17 de março de 2015

180º - Doces, cozinha e omiyages


Com a permissão da Rainha (SALVE!), eu já decretei que esse mês de Fevereiro é o mês do chocolate. Portanto, o 180º também tratará de um tema parecido: doces e cozinha. Deve-se alertar logo que eu não sou cozinheira e não vou dar receitar ou coisa assim, mas queria comentar sobre uma diferença que muitos estrangeiros notam aqui no Japão.

Vamos começar pelo mais óbvio. Você de repente se vê tomado por uma vontade de comer bolo de chocolate, aquela coisa calórica, molhada (ou fofa e seca, a depender do produtor e/ou da receita) e pesada. De uma forma ou de outra, sua sobremesa bem doce tem um gosto bastante marcante.

Devo ter feito alguém babar, e, talvez, ficar com raiva. Mas, olhe pelo lado bom: pelo menos vocês têm a opção de sair e catar o diabo do bolo! Não é que não haja bolo de chocolate no Japão – mas é claro que tem! E vários! Há MUITOS doces no Japão, na verdade, ouso dizer que até MAIS do que no Brasil. A despeito da fama da comida (tradicional) japonesa ser saudável, há doce aqui até dizer chega umas 100 vezes e mais. Mas tenho duas observações que considero interessantes sobre o assunto: a primeira, é que, se no Brasil alguns bolos tem muito glacê, no Japão QUASE todos os bolos tem clara-de-neve de uma forma ou de outra. Recheio? 90% das vezes é clara de neve. Cobertura? Idem. Mil folhas? Intercalada com clara de neve. E se for mousse? Às vezes tem clara de neve em cima. Alguma coisa com frutas, principalmente morango? Misturado com clara de neve.

Eu já não gostava mesmo dessa coisa branca e gosmenta, mas, quando cheguei aqui, desisti de vez. VIVA O DOCE-DE-LEITE!

Outra coisa que usam muito aqui, o recheio “custard”, que, creio eu, é gema de ovo com açúcar (e talvez manteiga). Não é que seja ruim (mas também não é absurdamente bom, pro meu gosto), mas, com esses ingredientes, eu prefiro comprar chocolate mesmo, porque, pelo menos, faz mal, mas eu amo. XD

Em contrapartida, pelo menos no Nordeste brasileiro, admitidamente, creme-de-leite é usado para fazer qualquer molho que não o de tomate, e leite condensado para fazer quase qualquer sobremesa (ou parte dela, tipo a cobertura de um bolo)... Pelo visto, de uma forma ou de outra é um derivado de leite que usamos para cozinhar tudo, o que não é surpresa, visto que temos uma das maiores (se não a maior) criação bovina no mundo.

Só por curiosidade, o Brasil é o maior exportador mundial de galináceos (e de laranjas, mas isso não vem ao caso).

Mas, de volta aos doces no Japão. Haja balas, jujubas, bolos, claras de neve, cheesecake (desse eu não reclamaria, se não fosse o sabor de manteiga que eles muitas vezes têm), pudins (feitos com ovo e leite, ou seja, da forma clássica; não são de creme de leite e leite-condensado como o nosso), biscoitos etc.

É importante observar que esse sem-fim de doces não se trata apenas de doces “ocidentais”... Obviamente, há vários doces japoneses também, e outros que são de fora, mas que os japoneses “niponizaram” e popularizaram.

Dizem que isso veio da Alemanha, mas está tão difundido por aqui, que qualquer loja de conveniência tem. É parecido com nosso rocambole, mas as camadas são bem mais fininhas... E é engraçado ver quando está sendo feito, porque parece com kebab, ou seja, algo bastante grande girando num espeto.

Agora, adivinhem de que é feito a maior parte dos doces japoneses!

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Arroz e feijão.

Não, sério.

Mochi é o nome que se dá a um alimento feito exclusivamente de arroz. É grudento pra caramba, e eu não sou fã, em parte por causa dessa viscosidade, mas qualquer cidade tem seu omiyage local feito de mochi.

O que de o quê? Calma. Mais pra baixo explico o que é omiyage.


E o feijão? Bem, para quem não conhece muito bem a cultura japonesa, ou, melhor ainda, a comida japonesa, saiba que o(s) recheio(s) tradicional(is) japonês(es) é(são) feito(s) à base de feijão... E antes que alguém faça careta, devo salientar que feijão no Japão, em geral, é DOCE, tipo aquele “pão” em forma de peixe (taiyaki) que vemos muito em animes e mangás.

