31 de março de 2016

1 Ano, 365 Contos - Março


Março foi um mês complicado para esse desafio - na verdade, março foi um mês complicado de uma maneira geral para leituras, porque passei por uma fase de cansaço mental que não tenho certeza se foi causada pela quantidade de trabalho ou se pelo calor que só dá vontade de dormir e ficar debaixo do chuveiro.

Sério, calor não é um negócio muito condutivo à leitura e reflexão…

Mas, enfim, consegui avançar mais um pouco no projeto. Comecei com a antologia O Príncipe de Westeros e outros contos - e devo dizer que preferia muito mais o nome original de Rogues, porque esse título da tradução dá uma impressão meio enganadora, avancei pelas selvas de Kipling e Mowgli, deslizei para os cenários de horror de Poe e encerrei o mês com um dos contos mais famosos do Hemingway.

Vejamos então como passei esse último mês...

1 Ano, 365 Contos: Março

Dia 01 – 16h54
Qual é a sua Profissão? de Gillian Flynn. Lido na coletânea O Príncipe de Westeros e outras histórias. 34 páginas, 31 min.

Nada como começar o mês com vários tipos de psicopatia… Nunca tive muita vontade de ler a Gillian Flynn porque, do que conheço das histórias dela, não são o tipo de narrativa que me deixam à vontade. Contudo, a construção desse conto me deixou impressionada. É incrível como ela consegue trabalhar a ambiguidade do caráter dos personagens.

Da narradora, que busca alcançar vantagens mesmo quando está numa fria, ao Miles, que me fez pensar na figura do Damien de A Profecia, todos os personagens dessa história parecem se encaixar muito bem no tema de ‘canalhas’ da antologia.

É um conto que destoa do título proposto em português - o destaque dado a George R. R. Martin dá a impressão que se trata de um livro de fantasia e essa história tira muito de seu horror do fato de que poderia ser perfeitamente real...

Dia 02 – 21h48
Um Jeito Melhor de Morrer de Paul Cornell. Lido na coletânea O Príncipe de Westeros e outras histórias. 35 páginas, 29 min.

Esse conto me parece um pouco confuso - a impressão que tenho é que Cornell não teve tempo suficiente para construir o mundo que apresenta aqui… ou talvez essa história se passe dentro de uma narrativa maior do autor e como não o conheço, entrei na narrativa sem as ferramentas necessárias para compreendê-lo.

De uma maneira ou de outra, é uma pena, porque o autor brinca aqui com muitos conceitos de que gosto muito: a história parece se passar na Inglaterra das guerras napoleônicas, com as vantagens de incluir magia, universos alternativos, doppelgängers, e um bocado de intriga política.

Fiquei me perguntando ao final sobre paradoxos temporais e sobre quem é o verdadeiro canalha dessa história. Afinal, somos todos manipuladores ou manipulados?

Dia 03 – 07h59
Um Ano e Um Dia na Velha Theradane de Scott Lynch. Lido na coletânea O Príncipe de Westeros e outras histórias. 49 páginas, 31 min.

Passei a leitura desse conto em exclamações. “Quero visitar esse bar!”, “Uau, tu tens coragem, viu?”, “Caramba que eu não acredito que eles fizeram isso!” e “Genial, absolutamente genial!”.

Há muito que tenho vontade de ler Lynch; li muitas críticas de gente que considero ter gostos parecidos com os meus, elogiando até não poder mais As Mentiras Locke Lamora. Depois de ler esse conto, a vontade redobrou.


É uma história que me faz relembrar os melhores momentos de romances como Os Três Mosqueteiros e Pimpinela Escarlate. Despretensiosamente divertida e aventuresca. Quero mais!

Dia 04 – 19h07
A Caravana para Lugar Nenhum de Phyllis Eisenstein. Lido na coletânea O Príncipe de Westeros e outras histórias. 45 páginas, 36 min.

Praticamente tudo nesse conto me deu vontade de marcar como inspiração para escrever uma história própria - do poético título às descrições da paisagem desértica e da cidade perdida na areia.

