5 de maio de 2016

Lumos - Parte I: O Resumo da Ópera


O Coruja está completando sete anos de existência, o que significa, por óbvio… que acabamos de nos formar em Hogwarts! Ok, não, eu não podia perder a piada (ridícula), vocês sabem que não tenho bom controle de impulsos…

Enfim, como todos os anos, o aniversário do blog é marcado por um especial. E, como vocês provavelmente já descobriram considerando o título desse post e minha piadinha cretina, o especial desse ano será sobre uma saga que praticamente definiu uma geração, um fenômeno cultural que talvez só se compare a Star Wars. Estou falando, claro, de Harry Potter.

A obra de J. K. Rowling ajudou muita gente a criar o hábito de leitura como algo mais que uma obrigação escolar. Seu protagonista e a história cresceram junto com o público, ampliando seu alcance. Mais que isso, ele criou um senso de comunidade entre leitores, uma identidade, uma língua própria.

Pra mim, foi um divisor de águas. Eu já gostava de ler antes dele - Jules Verne, Alexandre Dumas e Agatha Christie eram meus grandes heróis literários. Mas foi com Harry Potter que a leitura deixou de ser algo que me ‘isolava’ do mundo (ler é uma tarefa solitária) para se tornar um fator de conexão. Para além dos colegas de escola que estavam também lendo, meus pais tinham acabado de trazer nosso primeiro computador pra casa e a internet era também um espaço para se encontrar outros ‘pottermaníacos’.

Mais que isso: foi por causa de Harry Potter que comecei a escrever para um público - primeiro no Fanfiction.net, como Silverghost, depois no Expresso Hogwarts, como Mina MacFusty e por fim aqui, no Coruja como… a dona Coruja. Em outras palavras, não fosse tia Jo, eu talvez nunca tivesse tomado coragem para tomar o caminho que me trouxe até este exato momento, em que converso com você, caro leitor.


Faz mais de uma década que ganhei A Pedra Filosofal, presente de aniversário pelos meus quatorze anos. Relê-lo agora foi como visitar um lugar querido da infância. Fiquei impressionada como ele ainda funciona bem, como continua sendo uma leitura prazerosa mesmo que aos quase trinta eu não seja mais o público alvo original. E não é um prazer que se trata apenas de nostalgia.

Mais que qualquer outro volume da série, este primeiro ato é uma celebração da amizade e inocência. Somos aqui apresentados ao trio de personagens que dominará a cena por sete livros e é essa primeira apresentação que nos conquista. Ron, que é bem mais que o alívio cômico dos filmes, com sua inteligência prática e pragmática. Hermione, com seu trabalho duro e seu entusiasmo pela magia. E Harry, que passou a vida inteira sendo humilhado, que deseja desesperadamente encontrar um lugar para si e cujo primeiro impulso é de generosidade.

(na verdade, o primeiro impulso do Harry é comprar um caldeirão de ouro maciço e vamos todos agradecer ao Hagrid por não ter permitido - já pensaram quão mais desastrosa teria sido aquela primeira aula de Poções?)

É o relacionamento dos três que nos conquista aqui, trabalhado com tanta naturalidade e tão crível, em contraste com o mundo mágico tão diferente e fantástico em que eles vivem.

Rowling sabe descrever sem enumerar ou se tornar cansativa, iluminando detalhes que nos deixam ainda mais ávidos por descortinar aquele mundo. E é maravilhoso o contraste que ela cria entre a Londres trouxa e outras localidades mágicas.

A Hogwarts que salta essas páginas tem cores e cheiros e sensações. Como esquecer a primeira visão do castelo, atravessando o lago? Ou a imagem do Salão Principal, com suas velas flutuando e o teto encantando nos permitindo ver o céu estrelado lá fora? Ou ainda a experiência daquele primeiro jogo de quadribol?

Reler esse livro, sabendo tudo o que vem depois na série, é também um exercício em partir o próprio coração.

Como suportar o primeiro encontro de Severus Snape, o temido professor de Poções, e o jovem Harry? Como aceitar a calma com que Dumbledore passa a preparar o menino-que-sobreviveu para sua grande tarefa?

Mas o que mais impressiona, tendo o conhecimento que temos sobre a continuidade da saga, é como já está tudo aqui. Tudo o que precisamos saber sobre o que virá depois já está aqui, nas entrelinhas, posicionado.


A Câmara Secreta continua nessa toada. Pouco a pouco, Rowling vai introduzindo elementos mais sombrios, vai revelando que nem tudo são risos e encantamento. Ouvimos pela primeira vez a expressão ‘sangue-ruim’, percebemos o peso do preconceito e ódio. Voldemort é já um grande vilão no primeiro volume, mas é aqui que entendemos seu poder de manipulação e a forma como sua doutrina realmente influencia o mundo mágico.

Nada mais marcante que isso que o surgimento de Dobby. Dobby que pode parecer à primeira vista uma criatura engraçada, um pouco sem noção, divertido, mas secundário. Dobby, que quando lemos com mais maturidade, nos revela um mundo corrupto, um mundo cruel, que pouco se importa com justiça e, quando alguém tenta se levantar para protestar por isso, é ridicularizado e ostracizado, como acontece com Arthur Weasley.

A Câmara Secreta é um livro importante para a transição que se dará no volume seguinte, não apenas pelos tons mais escuros, mas também pelo crescente senso de isolamento com que Harry terá de lidar ao longo de sua jornada.

Se em A Pedra Filosofal, Harry encontra um lugar para chamar de seu no mundo, se apaixona pelo mundo da magia e atrai a admiração de seus pares, nesse segundo volume ele compreenderá pela primeira vez que seu status não lhe traz apenas benesses - ele é temido e excluído e vai de herói a vilão no espaço de um rumor.

E não será a última vez que essa alienação lhe acontecerá.

O fato de estar sendo acusado por algo que ele não cometeu não demora a fazê-lo começar a se questionar - Harry passa boa parte do livro num constante conflito de identidade, perguntando-se se, ao final das contas, ele não deveria ser um sonserino e, com isso, o vilão que querem pintá-lo. Afinal, o Chapéu Seletor queria colocá-lo na Sonserina e ele tem muito em comum com Voldemort, bem mais do que ele gostaria, incluindo aí a capacidade de falar com cobras.

Não à toa, um dos momentos mais marcantes da série ocorrem aqui, quando Dumbledore lhe diz que “são as nossas escolhas que revelam o que realmente somos, muito mais que nossas habilidades”. Esse é o fundamento que dará a Harry mais tarde a convicção de que precisa para fazer o que é necessário. Não é destino, não é obrigação: é sua escolha.

Hogwarts ainda é um bastião de beleza, magia e fascinação. Mas, para além de seus muros, Rowling começa a nos revelar uma sociedade venal, uma sociedade que, embora tema Aquele-Que-Não-Deve-Ser-Nomeado, não está longe de ser seduzida por seu discurso de poder.


O terceiro volume da série era meu favorito quando primeiro comecei a ler Harry Potter e, relendo, decido que ainda hoje ele mantém a posição. Traição, vingança, segredos e medo, são temas fortes nele e é perceptível o amadurecimento dos personagens e da direção em que eles caminham.

O interessante é que, ao mesmo tempo em que introduz muitos dos lugares e personagens que serão essenciais para o futuro da história, O Prisioneiro de Azkaban tira por um breve momento o foco do presente para nos esclarecer o passado de Harry e sua família e pinta com tintas ainda mais escuras do universo criado por Rowling.

Talvez por isso Voldemort esteja ausente desse volume - esse é um momento de introspecção. Estamos aqui constantemente passando o passado a limpo. Somos levados pelas memórias individuais de Harry, as recordações que os Dementadores o forçam a ouvir - a noite em que perdeu os pais assassinados por Voldemort - mas também pelas memórias coletivas, a história da primeira guerra, os relatos das pessoas que conviveram com Sirius Black e que tentam entender o que aconteceu para que ele terminasse traindo o melhor amigo e indo para em Azkaban.

De certa forma, O Prisioneiro de Azkaban encerra o primeiro arco da série: é o fim da infância de Harry, Ron e Hermione, o fim da inocência - talvez por isso passemos tanto tempo olhando para o passado aqui, tanto por nostalgia como por necessidade de reflexão, para pesarmos aquilo que já sabemos e como esse conhecimento nos levará adiante.

Esse processo dará margem para que Rowling suba ainda mais o tom em O Cálice de Fogo, título chave para preparar o terreno para praticamente todo o resto do enredo da série.


A primeira vez que li esse quatro volume da série, não posso dizer que tenha ficado extremamente satisfeita com a história. Na releitura, contudo, embora eu ainda ache que haja alguns problemas de ritmo, tenho de concordar que nada do que a Rowling coloca aqui é desnecessário.

O Cálice de Fogo tem um enredo complexo, um espetacular plot twist e muitas outras revelações interessantes - o que descobrimos ou confirmamos sobre Neville, Hagrid e Snape, em especial - e, claro, há a entrada definitiva dos personagens na adolescência, marcada por rixas, muita angústia e a descoberta da existência do sexo oposto.

Deixamos para trás o país da infância… e Rowling sabe escrever, de forma muito crível, muito real, o crescimento de seus personagens. Por mais que possamos resmungar que Harry comece a se tornar um chato nesse livro… bem, todo adolescente passa por essa fase de angústia e ‘o mundo inteiro está contra mim’ (embora no caso do Harry isso seja mais verdadeiro do que com a maioria das pessoas).

A questão dos elfos domésticos, que nos foi apresentada em A Câmara Secreta é explorada pelo ponto de vista da Hermione. É extremamente interessante que ela, como uma nascida trouxa, enxerga em contraste com Ron, que foi criado numa sociedade bruxa, com seus costumes e preconceitos e que assim, aceita como natural o desprezo com que são tratados não apenas os elfos, mas criaturas não humanas de uma forma geral.

O Cálice de Fogo amplia nossa percepção do mundo mágico: começamos a enxergar não apenas Hogwarts e as aventuras do trio, mas um mundo feito de política e intrigas, de manipulação e mentiras. Esse mundo parece cada vez mais instável - dando margem ao clímax da história, quando Voldemort retorna e duela com Harry.


Após o retorno de Voldemort no quarto volume da série, A Ordem da Fênix traz as consequências de tudo aquilo que aconteceu ao final do Torneio Tribruxo. Harry se tornou um poço de raiva e angústia reprimida, pronto para comprar briga com quem quer que primeiro lhe passe pela frente.

Considerando que ele testemunhou o assassinato de um colega de escola - por nenhum outro bom motivo além do fato de Cedrico ser supérfluo para o que Voldemort pretendia - bem como o retorno ao poder do homem que matou seus pais, não é à toa que haja tanta ira e violência mal controlada em sua reação.

O pior, contudo, é que por medo e arrogância, o Ministério da Magia iniciou uma campanha para desacreditar Harry, pintando-o como um mentiroso desejoso de atenção, tentando, deliberadamente, isolar o garoto de seus pares. Não é a primeira vez que Harry se vê às voltas com essa alienação - vide A Câmara Secreta, mas por questões de segurança e por sua própria falta de controle, ele está também se afastando daqueles que consideraria normalmente seus aliados.

É difícil simpatizar com Harry quando por qualquer motivo ele rechaça Ron e Hermione, enxergando insultos imaginários ou ofendendo-os, e oscilando entre fúria e depressão. Mas, talvez esse seja o primeiro momento em que Harry realmente se rebela contra a mão que o destino lhe sorteou - e levando em consideração tudo o que aconteceu com ele desde aquela fatídica noite de dias das bruxas, é perfeitamente aceitável que ele resmungue um bocado pelos cantos e, de uma maneira geral, aja como um adolescente emo.

A Ordem Da Fênix consegue uma vez mais aumentar a tensão - não apenas pela sombra e influência do vilão, mas pela forma como a sociedade bruxa reage à idéia de que lorde Voldemort retornou. O autoritarismo do Ministério da Magia é personificado pela imagem de Dolores Umbridge, que considero muito mais assustadora em sua banalização do mal. Dolores, que detém um posto de autoridade e parte do princípio que a manutenção do poder justifica quaisquer meios, incluindo aí seus preconceitos e mesquinharias.

Este é um livro que termina com perdas amargas e desesperança. A derrota dos Comensais no Ministério, a aceitação de todos de que Harry falara a verdade é uma vitória vazia perante os custos que ele tem de pagar.

Mas, ei, não pode ficar muito pior do que isso, não é verdade?

Mas claro que pode! Afinal, é a tia Jo e quando ela demonstrou compaixão por seus leitores?


Se A Ordem da Fênix termina em dor e arrependimento, O Enigma do Príncipe se inicia com determinação e preparação. Dumbledore assume de forma integral o papel de mentor de Harry e começamos a entender como Tom Riddle se transformou em Lorde Voldemort e qual o papel de Harry no grande esquema das coisas.

Nesse sexto volume, Draco Malfoy também ganha destaque: ele não é apenas um rival de Harry na escola, mas uma peça no grande jogo que Voldemort está armando. Harry se torna quase obcecado em descobrir o que Draco está planejando - talvez porque seja mais fácil manter controle em pequena escala dentro da escola do que lidar com o fato de que não importa qual seja sua escolha, Voldemort estará atrás dele de qualquer maneira.

Embora a idéia de romance tenha sido introduzida em O Cálice de Fogo é em O Enigma do Príncipe que interesses românticos dos protagonistas são realmente desenvolvidos. Ron e Hermione são, com tanta franqueza, um trem desgovernado a essa altura, mas isso não tira credibilidade dos sentimentos de ambos, ao contrário do que muita gente fiz.