As pastas de anko e azuki são as mais frequentes, e até que não são ruins (mas eu ainda não sei a diferença). Às vezes, lembra(m?) chocolate, mas eu não consigo comer muito, ou por muito tempo. (Já chocolate ou doce-de-leite....)

Agora vamos a outro fato interessante. Sabe quando viajamos e, na volta, levamos chaverinhos e blusas, ou outras tranqueiras para nossos amigos e parentes, e colegas de trabalho etc? No Japão isso tem um twist (para variar). Como, em geral, as casas são pequenas, se comparadas às nossas, por exemplo, não é legal ficar acumulando objetos pequenos. Afora isso, há constantes riscos de terremoto (que pode quebrar objetos mais frágeis), e a falta de tempo generalizada de todo mundo aqui – menos ainda pra ficar tirando poeira dessas coisas.

Resultado? Toda santa cidade parece que tem seu doce regional, que só pode ser comprado lá, e que se leva como omiyage (lembrancinhas) pra casa. Sim, embora também haja chaveiros, blusas, canetas etc como lembrancinhas, a coisa mais japonesa é levar comida, normalmente doces dos lugares onde visitam, para colegas de trabalho (especialmente para os superiores), família e amigos.

Típica loja de omiyage. Não importa onde você vá, sempre parece mais ou menos assim, com mais ou menos os mesmos doces (o que é engraçado quando eles dizem que são originais), e, também, mais ou menos o mesmo preço tabelado. Eu rio, pra não chorar, nessas horas...

Kyoto é um bom exemplo disso, tendo muito coisa de feijão doce (o que não é surpresa) e chá verde, e Sapporo (capital de Hokkaidou, a grande ilha mais ao Norte) tem várias lojas famosas também. No segundo caso fui surpreendida ao constata que não é como o primeiro. Hokkaidou é uma ilha grande, mas relativamente inabitada e, por isso, tem bem mais espaço que outros lugares no Japão. É lá que fica boa parte da criação de gado destinada a produzir leite (e derivados). Já Kobe, mais pro meio do arquipélago, é um porto enorme (talvez o maior do Japão) e foi o primeiro a receber estrangeiros, após o maldito Perry ameaçar bombardear as ilhas nipônicas se as fronteiras não fossem abertas. Embora tenha o bife mais caro do Japão, devido à forma como seu gado é criado para que renda carne de altíssima qualidade, também ficou famosa pelo seu pudim. Não me perguntem. Eu só moro aqui...

E sabem o que é mais interessante? Algumas marcas de produtos entraram na brincadeira também. Os biscoitos Countryma’am, por exemplo – e que, por sinal são uma delícia, e nos quais eu viciei a Lulu – entram nessa lista. Em Kobe, tanto eles, quanto Kit Kat, existem no sabor pudim... e só em Kobe.

Sim, Kit Kat. Pode não ser uma marca japonesa, mas, caramba, como os japoneses gostam disso!! A marca de chocolate já entrou na lista de omiyages. Já vi vários sabores, tanto gerais – que são vendidos no país inteiro –, quanto os regionais, que só são encontrados em determinadas regioes. Tem também os sazonais... É, pois é, eu disse que gostam disso aqui.

O “estado” de Nagano é conhecido por suas maçãs e sua beleza natural. Como não dá pra pôr o segundo num Kit Kat, vai um de break sabor maçã? O verde escuro ali embaixo é o Kit Kat de wasabi/raiz forte. Isso mesmo, aquele negócio verde que vem com o sushi... Pior é que até que é bom... 

Alguns dos que posso numerar já ter visto são: abóbora, azuki (Nagoya), batata-doce (Okinawa), biscoito de chocolate (ADORO!!), canela (Kyoto), cereja, chá mattcha (Kyoto), chá preto, chá verde, cheesecake de mirtilo, cheesecake de morango, cheesecake de Yokohoma (obviamente, esse é regional de Yokohama), frutas vermelhas, missô (Nagoya), morango, pimenta (Nagano; mas não se iluda, que não é beeeeem pimenta), pudim, sorvete de baunilha etc. Sério, são só ALGUNS.

Mas só dá pra experimentar se vier pra cá, porque, como tudo no Japão que é de comer, tem prazo de validade curto (ou, como eles chamam, “prazo de sabor”). Vem logo!


A Elefanta


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