A Caravana para Lugar Nenhum tem a clara intenção de se inserir num universo maior - terei depois de procurar pelo nome da autora e ver o que ela escreveu mais e se há mais histórias com o bardo em sua bibliografia. Um bardo capaz de se deslocar de um lugar para o outro com um pensamento e que num momento está para morrer no deserto e em outro aparece nas regiões de neve.

Adorei o potencial da história. Eu realmente torço para que haja mais desse universo.

Dia 05 – 18h27
Galho Envergado de Joe R. Lansdale. Lido na coletânea O Príncipe de Westeros e outras histórias. 34 páginas, 24 min.

Essa aventura de Hap e Leonard se insere no mesmo contexto de Qual é a sua Profissão? da Gillian Flynn: ela é assustadora em sua capacidade de ser verídica e certamente revela o pior que pode haver no caráter do ser humano.

A violência casual presente em todos os personagens do conto me faz pensar no conceito de banalidade do mal. Há cenas aqui que me fizeram ficar de estômago revirado, não apenas pela questão do estupro, mas também pelas figuras envolvidas na situação.

É uma história sem eufemismos, especialmente na forma como Lansdale parece se comprazer em revirar a hipocrisia social...

Dia 06 – 17h18
A Árvore Reluzente de Patrick Rothfuss. Lido na coletânea O Príncipe de Westeros e outras histórias. 66 páginas, 35 min.

Rothfuss, como Scott Lynch, é um autor que me já foi indicado vários vezes por amigos com gostos literários em comum, que o descrevem como um ‘clássico instantâneo’. Está na minha lista também e Dé insistiu bastante que eu lesse na época em que ele estava lendo, mas continuo a dar prioridade para os volumes físicos que tenho em casa.

Seja como for, após ler esse conto, Rothfuss provavelmente vai subir alguns lugares na minha lista de próximas leituras… O universo que ele apresenta nesse conto parece se basear no mesmo folclore de encantados que está em Jonathan Strange e Mr. Norrell, que todo mundo sabe ser um dos meus títulos queridinhos do coração.

O narrador da história me faz pensar no Cavalheiro de Cabelos de Algodão ou ainda no Puck de Sonho de uma Noite de Verão: astuto, amoral, sempre fazendo acordos e buscando vantagens. Acho que esse é o maior conto dessa antologia. É uma narrativa que funciona muito bem, tanto inclusa na idéia de um universo expandido nos romances quanto solitário. Aprovei.

Dia 07 – 15h39
Em Cartaz de Connie Willis. Lido na coletânea O Príncipe de Westeros e outras histórias. 48 páginas, 34 min.

Talvez um dos contos mais fracos até aqui - não necessariamente porque ele seja ruim, mas porque em comparação com as outras histórias que li até aqui, o esquema de fraude hollywoodiana perde um pouco o brilho.

A estrutura é um pouco fragmentária, o que deixa a história confusa em certos trechos e acaba fazendo perder a graça. Uma pena, porque Willis é uma excelente escritora e sabe trabalhar com uma boa ironia.

Dia 08 – 20h50
O Príncipe de Westeros de George R. R. Martin. Lido na coletânea O Príncipe de Westeros e outras histórias. 34 páginas, 37 min.

Último conto desse livro!

Não sou uma grande fã de Guerra dos Tronos - entre autores contemporâneos de fantasia, o estilo do Gaiman apela bem mais para mim do que o de George R. R. Martin. A despeito disso, até simpatizei com essa história, que parece ser mais um relato tirado de um livro de História que um conto realmente.

A narrativa se distancia da ação e da emoção por trás de cada um dos golpes que são revelados, e talvez justamente por isso ela tenha conquistado meu interesse.

Não é o melhor conto do livro e não acho que deveria ter dado o título à antologia, mas me deixou satisfeita.

Dia 09 – 21h20
Os Irmãos de Mowgli de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 23 páginas, 18 min.

