16 de junho de 2015

Desafio Corujesco 2015: Continuações || Série Thursday Next

“Primeira lição em viagens no tempo, Thursday. Antes de mais nada, somos todos viajantes do tempo. A vasta maioria, contudo, é capaz apenas de um dia de cada vez.”
Descobri Jasper Fforde graças à lista Top 100 Science Fiction, Fantasy Boks da NPR – uma das minhas fontes favoritas para decidir por onde vou me aventurar a seguir, já que ela elenca alguns dos principais títulos e de mais influência na história do gênero. Não sei explicar exatamente porque ele me chamou a atenção de cara, mas seja lá o que tenha sido, só posso agradecer: conhecer Fforde e Thursday foi um prazer imenso.

Thursday Next, a protagonista da série, é uma ex-combatente da Guerra da Criméia, atual agente especial de investigações literárias – isso num Universo em que a sociedade gira em torno do conhecimento literário e que Shakespeare e Dickens são discutidos com o mesmo fervor que no nosso mundo real, discute-se bebês reais e o topless de subcelebridades em Ibiza. Mais que isso até: aqui é possível dar um passo para dentro de um livro e fazer turismo em Pemberley ou Thornfield, ou de repente cruzar com Miss Havisham ou a Rainha de Copas num bazar beneficente, estapeando-se por causa de primeiras edições de romances de banca.

Seria o mundo perfeito – do meu ponto de vista, pelo menos – não fosse por vilões como Hades e sua família soltos por aí, ou o domínio mundial exercido de forma quase Big Brother pela Corporação Goliath.

Em Lost in a Good Book começamos quase de onde The Eyre Affair parou. Thursday ainda está lidando com os desdobramentos da confusão com Hades, ao mesmo tempo em que vive os idílios de uma recém-casada ao lado de Landon – que não demora muito para revelar uma gravidez. E alguém achou um manuscrito perdido de Shakespeare!

Infelizmente, como tudo que é bom dura pouco, um belo dia Thursday acorda para descobrir que (1) seu inteiro passado foi reescrito porque a turma da Goliath deu um jeito de matar Landon ainda criança e só ela se lembra dele; (2) ela foi recrutada para trabalhar na Jurisficção, uma força especial de proteção aos livros capitaneada pelo Gato Cheshire, onde Miss Havisham se torna sua mentora e (3) o fim do mundo está próximo e ele provavelmente vai terminar em... algodão-doce.

Ah, claro, também existe a possibilidade de que ela esteja sendo perseguida por Hades ou alguém com poderes parecidos com Hades, mas capaz de lhe provocar amnésia.

Lost in a Good Book é um livro intermediário – ele não funciona sem The Eyre Affair (que, por sua vez, podia ser lido sozinho sem maiores problemas) e não termina, a ação continuando em The Well of Lost Plots. Talvez por isso, a certa altura, ele me tenha causado certo cansaço. Era muita coisa acontecendo, muitas novas linhas narrativas aparecendo, sem nenhuma resolução.

Só que tudo isso é necessário acontecer aqui para colocar as peças no lugar certo para quando chegamos a The Well of Lost Plots. Perseguida por todos os lados, com a turma da Goliath querendo transformá-la numa experiência científica, e grávida, Thursday acaba tendo de se exilar dentro de um dos livros perdidos no mundo da Jurisficção – ao menos até ganhar o bebê e ter certeza que não vai expô-lo a perigos desnecessários em suas tentativas de salvar Landon e prender os vilões.

Claro que ter se mudado do mundo real para dentro de um livro, isso não significa que ela vai deixar de se meter em confusões e The Well of Lost Plots é rico em teorias da conspiração e situações potencialmente catastróficas – especialmente se tratado da proteção ao direito de ser criativo.

O terceiro livro da série funciona melhor, mas como já disse antes, Lost in a Good Book é mais uma ponte do que uma história que se sustenta sozinha.

O fato é que no meio de toda essa confusão, Fforde conseguiu criar um mundo que, em seus melhores momentos, nos lembra o nonsense de Pratchett e Douglas Adams. Ao mesmo tempo, seus personagens são críveis e humanos: Thursday é uma mulher formidável, seu relacionamento com Landon é construído de uma forma natural e bastante real; os personagens que formam sua família são meio loucos, mas todos eles têm uma simpatia que os torna adoráveis (eu amo o pai viajante do tempo da Thursday, ele é ótimo!).

Para além disso, toda a série é uma grande celebração dos livros e das pessoas que amam livros: boa parte da graça da história é reconhecer personagens de romances clássicos e como eles se encaixam nesse universo em que, teoricamente, personagens podem ser tão de carne e osso quando o resto da humanidade comum.


A Coruja


____________________________________

 

2 comentários:

  1. hum... interessante... acho que vou incluir nas minhas listas de leituras.
    a minha continuação não foi tão boa assim... mas também é interessante :-)
    http://leiturasdelaura.blogspot.com.br/2015/06/o-legado-de-arn.html

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Eu realmente recomendo, é muito divertido. E temos uma protagonista feminina aqui que eu bem gostaria de emular. Thursday virou uma das minhas heroínas.

      Excluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog