2 de maio de 2016

#LendoSandman: Estação das Brumas


Estação das Brumas conta a história do resgate de Nada, fechando o ciclo narrativo do relacionamento de Sonho dos Perpétuos e a rainha mortal. É um ciclo que se inicia do momento em que a encontramos presa no Inferno, em Prelúdios e Noturnos; retorna ao passado em Casa de Bonecas para revelar o que aconteceu entre os dois e está presente especialmente nas entrelinhas de Calíope em Terra dos Sonhos, capítulo que nos deixa perguntando quanto tempo mais até que Sonho compreenda a necessidade de libertar a antiga amante.

Sim, porque, a partir do momento em que ele encontra Nada no Inferno, era apenas uma questão de tempo para que isso acontecesse. Tendo experimentado seu próprio cativeiro, seria intolerável que o herói da série permitisse a continuidade do castigo de alguém que ele professa amar - e que, ao final das contas, é inocente.


O quarto arco de Sandman se inicia dos jardins de Destino (que muito faz lembrar os labirintos de Borges e muita gente concorda que o autor argentino seja a inspiração para o mais velho dos Perpétuos...), com o encontro de Destino com as Moiras.

Todos os volumes que lemos até aqui contam com uma participação das três que são uma, em vários aspectos diferentes. Embora o arquétipo de donzela, mãe e velha sábia pertença a muitas culturas, Gaiman trabalha aqui muito de perto com a mitologia grega, incorporando à mesma tríade os poderes de várias entidades distintas.

Ela são as Moiras (destino) e são as Fúrias (morte) e são também as Musas (inspiração, que muita vezes está ligada ao sonho). Nas três encarnações em que já surgiram, elas incorporam também aspectos representados pelos próprios Perpétuos. Nessa última participação, em particular, elas surgem em sua versão de fiadoras do destino dos homens: fiando, medindo e cortando a vida dos mortais.

Elas também aparecem dividindo apenas um olho entre as três, o que lembra outra tríade mitológica: as Gréias. Na história de Perseu, elas são as irmãs grisalhas das Górgonas - que formam ainda mais uma tríade feminina. Elas possuem entre si apenas um olho e um dente, das quais se servem alternadamente. De acordo com o mito, Perseu tomou o olho em uma dessas trocas para forçá-las a lhes revelar o caminho para as ninfas que lhes dariam os objetos necessários para que ele pudesse sobreviver e matar Medusa.

Francamente, não sei se essa nova ligação mitológica tem alguma relevância para além de dizer, mais uma vez, que todas as possibilidades possíveis estão contidas naquelas três. Entretanto, saindo por uma tangente em relação a elas, acabei descobrindo algo interessante que pode muito bem se desdobrar adiante.

No universo da DC, a tríade é conhecida como as Hecateae. Na mitologia, o que existe é a deusa Hécate, associada à lua e à feitiçaria. Ela começou como uma deusa singular, mas num período mais tardio passou a ser retratada também numa forma tripla.

Pois bem… pesquisando sobre as Hecateae eu descobri que Lyta é filha de Helena Kosmatos, super-heroína que ficou conhecida como Fúria - codinome posteriormente utilizado pela própria Lyta (em versões anteriores do universo da DC, Lyta era filha da própria Mulher Maravilha, mas para fins de Sandman, estamos tratando da cronologia pós-Crise nas Infinitas Terras). Helena fez um acordo com as Fúrias (!!!) para conseguir vingança sobre o irmão, que estaria colaborando com os fascistas italianos responsáveis pela morte do próprio pai (sim, estamos no período da Segunda Guerra).

Por esse acordo, Helena ganhou poderes de super-força, agilidade e resistência e, em troca, pode ser possuída como um avatar pelas Fúrias. Lyta herdou esses poderes… o que, por tabela, provavelmente significa que ela herdou também a capacidade de servir como avatar para elas.