Como li ano passado O Homem que queria ser Rei e outros contos e gostei bastante e já que está para ser lançado o filme inspirado na obra, providenciei de finalmente ler Os Livros da Selva no meu desafio esse mês.

É curioso; Kipling é considerado um autor bem polêmico em virtude da fama de imperialista, mas eu prefiro julgá-lo pelo contexto de sua época e o enxergo mais próximo de uma figura como sir Richard Burton que de um maluco racista que achava que a Inglaterra deveria subjugar todo o mundo à sua vontade.

Polêmicas à parte, esse conto é a gênese da figura de Mowgli: tendo escapado da sanha do tigre Shere Khan, adotado por uma família de lobos, educado pela pantera Baghera e pelo urso Baloo, Mowgli cresce como um autêntico filho da selva… até ser rejeitado pelo povo livre e ter de descobrir sua herança humana.

A selva de Kipling é fascinante, com suas leis próprias, suas palavras de poder, seus mitos. Posso dizer que começamos muito bem.

Dia 10 – 19h15
A Caçada de Kaa de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 29 páginas, 20 min.

Essa história acontece em algum momento da infância de Mowgli, antes de seu exílio da tribo dos lobos para a vila de humanos. Encontramos o garoto tendo aulas com Baloo (e sim, parei o conto no meio para ir procurar uma playlist que tivesse Bare Necessities para ouvir ad nauseam enquanto lia - e gente, a cara do Baghera nessa cena é simplesmente hilária...) pouco antes de ser sequestrado pela tribo dos Macacos, considerados pelo resto da selva como um bando de rufiões e vagabundos.

Baloo e Baghera seguem para um resgate desesperado, com a ajuda de Kaa, a velha serpente.

A Caçada de Kaa passou-me uma impressão de constante movimento. Kaa, como todos os outros animais que apareceram até o momento, é uma personagem fascinante. E violenta, muito violenta. Kipling não se furta a mostrar a violência da Selva, a verdade de que como animais comemos e somos também devorados.

Muito bom.

Dia 11 – 19h58
Tigre! Tigre! de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 20 páginas, 15 min.

Há! Shere Khan finalmente tem o merecido castigo por sua impudência nessa história!

Tigre! Tigre! parece encerrar um ciclo, iniciando com Mowgli tentando compreender a sociedade dos homens para então ser de volta arrastado às leis da selva pelas tramóias de seu grande inimigo.

Eu não desgostaria de Shere Khan por ser um predador e querer devorar Mowgli, não fosse o fato de que o tigre não está interessado em matar sua fome, mas sim em apaziguar seu orgulho ferido, muitas vezes pela traição e subterfúgio, sem se importar com as consequências que seus atos podem causar ao delicado ciclo da vida na selva.

(Pausa para colocar na playlist Circle of Life porque eu sou uma pessoa ridícula)

Essa é uma história agridoce, pois ainda que Mowgli conquiste seu grande inimigo, a conclusão a que chegamos é que o garoto não tem um lugar nem entre os animais entre os humanos...

Dia 12 – 11h05
A Foca Branca de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 23 páginas, 18 min.

Achava que Mowgli ia aparecer em todas as histórias desse livro, mas para minha surpresa não foi bem assim… A Foca Branca deixa o ambiente úmido e quase sufocante da selva para as profundezas do mar. No entanto, o protagonista desse conto é, como o menino lobo, um estranho no ninho.

Kotick, a única foca branca em meio a um mar de outras focas escuras acostumadas a como as coisas são a centenas de anos, descobre os horrores que sua raça sofre sob as caçadas dos humanos e assim parte numa jornada para encontrar uma praia em que focas estejam à salvo dos humanos.

Como em seus contos anteriores, Kipling é capaz de imagens de grande beleza, mas de grande violência também. Ainda que ele antropomorfize seus personagens animais, eles nunca deixam de agir conforme seus instintos (exceto, talvez, quando decidem criar um humano bebê em vez de transformá-lo na próxima refeição… e ainda assim, há casos comprovados nesse sentido, não é mesmo?).

Dia 13 – 20h21
Rikki-Tikki-Tavi de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 19 páginas, 14 min.

