19 de abril de 2016

Para ler: Meus Desacontecimentos || Cadeia: Relatos sobre Mulheres


Não sei dizer com exatidão quem me indicou esse livro (isso tem acontecido com uma frequência preocupante…) - o fato é que um belo dia ele surgiu para troca no skoob e eu imediatamente o solicitei. Terminou que ele foi minha segunda leitura do ano (a primeira, claro, foi Pratchett, com Troll Bridge); uma leitura rápida que comecei na noite do dia 01º e concluí na manhã seguinte.

Meus Desacontecimentos é um volume nostálgico, mas também permeado de certo humor negro. Fala de perdas e de identidade, e do papel que as palavras tiveram no crescimento da autora, uma jornalista brasileira conhecida.

É um volume de ritmo fragmentário e confessional, que me fizeram lembrar Terra dos Homens - embora as aventuras de Brum tenham uma dimensão mais íntima que as de Saint-Exupéry, são relatos com o mesmo tom melancólico e a mesma qualidade de pular de uma cena para a outra sem perder a coesão.

As experiências pessoais de Brum ecoam também nossas raízes culturais. Criada no interior, de família de imigrantes, ela fala um pouco de tudo: educação, família, machismo, ditadura e seu amor pelas palavras.

Leitura rápida sim, por vezes dolorosa. Mas é uma dor que vale à pena em sua capacidade de nos fazer parar para ouvir suas histórias.


Ganhei Cadeia de presente de natal de uma prima com quem estou sempre trocando livros e esta também foi uma leitura rápida, ainda que bastante reflexiva. E não haveria como ser diferente, considerando seu tema.

Cadeia tem um ritmo fragmentário - não há uma narrativa linear, mas contos episódicos, relatos do cotidiano de uma penitenciária feminina. São mulheres muitas vezes abandonadas e esquecidas - por suas famílias, pelo Estado, às vezes até por si mesmas.

Ainda que tente se manter distante e analisar a situação de forma clínica - uma distância que não é apenas sua escolha, mas uma imposição ao trabalho que desenvolveu para escrever esse volume -, o livro de Débora Diniz é doloroso na forma como expõe a realidade do nosso sistema prisional.

Não há julgamentos aqui, mas sim um desvelar de algo que nos parece normalmente tão distante, que sequer imaginamos como seja se não formos confrontados com a realidade.

Não é um livro que se leia para ‘passar o tempo’, nem é um estudo antropológico imparcial. É sim, um convite, a tentar compreender uma outra realidade, falar uma outra língua: ‘a gramática da sobrevivência’, própria da exclusão e da ‘máquina do abandono’.


A Coruja


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