Essa ligação é muito interessante e voltarei a ela daqui a pouco quando tratarmos da visita que Sonho faz a Lyta. Por hora, vamos manter todo esse background em banho maria.

O encontro de Destino com as Moiras no prólogo de Estação das Brumas rende uma reunião em família, com todas as típicas reações advindas de um choque entre parentes: Morte e Desespero lamentam a ausência do Pródigo (o que significa que seja lá qual aspecto ele represente, é algo próximo delas mesmas); Delírio solta de quando em quando comentários inconvenientes e/ou sem qualquer noção (e, ao mesmo tempo, profundamente filosóficos) e Desejo incita Sonho até o irmão explodir.

Em resumo, uma típica macarronada de domingo em família.

Esse prólogo é a provocação que Sonho precisava para rever seus atos em relação a Nada, mas é também uma mina de ouro na quantidade de detalhes que nos dá sobre quem são os Perpétuos. De primeira, temos a definição do que eles sejam: “idéias vestidas em algo semelhante à carne”; e também sua apresentação e de algumas de suas características (e terei de refletir um pouco mais para entender a importância das sombras).

Descobrimos sobre a peculiaridade de Morte, que se torna mortal uma vez a cada século para ser capaz de entender seu trabalho. Descobrimos que Delírio foi, em épocas passadas, Deleite, e que algo aconteceu para que sua encarnação mudasse radicalmente. Confirmamos que Desejo pode influenciar Sonho (“eu poderia forçá-lo”) e que há três histórias de amantes trágicas no passado de Morpheus - Calíope, Nada e uma terceira, com quem ele teria sido particularmente cruel.

Tantas informações para nos deixar com gostinho de quero mais… tantos ganchos possíveis para os próximos arcos…


É visível o prazer que Desejo sente em escarnecer do irmão mais velho. E, caramba, dez mil anos? Não entrando no mérito do sofrimento de Nada e ficando no só papel de Desejo em toda essa tragédia, para uma criatura que ‘vive no momento’, dez mil anos alimentando ressentimentos e deslocando peças para causar a queda de Sonho é algo que não consigo entender como mero capricho.

Interessante é que quando Morte o repreende, Desejo se mostra envergonhado. Pergunto-me se de fato ele respeita a irmã mais velha (quando até aqui não demonstrou deferência a qualquer personagem) ou se ele está encenando.

Seja como for, essa reunião rende muita lavação de roupa suja e quando Morte - que parece ser a pessoa com quem Sonho tem mais intimidade da família - concorda com as acusações de Desejo sobre a injustiça do castigo de Nada, Morpheus afinal admite seu erro e numa saída quase teatral em sua dramaticidade, despede-se decidido a repará-lo.

E assim começam os preparativos para o Príncipe das Histórias invadir o Inferno, duelar com Lúcifer e libertar sua amada… ou morrer tentando.

Cada um dos capítulos subsequentes de Estação das Brumas recebe um título que é um resumo de tudo o que ocorre neles. Essa estrutura é derivada da prática poética medieval de sumarizar cada ‘canto’, tendo migrado para o romance por volta do século XVIII. Gaiman utilizou o recurso de forma cômica em Stardust e Os Filhos de Anansi, mas creio que em Sandman a ideia seja criar um paralelismo com obras clássicas, que serviram de inspiração para a visão do Inferno na história.

Tendo decidido libertar Nada, Sonho resolve colocar seus negócios em dia e a casa em ordem, começando por convocar uma assembleia de seus súditos para explicar o que está por acontecer.

Abrimos aqui um breve parênteses para babar na ideia da Biblioteca do Sonhar, com as coleções de livros sonhados e não escritos de tantos autores famosos (e o filho da puta do Erasmus Fry, que tivemos o desprazer de conhecer em Calíope). Tudo o que eu queria da vida era o emprego do Lucien…


Voltando… em seu discurso, Sonho explica que precisa consertar o erro que cometeu, e que pode morrer ou ser capturado uma vez mais. Caso ele seja preso, problemas certamente virão, mas ele crê que as coisas não se deteriorarão tanto quanto da primeira ausência. Se ele morrer, então todos os problemas estarão resolvidos e alguém assumirá seu poder.

Uma vez que foi a ausência dele e não a má vontade de seus súditos que levou o reino à situação que encontramos em Prelúdios e Noturnos, esse é um discurso meio sem propósito. Certamente haveria outras maneiras de parlamentar com Lúcifer e barganhar a alma de Nada antes de simplesmente pular para a opção ‘enfrentar todos os exércitos do Inferno completamente sozinho’.

É quase de se perguntar se Morpheus quer voltar vivo dessa história… ou se ele se apegou à ideia de uma missão suicida - algo importante o suficiente para justificar o risco para o Sonhar e seu senso de dever e que, ao mesmo tempo em que o destrua, também o eleve à glória (porque ele é arrogante e diva o suficiente para pensar nisso).

Não é uma teoria tão descabida quando consideramos o estado em que encontramos Morpheus em O Som de suas Asas. Por mais que ele termine aquela história sorrindo e alimentando os pombos, ele está sofrendo as consequências de setenta anos de cativeiro. Essa é uma experiência que deixa marcas que não são fáceis de ignorar.

Há ainda mais duas obrigações de que o rei do Sonhar quer se desincumbir: uma visita a Rob Gadling - o humano que tornou imortal em Homens de Boa Fortuna - e Lyta Hall com o filho, a quem Sonho nomeia como Daniel.


O nome da criança segue o tema bíblico que permeia esse arco: Daniel é um dos profetas do Antigo Testamento, famoso pelas interpretações de sonhos de reis e pelas visões apocalípticas. Por intrigas palacianas, foi jogado a uma cova repleta de leões, mas teria sido salvo por sua fé.

A importância dada por Morpheus a Daniel tem muito a ver com o discurso que ele deu na assembleia no Sonhar. Tendo sido gestado dentro de um sonho por dois anos, Daniel não é completamente humano. Aliás, ainda que assim não tivesse sido, ele é, para todos os efeitos, neto e filho das Fúrias, uma vez que sua avó foi um recipiente para elas e, tendo passado seus poderes para Lyta, possivelmente passou o pacto também.
Em outras palavras, é bastante razoável admitir que Sonho escolheu Daniel como seu sucessor. E que essa visita é uma consagração silenciosa do garoto para o papel que ele talvez tenha de assumir assim que Lúcifer matar Morpheus.


Enquanto o Príncipe das Histórias toma suas providências, o rei dos Infernos também faz seus preparativos enquanto monologa com Caim, que foi enviado como emissário para avisar ao anjo caído que visitas estão chegando. E, embora seja um sádico, a verdade é que o Lúcifer de Sandman conquista nossa simpatia.

Gosto de pensar que o personagem dessa saga é o mesmo do conto Mistérios Divinos, que aparece originalmente na antologia Fumaça e Espelhos e foi depois adaptado para uma graphic novel com P. Craig Russell. Em minha opinião, esse é um dos melhores contos do Gaiman (tenho que colocá-lo na minha lista do 1 Ano, 365 Contos…), um estudo sobre justiça divina, explorando muito bem conceitos religiosos.

O Lúcifer de Mistérios Divinos é um personagem sensível e cativante, 'a primeira criatura do universo a verter lágrimas'. O Anjo Caído de Sandman, por sua vez, é amargurado e, sobretudo, cansado, alguém que após miríades de séculos, percebeu que sua rebelião sempre foi um papel já escrito no qual ele não tinha realmente escolha. O anúncio da vinda de Sonho é mais que a possibilidade de uma desforra por uma suposta humilhação passada. É uma oportunidade de conseguir liberdade.