Essa é uma das histórias que aparece na lista The 50 Best Short Stories of All Time, da Online Classes, e apresenta o conflito entre um jovem mangusto adotado por humanos - o Rikki-Tikki-Tavi do título - e um casal de najas traiçoeiras.

Eu, que não fazia idéia do que era um mangusto, joguei o nome no google e fui para num vídeo de uma luta entre um mangusto - que aparentemente é um rato superdesenvolvido filho da mãe que realmente luta com cobras cujo veneno de uma única picada pode matar quinze homens. E faz isso só com dentes, rapidez e coragem.


Se algum dia eu for sequestrada e mandada para a Austrália (porque só dessa maneira eu iria parar num lugar onde tudo, fauna e flora, foi especialmente pensado para me matar), minha primeira providência será arranjar um mangusto de estimação.

Dia 14 – 21h40
Toomai dos Elefantes de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 23 páginas, 13 min.

Assisti um documentário certa vez sobre alguns dos lugares mais inóspitos à existência humana em nosso planeta azul e lembro de uma cena à noite, creio que às sombras do Kilimanjaro, com olhos de elefantes brilhando ameaçadores.

Essa imagem me voltou enquanto eu lia essa história, embora seja uma narrativa bem diferente a da caçada das tribos aos pés do Kilimanjaro e a de Toomai e seus companheiros.

Toomai, filho, neto e bisneto de domadores de Kala Nag, um temível e velho elefante, é testemunha aqui de uma cena extraordinária que marcará sua existência. Como Mowgli, Toomai tem uma ligação especial com os animais e por isso pode participar da dança dos elefantes, algo que nenhum outro humanos talvez tenha presenciado.

Dia 15 – 21h55
Servos da Rainha de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva 20 páginas, 15 min.

Dos que li até agora, esse conto é o único narrado em primeira pessoa - e não por um animal ou um humano nativo, mas por um homem branco, provavelmente um jovem oficial inglês, que surpreende em meio a um diálogo um cavalo, uma mula, um par de bois, um camelo e um elefante, todos animais que são parte do regimento.

Essa conversa trata da vida de todos eles e o tratamento que recebem no acampamento, bem como sua experiência de combate. É uma história curta, sem enredo certo definido, parecendo mais uma anedota que um conto em si. De todos os que li até o momento nesse livro, talvez seja o mais fraco.

Dia 16 – 07h49
Como Surgiu o Medo de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 20 páginas, 12 min.

Esse conto me fez lembrar de uma história do nosso folclore indígena, sobre como surgiu a noite, que li, há muitos anos, nas páginas de Monteiro Lobato. É uma história que retorna ao ciclo de Mowgli, antes mesmo da morte de Shere Khan.

O interessante é que esse conto não é uma aventura do menino lobo, mas sim uma celebração da história oral, com o contar de mitos próprios da Selva.

Adorei esse conto. Adoro histórias que trabalham com tradições orais e mitos de origem. O mais curioso que achei aqui é o fato de ser considerado o elefante o senhor da Selva. Achei que um predador teria esse título, mas achei justo a deferência: o elefante é famoso pela memória; que ele seja um guardião das histórias também o faz senhor da lei e dos costumes.

Queria mais histórias de mitos nesse livro. Acho que esse se tornará meu conto favorito da antologia.

Dia 17 – 21h46
O Milagre de Purun Bhagat de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 18 páginas, 11 min.

Que bela história! A Índia se destaca aqui em suas crenças, seus sacrifícios e seus homens santos. Diante de uma história como essa, não posso dizer que entendo porque há quem chame Kipling de racista, porque ele me passa uma forte impressão de admiração pela cultura indiana.

Mas, bem, não conheço o suficiente da biografia dele para saber de fato o que o homem aprontou para além do que escreveu, então posso estar dizendo alguma grande besteira…

Purun Baghat, que começa a história como um brâmane - a mais alta de todas as castas - torna-se primeiro-ministro progressivo, estuda entre os ingleses, moderniza o reino, abandona tudo ao chegar a uma certa idade, seguindo as tradições de seu povo de abdicar de poder e riqueza para ir atrás de sabedoria e meditação, mendigando por seu sustento. Então numa montanha do Himalaia, junto a uma humilde aldeia, ele descansa e ali torna-se homem santo e amigo de animais.

