5 de fevereiro de 2015

Projeto Shakespeare: A Comédia dos Erros

DUQUE — Mísero Egeu, que destinado foste para experimentar o grau mais alto de uma vida infeliz! Mas podes crer-me: não fosse ir contra a lei, minha coroa, a própria dignidade, os juramentos — que violar nunca os príncipes se atrevem, muito embora o desejem — neste peito tua causa encontrara um advogado. Mas muito embora condenado te aches e a sentença de morte não me seja possível revocar sem grande dano para nossa honra, vou favorecer-te naquilo que puder. Por essa causa, mercador, eu te dou mais este dia para auxílio amigável angariares, que a vida te resgate. Experimenta os amigos que em Éfeso tiveres. Toma emprestado, pede esmola e vive, depois de perfazeres a quantia. Caso contrário, morrerás; é lei. Deixo-o sob tua guarda, carcereiro.

CARCEREIRO — Pois não, milorde.

EGEU — Pobre, sem esperança, Egeu só lida para o fim postergar da triste vida.
A Comédia dos Erros é uma das primeiras peças de Shakespeare, escrita provavelmente em 1594. Não é das minhas comédias favoritas – são tantas as coincidências que se sobrepõem que você chega a ficar tonto enquanto lê. Em compensação, creio que no palco o texto funcione muito bem.

Aliás, já discuti isso antes, creio que quando falei de Sonho de Uma Noite de Verão: é muito diferente ler e assistir uma peça. Certos exageros, hipérboles e absurdos funcionam melhor quando estão sendo interpretados por um ator. Fazem parte da dramaticidade, do convite à plateia para que chegue mais perto e participe da patacoada.

A comicidade da peça vem exatamente das trocas de identidade que ocorrem ao jogar numa mesma cidade dois irmãos gêmeos separados no nascimento que, por sua vez, têm como criados também irmãos gêmeos. A história em si era mais ou menos familiar para os espectadores da época, inspirada no trabalho de um dramaturgo romano, Plautus e não seria a primeira vez em que Shakespeare trabalharia com duplos - Noite de Reis tem um argumento parecido.

O que impressiona em A Comédia dos Erros não é a familiaridade que se poderia ter com o plot, mas o nível a que o bardo eleva as mil e uma confusões que jogar quatro personagens não apenas com o mesmo rosto, mas também com o mesmo nome, num único ambiente.

Como já dito, os irmãos (e servos) gêmeos foram separados pouco depois de terem nascido – resultado de uma tempestade e um naufrágio (mais uma vez, soa familiar, não é verdade?). Anos depois, o gêmeo mais novo, Antífolo de Siracusa, que foi criado pelo pai, decide procurar pelo irmão perdido e assim segue para Éfeso, onde está o outro Antífolo (dito ‘de Éfeso’ para tentar diminuir a confusão).

Aí começam os imbróglios. A esposa de Antífolo de Éfeso, Adriana, encontra o outro Antífolo e pensando que é seu marido, arrasta-o para casa, onde o rapaz conhece a irmã da esposa do irmão (que se chama Luciana!) e se apaixona e a pobre Luciana fica achando que é o cunhado que está repentinamente dando em cima dela quando na verdade é o irmão de seu cunhado.

Um Antífolo recebe uma mercadoria que não comprou. O outro recebe a conta e se recusa a pagar. Um é preso, o outro fica solto, as coisas vão se enrolando, Adriana acha que o marido enlouqueceu e decide chamar um exorcista e os mal-entendidos vão se multiplicando, quase culminando na morte do pai dos gêmeos – não apenas pelas trocas de identidades entre os irmãos, mas também pelo fato de que nunca um está no mesmo lugar que o outro, de forma que eles são sempre vistos como um único indivíduo, e não uma multiplicidade de criaturas com mesmos nomes e mesmos rostos!

Do meu ponto de vista, a peça parece um estudo para muitos dos trabalhos que viriam posteriormente. A história lembra em muitos pontos os gêmeos de Noite de Reis e em sua estrutura há qualquer coisa de A Tempestade também. Vale conhecê-la para compará-la às outras e observar o avanço das técnicas do bardo.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: A Comédia dos Erros
Autor: William Shakespeare
Tradução: Beatriz Viégas-Faria
Editora: L&PM
Ano: 2004
Número de páginas: 112

Onde Comprar

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A Coruja


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2 comentários:

  1. Respostas
    1. Pra ser sincera, não está dentre os melhores textos do bardo... mas imagino que ele surpreenda no palco.

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