Esse Lúcifer como herói trágico fascinante é herança direta do Príncipe das Mentiras de O Paraíso Perdido. O próprio Milton percebeu a determinada altura que estava fazendo ‘o Grande Inimigo” uma figura simpática demais ao leitor e tentou desconstruí-lo - sem êxito. Afinal, a verdade é que o mito de um Deus onisciente pede que a rebelião de anjos faça parte do Plano - do contrário, o que você tem é um baita buraco no roteiro. E se Lúcifer é um instrumento divino necessário à criação do Inferno como reflexo do Paraíso… então é difícil não considerá-lo de fato um personagem trágico, uma vítima no grande esquema das coisas.


Extremamente interessante nesse contexto é também a doutrina de culpa e castigo professada em Estação das Brumas. Lúcifer não sai por aí fazendo acordos após sacrifícios com virgens, seduzindo mortais e coletando almas, criando diariamente novas formas de fazer Cair os humanos e novos inventivos castigos para cozinhá-los quando eles chegarem ‘Lá Embaixo’. Essa é uma desculpa criada pelo Homem, que detesta tomar responsabilidade por seus próprios atos.

Em vez disso, “os mortos são aprisionados aos inferno pelo seu próprio desejo de serem punidos.” Em outras palavras, somos nós que fazemos nossos próprios infernos e o Inferno somos nós - um conceito que os garotos de Dead Boys Detectives, em sua primeira aparição, resumem muito bem.


(Isso também dá uma nova interpretação àquela história de que “dos pobres de espírito é o reino dos céus”, uma vez que o Inferno é tão pior quanto você consegue imaginá-lo… e, ok, esse é um conceito bem assustador...)

Quando afinal se dá o encontro de Lúcifer e Morpheus, nada poderia ser mais surpreendente ou anticlimático. Afinal, estávamos nos preparando para um duelo de proporções épicas… e o que temos é um Inferno vazio e um diálogo - com Sonho sem entender patavinas do que está acontecendo - sobre como ser soberano do Inferno é um trabalho realmente entediante.

Resumo da ópera: Lúcifer está se demitindo de seu cargo e entregando as chaves de uma das mais cobiçadas propriedades do mundo mitológico a um novo zelador. Quanto a Morpheus… o que ele fará agora que possuir o maior Cavalo de Tróia da história de todos os presentes já dados?

A primeira coisa que ele faz, claro, é se aconselhar com sua irmã mais velha: ele deve manter o Inferno fechado? Deve reabri-lo? Mandar a chave para outra pessoa? Morte responde que somente a ele cabe decidir. Uma abordagem muito diferente da de Desejo, que normalmente faria de tudo para manipular Sonho para seus próprios fins.

E olha que Morte tinha muito interesse em que o Inferno fosse reaberto, o que descobrimos ao ler o spin-off da série Morte, a Festa, da Jill Thompson. Afinal, não tendo outro lugar para onde ir, os mortos terminam na sala de estar de Morte, que está tão atarefada, que acaba tendo de aceitar ajuda de Delírio e Desespero - o que rende momentos de fato hilariantes.


Morte, a Festa cruza com a cena em que Morte se debruça no quadro para conversar com Sonho e também quando ela testa buscar Charles na escola. Charles e Edwin, por sua vez, são protagonistas de outro spin-off, também da Jill Thompson, o Dead Boys Detectives.


Embora a leitura desses dois quadrinhos não seja necessária à compreensão do que ocorre em Estação das Brumas, eu os recomendo pela fofura (o traço da Thompson lembra bem o estilo mangá japonês), pelo background que oferece do que está acontecendo fora do foco de Sonho, pelas loucuras da Delírio e pela participação de Edgar Allan Poe apaixonado por Desespero.

Em todo caso… enquanto Sonho reflete sobre o que fazer com a Chave do Inferno, outras entidades estão se movimentando para dar um lance nessa questão. Odin, obcecado pelo Ragnarock, leva consigo Loki e Thor para apresentar seu pleito ao Lorde do Sonhar (creio que já tenha dito antes, mas, caramba, todas as sementes do que viria a se tornar Deuses Americanos aparecem em Sandman). Caos e Ordem também mandam seus emissários, assim como o panteão egípcio e o japonês; Faërie (que tem um acordo com o Inferno que remete ao feito entre Atenas e Creta para alimentar o Minotauro) e, claro, os representantes dos demônios e do Criador.