Devo dizer que gostaria que tivéssemos políticos com o mesmo tipo de desprendimento e comprometimento público demonstrado por Purun Baghat…

Dia 18 – 18h59
A Invasão da Selva de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 32 páginas, 23 min.

Essa narrativa é quase que continuação direta do que que acontece ao final de Tigre! Tigre! e não seria equivocado lhe dar como subtítulo ‘a vingança de Mowgli’.

Na necessidade, qualquer coisa serve de marcador...
Tendo deixado uma vez mais a aldeia dos humanos, Mowgli não demora a descobrir que estão espalhando mentiras a seu respeito, que os humanos desejam caçá-lo como feiticeiro e que prenderam e estão planejando matar a mulher que dizem ser sua mãe e que o abrigou enquanto esteve na aldeia.

Pela primeira vez entendo porque há quem polemize a escrita de Kipling: toda a aldeia aqui é jogada como farinha do mesmo saco, indianos ‘fracos e preguiçosos, supersticiosos e gananciosos’, aproveitando-se da ausência dos ingleses para levar em frente seus planos de matar os bruxos (e se no processo eles confiscarem as terras e búfalos pertencentes aos ‘bruxos’, isso é apenas um bônus).

No entanto, o verdadeiro contraste aqui não é entre indianos e ingleses, mas entre a verdade da lei da selva - em que você mata para sobreviver e não para ganhos pessoais - e o julgamento embriagado pelas mentiras dos homens.

Mowgli ainda demonstra bem mais compaixão do que os humanos pretendiam demonstrar para com ele, mas seus intentos são inexoráveis: a aldeia deve retornar ao seu estado selvagem. E Mowgli não apenas impõe sua decisão, como no processo torna-se ele mesmo o senhor da selva.

Dia 19 – 16h56
Os Necrófagos de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 27 páginas, 22 min.

Começo dizendo que estamos sem internet desde cedo, o que é um problema, porque eu ia adiantar alguns prazos do escritório esse fim de semana e precisava de ter uma conexão para acessar o sistema dos processos.

Bem, o que fazer? Resta-me voltar a ler…

Esse conto traz um diálogo entre três criaturas da selva que se alimentam de cadáveres: o chacal, o marabu e o grande crocodilo do rio. Através de suas recordações, vemos um pouco da história da Índia a se desenrolar: a convivência e dependência do rio e de suas enchentes, a chegada do homem branco, as guerras de colonização, a chegada das estradas de ferro…

É uma história contada sob um ponto de vista diferente e, por isso mesmo, interessante.

Dia 20 - 18h02
O Ankus do Rei de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 22 páginas, 17 min.

Continuamos sem internet. Não que eu vá reclamar a essa altura, considerando que passei quase o dia inteiro dormindo - para além do detalhe de ter ido me deitar só depois das três da manhã, terminando Harry Potter e as Relíquias da Morte, quando levantei às oito foi com uma crise alérgica, de forma que tomei remédio e fui nocauteada…

Mais uma vez encontramos Mowgli que, dessa feita, numa visita ao lado de Kaa, conhece a grande Naja Branca, guardiã do tesouro de um rei humano que há muito viveu (e morreu) ali na selva, deixando para trás as ruínas que foram tomadas pelos macacos.

A Naja Branca alerta Mowgli de que aquele tesouro traz sempre morte aos homens e sem acreditar na velha cobra, o garoto (que a essa altura já deve ser um rapaz) toma para si um ankus, uma espécie de porrete para a cabeça de elefantes (ao menos foi isso que entendi) cravejado de pedras preciosas.

