22 de setembro de 2015

Livros para Ler na Primavera


Amanhã começa a primavera! A estação das flores, dos piqueniques, de passarinhos cantando na janela e amor (ou feromônios, a depender do ponto de vista) no ar. Não que por aqui pelo Nordeste a gente sinta uma grande diferença, exceto pelo fato de que parou de chover toda vez que coloco o pé para fora de casa e esqueço o guarda-chuva.

(Porque a probabilidade de cair um aguaceiro é sempre maior depois que você já saiu de casa e se deixou enganar pelo céu azul sem nuvens. Sério, eu já comprovei isso cientificamente. Murphy também).

Seja como for, cercado ou não do desabrochar de flores e espirrando com sua alergia a pólen, o fato é que a primavera é uma estação para se aproveitar o ar livre. Assim sendo, na minha modesta opinião, é uma época para livros curtos, narrativas leves ou antologias de contos – esses últimos são perfeitos para se deitar no gramado, ler uma ou outra história, ir embora, voltar e continuar de qualquer outro ponto do livro. É um tempo para enredos cheios de bom humor, que te deixam sorrindo encantado quando termina.

Seguindo essa premissa, eis três de minhas indicações pessoais para a estação (e para todas as outras também, já que diferente de coleções de alfaiataria, livros nunca saem de moda, não é mesmo?).

A gaiola e o animal foram introduzidos clandestinamente por um jovem e simpático açougueiro, em troca de algumas moedas de prata que Conradin economizara muito em segredo, durante um longo tempo. Ele morria de medo desse animal de pelo macio e dentes pontudos, mas esse era o seu bem mais precioso. A presença do furão no local enchia Conradin de uma alegria secreta misturada com medo, e nunca deveria ser conhecida por “Aquela mulher”, que era assim que ele, em pensamento, se referia à prima.

Um dia, e só Deus sabe de onde lhe teria vindo a inspiração, o garoto conseguiu encontrar um nome maravilhoso para o animal: Sredni Vashtar. E logo ele foi elevado ao status de divindade, a quem Conradin prestava um verdadeiro culto.
Eu conhecia o nome de Saki – ou melhor, Hector Hugh Munro - de outras antologias: ele aparece com destaque sempre que se fala em contos clássicos com pinceladas de sobrenatural, em especial por Gabriel-Ernst, que está em quase todo livro de contos sobre lobisomens com os quais já cruzei.

O caso é que pelas duas ou três histórias que eu já tinha lido de sua autoria, eu simpatizara com o estilo do autor e assim é que, quando descobri essa coletânea dele em português, decidi ver o que mais ele já escrevera. E tive uma agradável surpresa.

Saki é um excelente contista e sabe transitar entre gêneros. Seu humor cáustico e deliciosamente nonsense, bem como a forma como espicaça a sociedade inglesa muito me lembrou Oscar Wilde em peças como A Importância de ser Prudente e Um Marido Ideal. Todos os contos aqui selecionados são excelentes e eu certamente gostaria de ler mais de sua autoria.

Para dar um gostinho do que está à espera nesse livro, deem uma lida em A Janela Aberta.

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- Melhor ser Anne de Green Gables, do que Anne de lugar nenhum.
Esse aqui eu ganhei de presente da Régis ano passado e me apaixonei perdidamente à primeira leitura. Há quem compare a história a de Pollyana mas devo dizer que Anne é muito mais cativante, com um frescor e uma autenticidade encantadoras.

Anne é uma órfã adotada por um casal de irmãos que, a princípio, ‘encomendou’ ao orfanato um menino, para ajudar no trabalho da fazenda. Agora imaginem a surpresa dos irmãos ao descobrir que em vez de um menino, despacharam para eles uma garotinha – e uma garotinha que fala pelos cotovelos, imaginativa e muitas vezes comicamente dramática.

Não demora muito para que ela conquiste seus corações com seu jeito espevitado e mesmo desastrado. Anne traz uma lufada de ar fresco para suas vidas presas na rotina do trabalho. Ela pode não ser o que eles queriam, mas é exatamente do que precisavam.

Anne me fez rir às gargalhadas e chorar soluçante e sonhar acordada. Terminei o livro já sentindo saudades de seus personagens, com a certeza de que tinha acabado de encontrar uma daquelas histórias que nos acompanham pela vida, que se tornam parte de nossa memória afetiva.

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Mas Flush perambulava pelas ruas de Florença para apreciar a percepção dos cheiros. Traçava seu caminho através de ruas importantes e de vielas, através de praças e de becos, guiado pelo olfato. Ia traçando seu caminho de um perfume a outro; os ásperos, os amenos, os escuros, os dourados. Entrava e saía, subia e descia, onde se martela latão, onde se assam pães, onde as mulheres penteiam os cabelos, onde as gaiolas de passarinhos empilham-se pelas passagens, onde o vinho salpica manchas vermelho-escuras no calçamento; onde os cheiros de couro, de arreios e de alho se emanam, onde se batem roupas, onde folhas de parreira estremecem, onde homens acomodam-se para beber, cuspir e jogar dados – corria para dentro e para fora, sempre com o focinho grudado ao chão, bebendo da essência; ou com o focinho no ar, vibrando com o aroma. Dormia aqui neste retalho quente de sol – como o sol fazia as pedras cheirarem forte! -, procurava aquele túnel de sombra – como a sombra fazia exalar um cheiro acre da pedra! Devorava cachos inteiros de uvas maduras, principalmente por causa de seu cheiro púrpura; mastigava e cuspia qualquer resto endurecido de cabrito ou de macarrão que a dona da casa italiana tivesse jogado por cima do parapeito da sacada – cabrito e macarrão eram cheiros ásperos, cheiros vermelho-carmim. Seguia a doçura desfalecida do incenso dentro das reentrâncias violetas das catedrais escuras; e, fungando, tentava absorver o dourado do mausoléu com janelas de vitrais coloridos.
Flush – Memórias de um Cão foi o primeiro livro de Virginia Woolf que li, ainda adolescente. Desde então, ele é uma das minhas ‘leituras de conforto’: sempre que estou me sentindo pra baixo, cansada do mundo e da humanidade, ele sai da estante.

Quem conhece a autora de outras obras, provavelmente se surpreenderá com o tom desse livro – muito leve, com um enredo simples, ele é simplesmente adorável. Flush, protagonista dessas memórias, é um cocker spaniel que pertenceu à poetisa Elisabeth Barrett (posteriormente Browning) – em suas cartas para o também poeta Robert Browning, com quem se casaria depois, Elisabeth estava sempre a descrever as peripécias de seu amigo canino e foi ao ler essa correspondência que Woolf teve a idéia de escrever esse romance.

A história inteira é de uma incrível sensibilidade. Há um pouco de comentário social, mas o forte mesmo é o humor e a poesia – acho simplesmente brilhante o uso da sinestesia para mostrar como nosso cãozinho vê o mundo através dos cheiros. De mais a mais, Flush é um personagem bastante complexo emocionalmente e passa por várias situações traumáticas ao longo da narrativa, mas nunca perde a leveza. A afeição dele por Elisabeth, que vivia confinada em casa por sua saúde frágil, e dela também, por ele, é cativante.

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E é isso... essas são as minhas indicações para essa primavera. E vocês, que livros estão separando para estação?


A Coruja


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