Uma monte de convidados nem um pouco desejados aparecem nos portões do Sonhar e Morpheus deve entreter e ouvir a todos antes de tomar uma decisão.

Há alguns conceitos interessantes nesse capítulo, como a ideia de que deuses estão presos por suas histórias - eles não podem fugir facilmente de seus destinos. Possuir o inferno judaico-cristão - porque fica claro aqui também que o bem imóvel que todo mundo está disputando faz parte dessa mitologia e foi criado como um reflexo direto do Paraíso e a Cidade de Prata - é uma questão de poder e também uma possibilidade de escapar aos grilhões das narrativas em que esses deuses se inserem.

Enquanto Caim entretém a plateia de convidados de seu senhor, transformando Abel em salsicha (!!), temos um pouco das consequências que o fechamento do Inferno estão tendo sobre o mundo. Os mortos não estão apenas se juntando na casa de Morte, mas também voltando para os lugares em que viveram ou para os entes ‘queridos’ que deixaram para trás.

Eles não conseguem se desvencilhar de sua mentalidade, de sua necessidade de se castigarem indefinidamente, de causar sofrimento a si e aos outros. Considerando que Morte aparece para buscar Charles Rowland, é grande a probabilidade de que Charles iria para o Paraíso (ou algo equivalente). Charles, diferente dos outros personagens que aparecem na escola, não carrega consigo seu Inferno e com isso tem liberdade de deixar tudo aquilo (a escola, o abandono do pai) para trás e viver sua vida ao máximo - ainda que esteja morto.

Voltando ao Sonhar, as entidades presentes tentam subornar Morpheus para que ele lhes dê a Chave. Odin oferece um mundo paralelo que contém um fragmento da essência de Sonho (Wesley Dodds, o Sandman original do universo da DC); Bast promete informações sobre o irmão desaparecido dos Perpétuos; Susano-o-no-Mikoto pede que ele dê o preço, qualquer que seja… e Azazel oferece Choronzon, o demônio que tomara o elmo de Morpheus nos anos de sua prisão, para que ele possa extrair sua vingança e também… Nada, que foi, desde o início, o objetivo de Sonho em toda essa confusão.

Antes, contudo, que Morpheus possa cair em tentação, o Inferno é reclamado por seu criador através de seus representantes, Remiel e Duma. Afinal Inferno e Céu se definem: é necessário que haja um Inferno ou o Paraíso não tem sentido.

Como o Criador tem um senso de humor questionável, ele basicamente provoca a queda dos dois anjos para que eles sejam os novos regentes do Inferno. Sim, porque, ao ser informado de sua nova posição, Remiel se rebela, caindo da Graça, o que de toda forma o condena ao Abismo. Ao tentar dizer não, ele mesmo se impede de retornar à Cidade de Prata.


Tudo faz parte do plano…

De certa forma, isso significa também o fim da guerra entre anjos e demônios, porque… o Inferno agora é departamento direto do Céu.

Resolvida a questão da Chave, resta agora batalhar Azazel por Nada. E vamos todos concordar que Azazel é de fato muito burro, de ter a brilhante ideia de desafiar Morpheus no coração do Sonhar, o lugar em que ele tem mais poder e onde basicamente tudo é possível. Mereceu virar demônio na garrafa.

Então, todo mundo termina feliz, certo? Sonho fica com a garota, o Inferno é governado por anjos, Lúcifer assiste pôr do sol em praia na Austrália… Só que não, não é bem assim.

Primeiro que ainda que Sonho e Nada se amem, ainda existe o obstáculo da posição de Morpheus a separá-los (para não falar do ressentimento de dez mil anos de prisão que certamente não seria esquecido pelo pedido de desculpas mais esfarrapado da História). Nada não vai deixar que ele a torne rainha do Sonhar - vai se saber que consequências viriam daí para o resto da humanidade (afinal, da primeira vez, a cidade governada por ela foi simplesmente obliterada da face da terra…). E Sonho não vai renunciar seu ofício para ficar com ela.