Não demora muito para que Mowgli se canse de sua nova arma, que acha muito pouco útil, e a abandone para trás… para então reencontrá-la deixando um rastro de homens mortos. O garoto, que não entende o valor do dinheiro, crê que se trate de um feitiço, mas bem sabemos como funciona a ganância humana...


Dia 21 - 17h56
Quiquern de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 29 páginas, 16 min.

Saindo da atmosfera sufocante da selva, nesse conto Kipling nos leva a uma tribo de inuítes - esquimós - na ‘região que fica depois de alguma coisa’, vizinha do Ártico.

Embora esse conto não tenha a mesma vivacidade narrativa que as histórias de Mowgli, vistos ser contada como um relato de segunda mão, uma história do tipo que um amigo de um amigo meu me contou.

Nem por isso ela deixa de ser curiosa, especialmente pela forma como nos insere numa cultura de que normalmente sabemos tão pouco. O horror da escuridão num lugar que cada noite dura seis meses, onde os cães são mais que companheiros, mas irmãos na sorte e nas caçadas… em que a sobrevivência depende exclusivamente da capacidade de caçar e qualquer mínima mudança no clima pode significar a morte. Grandes planícies brancas e geladas e a loucura da solidão absoluta.

São imagens fascinantes, sem dúvida.

Dia 22 - 16h22
Cão Vermelho de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 30 páginas, 21 min.

Estou aqui sentada atrás dos equipamentos do pilates - instrumentos de tortura, para que não conhece o que se faz por aqui - esperando a hora de começar a aula na companhia, mais uma vez, do Mowgli, fazendo todo tipo de acrobacias, mais Tarzan que menino lobo, atraindo uma matilha de cães selvagens para o covil das abelhas.

Nunca tinha parado para pensar muito nas abelhas como predadoras, exceto por uma única ferroada que sofri quando criança. Considerando, contudo, que ainda hoje eu saio correndo de onde quer que eu esteja se dou de cara com uma abelha, creio que devo concordar com Kipling sobre a soberania delas.

Dia 23 - 20h38
A Corrida de Primavera de Rudyard Kipling. Lido na coletânea Os Livros da Selva. 25 páginas, 17 min.

O último conto de Os Livros da Selva - embora na minha edição, da Penguin, haja um conto extra num apêndice, revelando Mowgli já adulto. Como já li essa história em O Homem que Queria ser Rei e outras Histórias e prefiro Mowgli em seus anos de infância na selva, decidi pulá-lo e encerrar com A Corrida de Primavera, que começa com todos os animais agindo de maneira meio tresloucada - afinal, é primavera, tempo de procurar uma companheira para ter filhotes.

Exceto que Mowgli não entende exatamente o que está acontecendo e se ressente do fato de que seus amigos não o escutam nesses dias da ‘Nova Língua’.

Esse não apenas é o fim do livro, mas é também o fim da existência confortável de Mowgli na selva. A partir desse ponto, Mowgli se integrará à sociedade humana. E, embora Baghera, Baloo e Kaa se apresentam ao chamado da despedida de forma pragmática, é visível a dor que eles sentem em dizer adeus ao ‘filhote de homem’ que ajudaram a criar.

Não sei exatamente como me sentir em relação a esse fim, mas confesso que estou agora bem melancólica… Será que já posso começar a comer chocolate da páscoa agora para compensar?

Dia 24 - 15h06
O Coração Delator de Edgar Allan Poe. Lido na coletânea Histórias Extraordinárias. 6 páginas, 5 min.

Começando o feriado (AMÉM, IRMÃOS, ALELUIA!) com Edgar Allan Poe. Nada como um pouco de crime e insanidade para iniciar os trabalhos, não é mesmo?


Embora eu tenha mais uma antologia de Poe em casa, decidi ler apenas os meus favoritos e aqueles que a crítica considera mais importantes - Poe é um autor bastante prolífico e teria material para passar uns bons meses só com ele no desafio…

O Coração Delator é uma narrativa bem curta, mas carrega bem cada parágrafo: Poe consegue criar uma intensidade sufocante com cada palavra controlada. Você consegue ouvir esse conto em sua mente num tom ofegante, confessional e imaginar cada cena descrita pelo protagonista.