Harry e Ginny, por outro lado, acontece tão de repente que ficamos sem saber de onde aquilo veio. Eu gosto muito da Ginny, e ela cresce de maneira muito interessante nesse livro. Ela é uma garota bonita - algo que mesmo sonserinos desdenhosos dos Weasley reconhecem - inteligente, confiante, perfeitamente capaz de se virar sozinha. Assim como a Hermione, Ginny é uma personagens feminina inspiradora e não me espanta de verdade que Harry acabe se apaixonando por ela. O que me espanta é que ela tão facilmente caia nos braços dele, quando Harry não faz qualquer esforço de fato para conquistá-la.

Entendo que tem toda a questão de que ele foi o primeiro amor dela, mas acho que poderia ter havido um pouquinho mais de romantismo por parte do Harry, do que só ele chegando e agarrando a moça na frente de todo mundo. Ginny, por todo o crescimento como personagem que teve, merecia mais que isso.

Mas, vá lá, a vida do garoto é tão complicada que pelo menos alguma coisa tinha de ser fácil para o Harry…

Claro que o garoto-que-sobreviveu não pode ter uma folga por muito tempo, e O Enigma do Príncipe termina em mais um plot twist para arrancar o coração do peito. Ainda que tudo tenha acontecido de forma muito rápida, a verdade é que o ataque com que se fecha esse volume é paralisante. A essas alturas é de se ficar realmente surpreso que Harry ainda não tenha enlouquecido de tanto pesar.


O final da longa jornada de Harry é mais um volume repleto de perdas - como não podia deixar de ser, afinal, estamos numa guerra. Em As Relíquias da Morte estamos já quase entorpecidos por tantas mágoas. Parece difícil acreditar que, qualquer que seja o final que nos espera, este possa ser um final feliz.

Rowling cumpre tudo o que prometeu ao longo de toda a saga neste livro. É absolutamente fantástico perceber como todas as pequenas pontas que ela foi deixando desde A Pedra Filosofal são amarradas aqui.

Harry pode não ter escolha em enfrentar Voldemort - foi para isto que ele veio sendo preparado desde o começo e, ainda que ele não quisesse lutar, a verdade é que ele jamais poderia escapar a um duelo final com o Lorde das Trevas. No entanto, ele pode fazer outras escolhas: escolher ser leal aos seus amigos; escolher se sacrificar pelo que acredita ser o certo; escolher voltar, mesmo quando esse é o caminho mais difícil.

Harry Potter se inicia com um sacrifício por amor - de Lily para o filho - e termina da mesma maneira. A mensagem de Rowling, constantemente reprisada por Dumbledore em suas conversas com Harry, é que o amor - amor como um conceito abstrato e bem mais amplo que a idéia do amor romântico, amor como generosidade, como respeito, como lealdade - é o que se ergue entre nós e a tirania. É a capacidade de empatia, de se colocar no lugar do outro, de enxergar para além de si mesmo.

É uma bela lição a deixada pela obra de Rowling. Os valores pelos quais Harry, Ron, Hermione, Neville, Luna, Hagrid, e tantos outros vivem, são valores que devíamos carregar conosco também. Coragem para se opôr à injustiça, tolerância para com os diferentes, fidelidade às próprias convicções e princípios.

É essa mensagem que explica muito do sucesso da história, sua capacidade de dialogar com gente de todos os cantos do mundo, de todas as idade. Harry Potter amadureceu com seus leitores, e nos vinte anos desde a publicação do primeiro volume, ela continua atual e verdadeira.

(Continua em "A Jornada dos Heróis")


A Coruja


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5 comentários:

  1. Amei o resumo! Tanto tempo que li, preciso reler, pra poder notar essas transições entre os livros (e também pra matar a saudade desse mundo e dessa história tão maravilhosa que fez tanto em minha vida <3).
    E to muito feliz que esse seja o tema do especial desse ano!! Amo seus especiais, são muito inspiradores!! Parabéns pra tu e pro blog, dona lu!! :D

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    1. Obrigada, Laís! Foi uma experiência maravilhosa reler esses livros agora e notar todos esses pequenos detalhes e enxergar a história com um olhar diferente. Eu recomendo muito reler!

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  2. Eu acho HP fantástico de muitas formas e a JK foi feliz na maioria das suas escolhas. Gosto como o Harry passa por todos os estágios da adolescência e como isso é intensificado pelo sofrimento dele. meus preferidos são O prisioneiro de Azkaban e A Ordem da fênix, principalmente pelo papel da Hermione neles. Aliás, ela sempre foi minha personagem preferida.

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    1. Também adoro a Hermione. Ela é o tipo de role model que sempre deveríamos ter em mente.

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  3. Ué. Os comentários feitos via Facebook desapareceram? O.o

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