Pergunto-me se isso significa que Morpheus poderia escolher abandonar o Sonhar e se tornar mortal. Se Daniel ou outra entidade assumiria seu trono. Ou se aconteceria como o irmão perdido que deixou seu retrato vazio nas galerias dos Perpétuos.

Seja como for, o fato é que eles não podem ficar juntos. E assim é que Morpheus dá a Nada a chance de uma nova vida, de recomeçar com uma nova encarnação e construir uma nova existência. É uma oportunidade (como a que Lúcifer tomou para si), mas é Nada quem deve escolher como viverá essa vida. Não é uma promessa de um final feliz.

Remiel, enquanto isso, acha que o sofrimento pelo qual está responsável no Inferno é necessário para purificação das almas. Afinal, tudo está bem quando acaba bem, e vivemos no melhor dos mundos. E agora acho que entendi o porquê da estrutura dos títulos em Estação das Brumas: o epílogo de Remiel é citação direta ao Cândido de Voltaire, um livro que segue o mesmo estilo de nomeação para os títulos.

Se Cândido é uma inspiração para Estação das Brumas, faz muito sentido todas as ironias derivadas das expectativas de leitores (como o duelo entre os soberanos do Inferno e do Sonhar) e personagens (vide a manipulação de Remiel pelo Criador para provocar sua Queda e obediência).

E a estrada para o Inferno está cheia de boas intenções…

O último ponto de interesse no epílogo desse arco é a revelação de que Loki escapou de voltar para sua prisão. E Morpheus está disposto a dar ao deus da mentira uma chance de liberdade - continuando o tema de novas oportunidades que se destacou em quase todos os capítulos de Estação das Brumas.


Claro que, considerando que estamos falando do Loki… vocês apostam quanto que essa decisão de ajudar o nórdico e assim ficar na posse de um favor ainda vai retornar para assombrar Morpheus?

Falei dos deuses como entidades presas a um ciclo narrativo alguns parágrafos atrás e ao encerrar a história, percebo que Sonho é também um personagem preso a uma narrativa. O amante que desce ao Inferno atrás da alma da amada é um arquétipo cristalizado no mito grego de Orfeu e Eurídice. Orfeu… que é filho de Morpheus no contexto de Sandman. É claro que Gaiman subverte muito do que ocorre na história original, mas ainda é possível reconhecer o esqueleto da história.

Considerando o final da história de Orfeu, estraçalhado pelas Bacantes (que se confundem também com - mais uma vez - as Fúrias), esperamos que Morpheus não mimetize tão de perto o mito do filho.

De certa maneira, Estação das Brumas poderia, se quisesse, encerrar Sandman. Temos aqui uma narrativa fechada, um conto de perdão, amor e renascimento. Diferente de outros quadrinhos de super-heróis, não esperamos que Morpheus retorne nesse mesmo canal e nessa mesma hora para viver novas aventuras episódicas contra vilões que estão sempre fugindo do Asilo Arkham.

No entanto, não estamos nem na metade dos livros ainda. E isso é excelente!

Gaiman deixou tantos ganchos curiosos que certamente há muito para descobrir antes de chegar ao último arco da saga. Considerando que há pelo menos dez mil anos Desejo vem tentando fazer o irmão tropeçar, é improvável que ele vá desistir. Tem também o mistério do irmão desaparecido dos Perpétuos. E a importância que assumimos que Daniel possui.

Vamos todos concordar: Gaiman certamente ainda nos reserva boas surpresas.

E nessa nota, despeço-me por hoje. Não esqueçam de continuar essas reflexões acompanhando o projeto no Pipoca Musical e também na comunidade All About Gaiman.

E até o próximo arco.


A Coruja


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