Claro que o objetivo de nos convencer que não está louco passa bem longe do que o narrador consegue fazer. O tom de culpa e paranóia delirante predomina nessa história. O mais incrível é perceber como Poe consegue construir e nos envolver de maneira tão profunda na história.

Dia 25 - 16h27
A Queda da Casa de Usher de Edgar Allan Poe. Lido na coletânea Histórias Extraordinárias. 21 páginas, 17 min.

Vou confessar que embora esse seja um dos mais conhecidos e mais celebrados contos do Poe, eu não gosto muito dele. Talvez pelo fato de que, sendo uma leitora contumaz de literatura gótica, eu meio que não tenha ficado particularmente surpresa com o que acontece ao final.

Contudo, esse conto tem alguns pontos muito interessantes, em especial na forma como explora o medo. É visível o poder que o medo exerce sobre Roderick Usher e não fosse pelo desastre final, poderíamos dizer que é o medo que sugestiona e excita a mente do narrador para testemunhar o que ocorre.

Se bem que há críticos que questionam se Madeline realmente existe e se não seria ela uma manifestação física do medo.Mas acho que aí depende muito da interpretação que você queria dar ao assunto.

Dia 26 - 10h53
Pequena Palestra com uma Múmia de Edgar Allan Poe. Lido na coletânea Histórias Extraordinárias. 19 páginas, 12 min.

Era para ter lido esse conto no mês passado, para fazer contraponto com A Autêntica Múmia Egípcia Feita em Casa do Ray Bradbury, mas fiquei tão empolgada em começar O Príncipe de Westeros e outros Contos que acabei por passar batido…

Essa é uma das minhas histórias favoritas do Poe, por nenhum outro motivo além do fato de ela ser simplesmente absolutamente HILÁRIA. Quem diria, não? O fato é que após um grupo de supostos intelectuais reanimarem uma múmia egípcia por nenhum outro motivo mais premente do que ‘porque eu posso’ e ouvirem da boca embalsamada da criatura que eles estão muito atrasados tecnologicamente e que ela preferia ter despertado num período mais evoluído socialmente , não tem como não embarcar na ironia…

Para terminar por hoje… DAQUI A POUCO VOU ASSISTIR BATMAN VS. SUPERMAN Lálálá...

Dia 27 - 14h05
A Máscara da Morte Rubra de Edgar Allan Poe. Lido na coletânea Histórias Extraordinárias. 6 páginas, 4 min.

Embora eu tenha dito ontem que Pequena Palestra com uma Múmia é meu conto favorito do Poe, eu deveria ressaltar que ele é meu conto favorito do Poe que não se parece com o estilo do Poe (confuso? leiam o conto e vocês entenderão do que estou falando…).

Das histórias legitimamente ao estilo do Poe, cheias de simbolismos e referências góticas, A Máscara da Morte Rubra é meu verdadeiro favorito.


Aliás, o Gaiman escreveu uma história da Morte de Sandman que bebe nesse conto.

Esse conto é daquelas histórias de nos fazer prender o fôlego, que sobe como um crescendo musical até o momento de retumbantes clímax. Do momento em que o príncipe Próspero encerra sua corte por trás de suas muralhas e simplesmente ignora o povo do lado de fora morrendo da peste, até a aparição da figura mascarada que impõe ao vigor orgiástico das festas dentro do castelo, tudo aqui é pensado para prender o leitor, fazê-lo mergulhar naquele universo, até o momento da catarse final.

Como resistir a um conto com esse?

Dia 28 - 16h40
O Barril de Amontillado de Edgar Allan Poe. Lido na coletânea Histórias Extraordinárias. 7 páginas, 6 min.

Nada como começar a semana com uma história de emparedamento. Acho que poucas vinganças podem ser mais cruéis do que você emparedar viva uma pessoa, esquecê-la e deixá-la definhar aos poucos…

A morte pelo fogo também me parece horrível, mas é, pelo menos, mais rápida e depois de algum tempo você perde a consciência por causa da fumaça…

A grande pergunta desse conto, na verdade é o que cargas d’água Fortunato disse de tão ofensivo ao narrador que o levou a tais extremos de vingança e traição. Bem que queria saber...

