      Do Gene Wolfe eu tenho vários livros no Calibre (aquele programa de gerenciar ebooks), todos com títulos ótimos: "The Shadow of the Torturer", "Litany of the Long Sun", "A Cidadela do Autarca", etc. Volta e meia eu ensaio começar algum, mas sempre surge outro livro pra me interessar mais XD

      E Connie Willis é puro amor <3...ouso dizer que ela está no meu top 5 de autores preferidos, possivelmente no top 3. Não sabia que Doomsday Book ia sair, vou comprar e reler assim que chegar! É o livro tido como mais "sério" dela...tem seus ótimos momentos de "comédia de situações" mas é principalmente um livro sobre a morte, das tragédias pessoais e comunais e como sobreviver a elas e continuar vivendo. É ótimo e muitos consideram como o melhor livro dela...mas "To Say Nothing of the Dog" tem um buldogue e minha balança imediatamente pende pra seu lado.

      (E os contos dela também são muito muito muito bons! E eu juro que não estou recebendo nenhuma verba de divulgação do agente dela!)

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    3. Assim... Doomsday Book não é uma espécie de continuação de Say Nothing of the Dog? Ou o contrário, mas, considerado como parte de uma série? Eu tenho quase certeza que os dois são parte de uma trilogia... o que significa que Say Nothing deve sair também.

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    4. Enrique Trevelin4 de julho de 2016 10:41

      É o contrário ("Doomsday" vem antes de "TSNOTD"), e eles fazem parte de uma série - na verdade é mais um universo compartilhado, sem uma ligação essencial entre os livros (no sentido de "não é preciso ler eles em nenhuma ordem, apesar de alguns personagens serem compartilhados e o mecanismo de viagem no tempo ser sempre o mesmo").

      Além desses dois livros, temos "Blackout" e "All-Clear" (onde um grupo de viajantes no tempo acaba ilhado em Londres durante a Segunda Guerra) e o conto "Fire Watch", que é o primeiro lugar onde ela usa esse conceito de viagem no tempo e que acaba se comunicando com todos os outros livros - que fala sobre um viajante no tempo que acompanha os esforços para tentar proteger a Catedral de São Paulo durante a Blitz.

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    5. Ok! Bem, vou esperar a publicação em português para ler - porque estou com uma pilha de coisas em casa que preciso ler antes... mas posso passar o conto à frente de todo mundo, para o meu projeto dos 365 contos em um ano... "Fire Watch" pode ser lido independente das outras histórias desse universo? E que outros contos dela você recomenda? Tem livro? Tem ebook? Mande-me tudo o que tens!

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  2. Menina.... tô só esperando esse livro ficar em promoção para comprar no kindle, até lá tem muita coisa boa para ler.
    Esse mês li uma amiga dele, Jenny Lawson, que você mesma indicou aqui no blog há uns 2 meses atrás. Acho que foi uma boa troca, uma boa dose de bom humor e loucura no lugar de fermentação, que era o meu tema original para esse mês! hahahaha
    http://leiturasdelaura.blogspot.com.br/2016/07/furiosly-happy-alucinadamente-feliz.html

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    1. Vale à pena mesmo, Laura... na verdade, tudo o que Gaiman escreve vale à pena, na minha opinião...

      Opa, Alucinadamente Feliz! Vou lá ver sua resenha!

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