19 de maio de 2016

Lumos - Parte III: Estereótipos


Por mais que Harry Potter, em seu conjunto, seja um trabalho extremamente coerente - e ficção em sua melhor forma, daquelas que nos falam diretamente -, há algumas questões bem problemáticas que temos de enfrentar.

Estou falando, claro, de estereotipação.

De novo, é compreensível, considerando que o público original da história era o infanto-juvenil, que não houvesse muito espaço para ambiguidade moral entre os personagens. A divisão entre bem e mal, luz e escuridão, sempre foi bem marcada em Harry Potter.

Agora, vamos ignorar por um momento o apelo que a série alcançou junto ao público adulto e pensar apenas no fato de que os livros foram publicados entre 1997 e 2007, e que, assim como os personagens, seus leitores também cresceram e poderiam entender eventuais zonas de cinza, especialmente porque a Rowling nunca se esquivou de pintar uma realidade mais e mais sombria a cada novo volume.

Boa parte do encantamento que a sociedade bruxa exerce em A Pedra Filosofal vai perdendo seu lustro à medida que avançamos a história. Não Hogwarts, não a magia em si, vejam bem, mas a sociedade bruxa.

Na verdade, os governantes do mundo bruxo não me parecem particularmente espertos de uma maneira geral. A economia é um pesadelo - você tem um único banco (estatal) que é controlado por uma raça que detesta bruxos e que você está sempre oprimindo. Historicamente? Uma péssima ideia. Para além disso, o principal empregador parece ser o Estado, empreendedorismo não sendo muito encorajado.

As notícias são controladas pelo governo, previamente sancionadas (censuradas). Um governo que é muito pouco representativo (tem alguém eleito nessa história?), onde os poderes se confundem (o legislador administra e julga e faz o que bem entender) e no qual um saco de galeões conta muito na hora de decidir qualquer coisa.

Sério, não é uma coincidência que quase toda vez que Fudge aparece em cena, ouçamos o tilintar de moedas ao fundo...

Culturalmente elitista, praticamente parada no tempo, repleta de preconceitos, jogando à margem todos aqueles que não se conformam às suas idéias perfeitas do que deve ser um bruxo (como as diversas leis que restringem direitos dos lobisomens ou a discriminação sofrida por abortos como a Sra. Figg, cuja capacidade de testemunhar num tribunal chega a ser questionada simplesmente por ela não ser bruxa...), a sociedade bruxa não é nenhum paraíso ou utopia perfeita. Mais cedo ou mais tarde, alguém se sentirá desesperado o suficiente para se levantar e dizer eu me rebelo.

Toda essa discussão política está nas entrelinhas da série. Ainda que não houvesse Voldemort, é bastante provável que mais cedo ou mais tarde a sociedade bruxa inglesa (não sabemos o suficiente se é do mesmo jeito em outros países) simplesmente implodisse sob o peso da sua própria incapacidade de evoluir.

Enfim, se formos analisar com um pouco mais de atenção o que fica implícito, ainda que filtrado pelo olhar do Harry (que, ao final das contas, está mais preocupado em sobreviver ao Lorde das Trevas, do que refletir sobre a corrupção do governo bruxo), Rowling trabalha, sim, com muita ambiguidade moral.

Se quisermos ser mais óbvios, bem, são inúmeros os personagens mortos e torturados (alguns até o ponto da insanidade) ao longo da história. Não dá para ficar muito mais pesado que isso. E tem Dumbledore e Snape, que hei, se formos pensar direitinho, também saem da zona branco no preto e adentram uma área bastante cinzenta.

Levando todos esses dados em consideração, acho que é perfeitamente possível concluirmos que independente da idade do público leitor de Harry Potter, parte-se do princípio que ele tem maturidade suficiente para entender essas nuances. Se não todas, ao menos muitas delas (e outras numa releitura quando estiver mais velho).

E no entanto… no entanto… *suspira*

O retrato caricatual dos Dursley é das primeiras coisas que me incomodaram. Petunia, Vernon e Dudley têm sua aparência constantemente comparada a animais (pescoço de cavalo, olhinhos de porco). Entre os três, nenhum tem uma única qualidade que os redima. Com exceção do momento em que Dudley se despede de Harry, a família Dursley é tão caricata que quase chega ao ponto de perder a humanidade.

Compreendo que era necessário criar um forte contraste entre a vida que Harry tem no mundo mundano e aquela que ele possui no mundo mágico. E há um histórico de famílias detestáveis em histórias infantis - a família da Matilda de Roald Dahl é um brilhante exemplo desse tema. Mas como já observamos, Harry - e seu público leitor - amadurece ao longo de sete livros. E mesmo assim, Petunia Dursley não tem nada a dizer para se despedir do sobrinho que criou - o sobrinho que pode estar mandando para a morte?

Aparência desagradável e uma inclinação para as artes das trevas parecem também andar de mãos dadas. Especialmente se você é sonserino (com algumas raras exceções à regra).

Vou ser bastante sincera: quando em As Relíquias da Morte dá-se a entender que TODO MUNDO da Sonserina simplesmente deu as costas a Hogwarts e tratou ou de salvar a própria pele ou ir se juntar a Voldemort, eu quase joguei o livro na parede (ou o computador, já que à época, eu estava lendo uma tradução praticamente simultânea feita por almas caridosas numa comunidade do Orkut).


Eu entendo que os sonserinos sejam vistos como vilões ao longo de boa parte da saga - afinal, a história é contada do ponto de vista do Harry e ele não é nem de longe fã da casa das serpentes. Considerando que Rowling afirmou no Pottermore que Salazar Slytherin era um bruxo das trevas, a impressão que se tem é que no momento em que você é sorteado para a sonserina, você automaticamente se torna um fãs das artes das trevas - porque ser ambicioso significa que você fará qualquer coisa para alcançar seus objetivos.

Como Dumbledore, não é mesmo?

O que é realmente engraçado, porque se formos analisar, o único comensal citado na história que não foi sonserino é, provavelmente, o mais detestável de toda a corja. Peter Pettigrew pode ter feito o que fez por medo (embora eu não ache que tenha sido apenas medo), mas ele não é nem de longe um tolo e sua traição é mais profunda quando percebemos como ele deliberadamente tramou para colocar sua culpa sobre Sirius, a ponto de se auto-mutilar. Se fosse apenas medo, ele teria fugido. Mas não foi isso que ele fez.

Enfim... Há um pequeno detalhe no livro que me passou batido na primeira leitura, mas que prestei mais atenção ao reler: o fato de que o quadro de Phineas Nigellus se vangloria de que a Sonserina fez sua parte pela vitória contra Voldemort.

Isso poderia ser explicado pelo Snape… ou pelo Slughorn. Mas essa não era uma explicação que realmente me deixasse satisfeita, de forma que fui perguntar ao google… e afinal encontrei uma entrevista da Rowling, uns seis meses após a publicação do livro, em que ela diz que sim, os sonserinos retornaram com Slughorn e os reforços trazidos pelo professor (os pais dos alunos).
JN: And how much is it that being sorted into Slytherin is, you know, sorted into good guys and bad guys here?

JKR: Well, they’re not all bad, that would- I know I’ve said this before, (JN: Yeah, I remember.) and I think I said it to Emerson [Spartz - Mugglenet.com], they are not all bad, and, well, far from it. As we know, at the end, they may have (laughs) a slightly more highly developed sense of self-preservation then other people because…

SU: Yeah, right.

JN: Yeah.

JKR: A part of the final battle that made me smile was Slughorn galloping back with Slytherins, (SU: Yes!) (JN: laughs) but they’d gone off to get reinforcements first, you know what I’m saying? But yes, they came back, they came back to fight, so I mean - but I’m sure that many people would say “Well, that’s common sense, isn’t it? Isn’t that smart, to get out, get more people and come back with them?”
Só que, vamos encarar os fatos, não é mesmo? Ela poderia ter resolvido essa questão com menos de uma linha DENTRO DO LIVRO. Bastava ter dito ‘aí que os sonserinos voltaram com Slughorn’.

O que é algo que faz muito sentido. Afinal, sonserinos não me parecem o tipo de gente que se joga numa batalha sem ter qualquer estratégia. Que eles se retirem para buscar reforços e se organizar taticamente é simplesmente uma questão de BOM SENSO e LÓGICA.

Dizer numa entrevista que só os mais particularmente curiosos vão procurar, mais de seis meses após a publicação do livro, que não, os sonserinos não são todos cretinos filhos da puta que se dividem em estagiários dos comensais da morte e egoístas covardes que só pensam em salvar a própria pele, acaba não servindo de grande coisa. O mal já está feito - nesse caso, a criação de um estereótipo que praticamente iguala astúcia e ambição a uma inclinação para a maldade.

Considerando que Harry Potter é um grande libelo por mais tolerância e menos preconceito, como justificar essa vilanização dos sonserinos?

Perdoem-me a exaltação, mas essa questão me incomoda há anos. E isso nem é porque eu me identifique como sonserina (eu nunca fiz um único teste que não me colocasse na corvinal…), mas porque era algo que, no grande esquema das coisas, não fazia sentido.

Estou infinitamente mais satisfeita agora que pude resmungar um bocado sobre o assunto aqui. Assim sendo… vamos à próxima parte.

(Continua em A Saga Que Não Morrerá…)


A Coruja


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