Dia 29 - 13h41
O Gato Preto de Edgar Allan Poe. Lido na coletânea Histórias Extraordinárias. 10 páginas, 9 min.

E aqui temos mais uma história de crime e emparedamento - embora, nesse caso, a vítima já estivesse morta e a tentativa de ocultar seu cadáver por trás da parede não é um castigo a mais e sim apenas uma artimanha para tentar escapar à justiça.

O que acho curioso nesse conto é a forma como o narrador se transforma, começando como pessoal gentil e amantes dos animais - ou, pelo menos, é o que ele afirma - para um homem autodestrutivo e brutal, totalmente fora do controle. Segundo a história que ele nos conta, a culpa teria sido do vício, o álcool que teria virado sua cabeça.

Na minha opinião, o álcool é uma desculpa. Os instintos estavam lá desde o começo.

De outro giro, adoro o fato de que o gato preto, que normalmente é uma figura associada pela superstição ao maligno, é o grande herói da história.

Dia 30 - 17h06
O Poço e o Pêndulo de Edgar Allan Poe. Lido na coletânea Histórias Extraordinárias. 17 páginas, 16 min.

Creio que nenhum outro conto de Poe tem uma sensação tão aguda de claustrofobia e ansiedade quanto O Poço e o Pêndulo. Gosto bastante da forma como essa história é construída, e a cada novo horror desvelado dizemos conosco que não pode ficar pior… e fica.

O interessante é que não há nada de particularmente sobrenatural nessa história - e Poe gosta de deixar sugestões de sobrenatural. Como em O Barril de Amontillado, o horror aqui é totalmente pensado por cabeças humanas; no caso, os Inquisidores de Toledo (e quem conhece um pouco de História deve saber que a Inquisição Espanhola foi a mais cruel de todas).

Dia 31 - 10h30
As Neves do Kilimanjaro de Ernest Hemingway. Lido online aqui. 32 páginas, 24 min.

Termino o mês com Hemingway, considerado ainda hoje um dos melhores autores de histórias curtas da literatura ocidental. Nesse conto, acompanhamos um alter ego do autor, Harry Street, agonizando em cima de uma cama, aos pés do Kilimanjaro, a perna gangrenando enquanto ela reflete sobre sua vida - em especial, seu trabalho como escritor.

Não tenho dificuldades em compreender porque Hemingway é considerado tão bom contista: em pouco mais de trinta páginas, ele consegue condensar uma vida inteira e o metafórico final é belo em sua simplicidade, fechando uma narrativa que até então mergulhara no amargor das frustrações.

Conclusões

Março foi, como já disse antes, um mês complicado. A despeito disso, não posso dizer que tenha me arrependido do esforço eventualmente desprendido com as histórias que li até aqui - nenhum dos contos que li desde o começo do ano foi uma decepção, pelo contrário, tenho encontrado tanta coisa boa no meu caminho...

Terminei de ler O Príncipe de Westeros e outros contos, que comecei mês passado; avancei pelos Livros da Selva de Rudyard Kipling ficando agradavelmente surpresa com o vigor e o senso de aventura dessas histórias; reli todos os meus contos favoritos do Poe e tive a oportunidade de conhecer um pouco mais do Hemingway, que não é um autor com que estou tão acostumada a lidar.

Até aqui, continuamos firmes e fortes. Cansada, ou com sono ou com outras obrigações pelo meio, meu desafio vem demonstrando que nada é obstáculo para ler ao menos um pouco, todo dia. Fico satisfeita com isso.

Contos: 91/365
Páginas: 2106 (823 lidas esse mês)
Tempo: 26 horas e 18 minutos (10h 02min de leitura esse mês)

Estou sem livros fechados para abril… vejamos para onde nos leva os ventos sem planos fechados a nos guiar...


A Coruja




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