7 de julho de 2015

Para ler: O Conde de Monte Cristo

– Cale-se – Disse o Abade -, pois está desperdiçando suas últimas gotas de sangue… Ah, não acredita em Deus e morre golpeado por Deus! Ah, não acredita em Deus, e Deus mesmo assim pede apenas uma prece, uma palavra, uma palavra para perdoar… Deus que podia dirigir o punhal do assassino de maneira a que você expiasse na hora… Deus lhe deu quinze minutos para se arrepender… Caia em si, desgraçado, e arrependa-se!

– Não – insistiu Caderousse -, não me arrependo. Deus não existe, a providência não existe, o que existe é apenas o acaso.
Tendo assistido várias diferentes versões de O Conde de Monte Cristo, imaginava que quando (finalmente) colocasse as mãos naquele que muitos consideram a obra-prima de Dumas, nada haveria de me surpreender.

Eu estava errada.

A história em si, a essas alturas todo mundo já conhece. Traído pelas circunstâncias e pela inveja de uns, Edmund Dantès é preso por um crime que não cometeu, deixado para ser esquecido no temível Château d’If – uma formidável fortaleza francesa, transformada em prisão política e tida como inescapável.


Edmund passa mais de uma década preso, enlouquecendo com o isolamento e a consciência de ser inocente, até conhecer o abade Faria, que lhe oferece companhia, instrução, a possibilidade de uma fuga e a promessa de uma fortuna – e, a partir daí, os meios para que Dantès vá à desforra.

O livro é tido como um romance sobre vingança, mas não acho que esse seja o ponto central da história. A primeira parte demonstra que não há razão nem rima na forma como nossas vidas se desdobram: coisas ruins podem acontecer a pessoas boas, como Edmund, e pessoas ruins colhem benesses sem muito esforço.

Nesse contexto, Edmund se arvora um anjo justiceiro – não se trata, na visão dele, de apenas vingança por vingança, mas sim de justiça: da mesma forma como sua vida foi arruinada, que sejam arruinados aqueles que o levaram à prisão.

De certa maneira, Edmund procura uma justificativa para aquilo que foi feito a ele, concentrando-se na idéia de que ele é um instrumento de punição divina. Só que não demora a que nosso herói seja confrontado com as consequências de seus planos, especialmente com os danos colaterais, os inocentes que são atingidos por seus atos.

Ao final, percebe-se que não se trata apenas de retribuição, mas também de redenção: a vingança não é capaz de trazer paz a Edmund, e ele também tem seus pecados para compensar.

O Conde de Monte Cristo é um folhetim na melhor tradição dos folhetins, repleto de reviravoltas e lances tão surpreendentes que tornam o enredo bastante implausível, mas não menos fascinante. É o tipo de história que te deixa sentado na ponta da cadeira, de fôlego preso esperando o que virá a seguir. Edmund, em sua identidade como o Conde, é um misto de sultão e gênio da lâmpada e ele comanda um misto de respeito e admiração difícil de encontrar em outros anti-heróis.

A despeito das mais de mil e quinhentas páginas (pelo menos, na minha edição), é um título que flui com rapidez, já que você está sempre ansioso para saber o que vai acontecer a seguir e ele não enrola demais para mostrar a que veio. Nesse aspecto, é melhor que Os Três Mosqueteiros, que por vezes se afoga em cenas repetidas e pontas soltas.

Na melhor definição de clássicos que conheço, dada por Calvino, O Conde de Monte Cristo se insere por completo: é um livro para ler não apenas uma vez, mas várias, e que se presta ao prazer de uma boa história e à reflexão.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: O Conde de Monte Cristo
Autor: Alexandre Dumas
Tradução: Rodrigo Lacerda e André Telles
Editora: Zahar
Ano: 2012
Número de páginas: 1663

Onde Comprar

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