2 de fevereiro de 2016

Para ler: Terra dos Homens || Piloto de Guerra

Sem dúvida partiremos em missão, pois estão nos convocando. Estamos no fim de maio, em plena retirada, em pleno desastre. Sacrificam-se tripulações como se jogassem copos d'água no incêndio de uma floresta. Como calcular os riscos quando tudo desmorona?
Todo mundo conhece o nome de Saint-Exupéry: O Pequeno Príncipe é uma das obras mais traduzidas da literatura e mesmo quem nunca leu é capaz de repetir a famosa citação da raposa - Tu és responsável por tudo aquilo que cativas. Há aqueles que amam e enchem os olhos de lágrimas e quem deteste a mensagem como se ela representasse grilhões.

Saint-Exupéry, contudo, foi mais que um desenhista de jibóias digerindo elefantes e de carneiros em versão Schrödinger (mas sem veneno na caixa). Ele foi um dos pioneiros da aviação civil e teve uma vida intensa e aventuresca. É parte dessa faceta que encontramos nesses seus relatos biográficos.


Terra dos Homens é uma sequência de memórias aparentemente desconexas, de eventos significativos na carreira e vida do autor: o primeiro vôo profissional, acidentes em que perdeu dois de seus melhores amigos (eles também nomes de vulto na história da aviação), o resgate de um escravo, uma queda no deserto que por muito pouco não o matou de sede.

Mas, ao chegar ao final do livro, percebemos que não se trata de relatos assim tão desconexos. Todos eles falam de homens e humanidade, de superação, coragem e fé. Com uma linguagem poética e infinitamente delicada, Saint-Exupéry nos faz refletir sobre o que o homem encontra em seu âmago quando se despe de todas as amarras da civilização - quando está sozinho e forçado a encarar a si mesmo.

As histórias narradas em Terra dos Homens renderiam excelentes roteiros de filmes de aventura, mas a forma como ele nos conta essas histórias as transforma em algo muito mais introspectivo. É um livro curto, belo, com reflexos da história mais universalmente conhecida do autor. Ser responsável por quem cativa, aqui, significa não ceder mesmo nas condições mais adversas - não se deitar quando a neve dos Andes ou o deserto do Saara é tudo o que te cerca e você só pode contar consigo mesmo.

Afinal, estão te esperando em casa.


Após devorar Terra dos Homens, segui para Piloto de Guerra, que é também um registro autobiográfico de Saint-Exupéry, porém menos fragmentário que aquele primeiro volume.

Desta feita, o autor se concentra num único fato - um vôo de reconhecimento para descobrir tropas alemãs na França - para desenvolver suas memórias, seus pensamentos sobre a guerra.

Confesso que gostei mais de Terra dos Homens - talvez porque seja um texto mais inocente, mais otimista. Por ter um tom de romantismo e aventura. Piloto de Guerra, por outro lado, é um vórtice delirante em muitos momentos, com o autor partido ao meio entre seu senso de dever para com a França e contra Hitler, e sua percepção da guerra como algo sem lógica, uma ausência de sanidade.

Eu concordo com esse ponto de vista e compartilho o desencanto que Saint-Exupéry demonstra nesse livro, mas confesso que é algo doloroso ler esses dois títulos em sequência e perceber as mudanças que esse desencanto produziram no autor.

Seja como for, são dois excelentes livros, que mereciam ser mais conhecidos do grande público. Mais alguém por aí leu?


A Coruja


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