19 de fevereiro de 2015

O Laboratório do Bode: Evolução


Olá leitores! Aqui é o Bode, e hoje irei estrear uma nova coluna aqui no Coruja!

Isso já foi dito algumas vezes por aqui, mas irei repetir: minha formação é em biologia, o que faz de mim um cientista por formação, e tenho pós graduação na área de ecologia, meu campo de atuação. Já tem algum tempo que desejo inaugurar uma coluna de ciências aqui no blog, e a Lu adorou a idéia. Depois de amadurecer um pouco mais a proposta, trago para vocês O Laboratório do Bode!
Para inaugurar a coluna, gostaria de falar de um assunto que é bem complicado de entender, até mesmo para muitos biólogos: EVOLUÇÃO.


Primeiro de tudo, o que é evolução? Em suma, é a mudança de caracteres hereditários no decorrer das gerações. O que isso quer dizer? Que os filhos serão ligeiramente diferentes dos pais, e que estas mudanças irão (ou não, isso é importante. Continuem lendo.) se acumular de maneira significativa.

O conceito de evolução foi apresentado ao mundo pelos naturalistas Charles Darwin e Alfred Wallace. Sim, a Teoria da Evolução teve dois autores, embora quase todos só conheçam Darwin. Contudo, a ideia de que animais descendiam de animais diferentes são muito anteriores a ambos, havendo relatos de que filósofos gregos anteriores a SÓCRATES já tinham essa visão, e não podemos esquecer das teorias do também naturalista Jean-Baptiste Lamarck. Porém, Darwin é creditado pela elaboração do conceito de evolução por diversos motivos, dentre os quais ele ter investido muito mais tempo e pesquisa, assim como embasamento, na teoria. Ah, e ele também fez tudo isso antes de Wallace.

Pintura de Darwin quando jovem.
Uma curiosidade acerca das pesquisas para o desenvolvimento da Teoria da Evolução: ambos os pesquisadores fizeram extensa pesquisa no Brasil. Enquanto a viagem de Darwin para as Ilhas Galápagos é famosa, Wallace dedicou grande atenção no estudo da Bacia Amazônica.

Bom, depois de suas viagens, ambos os naturalistas passaram anos estudando suas amostras e anotações, e foram aos poucos formulando suas ideias, o que veio a ser conhecido como Seleção Natural. Sim, ANOS! Décadas, na verdade. E Darwin quase não publicou sua teoria, por medo da repercussão, especialmente a religiosa. Eis que o alvo favorito dos religiosos que negam a teoria da evolução era uma pessoa extremamente religiosa, chegando até, em determinado ponto de sua vida, ter considerado a Bíblia como uma verdade absoluta. As anotações de Darwin passaram anos guardadas, até que ele recebeu uma carta de Wallace, pedindo a opinião sobre uma teoria que ele estava formulando. Depois que “trocaram figurinhas” por algum tempo, ambos publicaram seus artigos, EM SEPARADO, para a comunidade científica. Se até hoje ainda causa polêmica em alguns círculos, imaginem como foi na época.



O que ambos os naturalistas não sabiam explicar, era o mecanismo de transmissão de caracteres hereditários. Na época, isso foi explicado como fatores inerentes aos seres vivos, e apenas muitos anos mais tarde, com a familiarização com os estudos do monge agostiniano Gregor Mendel, sobre hereditariedade e genética. Os estudos de Mendel eram muito superiores às suposições que Darwin tinha sobre o tema, e foram incorporados ao que já se sabia sobre evolução, surgindo assim o que se chama hoje de Neodarwinismo.


Tendo explicado um pouco da história, é hora de explicar como a evolução funciona, não é? A evolução funciona por meio de alguns mecanismos principais, mais notavelmente a própria seleção natural e mutação.

Como eu gosto de X-Men, começarei falando de mutação. E não, não envolve superpoderes, infelizmente. Mutação é uma alteração no genoma do indivíduo, e ao contrário do que geralmente se acredita, acontece o tempo todo, com todo mundo. Em geral, os efeitos destas mutações são irrelevantes, e não resultam em absolutamente nada. Algumas vezes, estas mutações resultam em alguma coisa, e essa coisa é chamada câncer. E muito, mas MUITO RARAMENTE MESMO, essa mutação resulta em alguma coisa boa. E por “boa”, entenda “absolutamente qualquer coisa”. Por exemplo: digamos que os genes que determinam seu tipo de cabelo sofrem uma mutação. Agora, ao invés de ter o cabelo de uma maneira, seu cabelo irá crescer de outra, ou crescer mais rápido ou devagar, ou ter um tom levemente diferente... bom, acho que deu para entender, não é?

Mutações ocorrem geralmente na síntese do DNA, durante a divisão celular.
Uma mutação, por si só não é necessariamente boa ou má, como nós vemos isso. É aí que entra outro mecanismo, a Seleção Natural.

Seleção Natural é o nome que damos ao processo que é conhecido popularmente de “sobrevivência do mais forte”. Contudo, essa frase é, em sua essência, errada. Primeiro, não é o “mais forte” que sobrevive, e sim o mais adaptado (em biologia dizemos que é aquele com maior fitness), e mesmo isso é um fator muito subjetivo.

Tomemos como exemplo um peixe. Essa espécie em particular sofreu uma mutação que permite que produzam uma proteína em especial, que impede, digamos, que seu sangue e tecidos congelem. Imaginem que essa mutação surgiu em um peixe que vive em águas quentes da região tropical. Que benefício isso irá trazer para esse peixe? Provavelmente nenhum. Pode ser, inclusive, que traga prejuízos para o peixe, já que produzir tal proteína toma recursos que poderiam estar sendo usados para outra coisa mais útil nesse ambiente! Agora, se esta mesma mutação surge em um peixe que vive em regiões glaciais, aonde a temperatura da água regularmente cai abaixo do ponto de congelamento, essa mutação se torna bem mais vantajosa, concordam? E para os curiosos, tais peixes realmente existem e vivem nas águas geladas do Polo Sul.


O que eu quero dizer? Que sim, uma mutação pode ser benéfica, quando colocada no contexto certo, mas essa mesmíssima mutação pode ser prejudicial quando colocada no contexto errado. O que podemos concluir sobre isso? Que não basta apenas olhar para o organismo em si, precisamos também avaliar o ambiente aonde tal organismo vive, assim como os outros organismos vivem naquele ambiente, por motivos que explicarei mais tarde.
 
Mais exemplos de mutações bem sucedidas.
Isso nos leva novamente para a frase “sobrevivência do mais forte”, que acabei de explicar por que está errada. De acordo com minha opinião, e da maior parte dos biólogos que conheço, essa frase deveria ser reescrita para alguma coisa parecida com “sobrevivência daquele mais adaptado para determinado ambiente, naquele ambiente”.


Obviamente, existe muito mais a ser dito sobre o assunto, mas creio que essa pequena aula já serviu para esclarecer um pouco sobre o assunto. Futuramente, irei escrever mais sobre assuntos relacionados, então fiquem ligados!

PARA OS CURIOSOS SOBRE O TEMA:
- A Origem das Espécies, por Charles Darwin. Leitura obrigatória para os curiosos sobre o tema.
- Principles of evolution, ecology and behavior, por Stephen C. Stearns. Curso online sobre evolução, por um dos mais renomados pesquisadores na área.

O Bode


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