21 de junho de 2016

Para ler: A Menina Submersa - Memórias

Fantasmas são essas lembranças fortes demais para serem esquecidas, ecoando ao longo dos anos e se recusando a serem apagadas pelo tempo.
Quando esse livro foi primeiro anunciado, minha reação foi contraditória: por um lado… o Gaiman fazia a indicação dele e Gaiman costuma ser gospel para mim e sempre acabo indo atrás dos livros que ele recomenda. Por outro, sou uma medrosa assumida que foge de histórias de terror de uma maneira geral (sério, eu fecho os olhos até nos trailers no cinema).

Tempo passou e terminei indo atrás do livro para dar de presente… e tenho como política ler os livros que dou de presente para ter pelo menos noção do que estou dando para a pessoa (ou leio críticas se o título realmente não for do meu gênero ou o tempo for curto). Então fui le-lo… e aí tive uma surpresa.

A Menina Submersa não é uma história de terror. Ao menos, não foi uma história de terror para mim. É uma história de fantasmas, sim, especialmente os fantasmas que carregamos conosco em nossa memória. Mas é uma história como poucas que conheci, totalmente aberta à interpretação do leitor.

A chave para a compreensão do livro é, creio, a idéia de que a fantasia é um caminho para que se possa chegar à verdade - porque histórias são verdadeiras, ainda que não sejam factuais. Ainda que sejam fatos impossíveis, ainda que haja paradoxos inteiros, a realidade é que fatos nada têm a ver com a verdade.

Esse é um conceito que me é muito caro e que encontro em muitos dos meus autores favoritos. Através de sua narrativa, a protagonista de A Menina Submersa, India Morgan Phelps - ou, simplesmente, Imp - exorcisa seus fantasmas e demônios: o diagnóstico de esquizofrenia, o suicídio da avó e da mãe, sua própria solidão, o impulso criativo por trás de suas pinturas e contos… e, claro, Eva Canning.

É interessante que Eva seja retratada sob dois aspectos que, a um tempo, fascinam e aterrorizam Imp. Ela é sereia, seduzindo o herói em sua jornada; ela é lobisomem, ameaçando a frágil percepção de si mesma da heroína. Ela é vítima e vilã, monstro e ser humano, uma história de infância, um quadro e uma criatura real, horror e desejo.

A narrativa me fez lembrar muito o fluxo de consciência característico da obra de Virginia Woolf - em especial Mrs. Dalloway - e não acho que seja uma coincidência, considerando que Woolf é citada logo ao início da história. É um formato difícil porque acompanha as idas e vindas da forma como pensamos, pulando por referências, formando conexões e sinapses.

São poucos os livros que conseguem seguir esse fluxo de maneira crível e compreensível e A Menina Submersa consegue fazê-lo admiravelmente, nos enredando em voltas e voltas sem nos deixar perder da essência da história que Imp conta. Sem nos deixar perder de vista a busca por uma identidade e por amadurecimento, por compreensão e aceitação.

A história mistura real e imaginário de uma maneira que confunde o próprio leitor, levando-nos a acreditar cada vez mais no enredo - enquanto lia, pesquisei o ensaio da Ursula le Guin que Imp cita, e a história da Dália Negra, e também a desconhecida do Sena e fiquei frustrada ao entender que Saltonstall e Albert Perrault são criações da autora (sério, eles são tão bem construídos e há tantos pequenos fatos sobre os dois artistas, que ficamos na expectativa de ir ao google e encontrar as obras citadas por lá). E isso é fascinante - como a autora é capaz de nos levar, leitores, a também se perder entre real e imaginário, a nos mergulhar no mesmo estado mental de Imp.

Ao final, contudo, o que interessa é apenas isso: o que importa se foi real, contanto que seja verdadeiro?

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Menina Submersa - Memórias
Autor: Caitlín R. Kiernan
Tradução: Carolina Caires Coelho, Ana Resende
Editora: DarkSide Books
Ano: 2014

Onde Comprar

Amazon || Cultura || Saraiva


A Coruja


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