3 de fevereiro de 2015

Desafio Corujesco 2015: Uma História Contada em Versos || Vênus e Adônis

Como o sol, faces púrpuras, desponta
Com o adeus final da aurora se carpindo,
À caça, Adônis, rosto em cor, se apronta.
Se ama caçar, caçoa do amor, se rindo.
Doente de amar, Vênus se lança atrás,
Corteja-o feito um pretendente audaz.
Inspirado numa das histórias de As Metamorfoses do poeta romano Ovídio, o poema Vênus e Adônis relata uma breve cena entre a deusa do amor e seu jovem amante: Vênus tenta de todas as formas convencer Adônis a largar a idéia de ir para uma grande caçada para abandonar-se em seus braços, mas o rapaz insiste em não se deixar seduzir. Ao final, ela se dá por vencida e permite que ele parta, para logo depois ouvir seus gritos de agonia - Adônis foi mortalmente ferido pelo grande javali.

Shakespeare está aqui em grande forma. A oratória dos dois amantes é impecável e cheia de imagens de incrível delicadeza e estilo. Não é um livro de linguagem particularmente fácil (eu ainda prefiro mais as peças à poesia do bardo), mas existe uma melodia intrínseca que foi respeitada na tradução - a primeira aqui no Brasil - e que me agradou bastante.

Embora seja, essencialmente, um poema de amor, há algo de bastante irônico na argumentação e contra-argumentação entre as duas vozes do título: Vênus, sendo a deusa do amor e da beleza, certamente não esperaria tamanha resistência por parte de um rapaz mortal. Tampouco que sua sedução terminasse por cair em ouvidos surdos e falhasse tragicamente.

É uma inversão curiosa nos papéis de sedutor/seduzido e foi um grande bestseller à época de sua publicação, com dezenas de impressões em menos de meio século - para então cair em quase completo esquecimento, mesmo quando da redescoberta de Shakespeare pelos românticos. Aliás, é curioso perceber que os dois únicos livros que o mestre inglês fez questão de publicar com seu nome (bom lembrar que as peças de teatro não eram de propriedade do autor, mas da companhia de teatro que as encomendava) - o comentado Vênus e Adônis e O Estupro de Lucrécia - são hoje das menos conhecidas em seu repertório e que só recentemente tenhamos ganho uma tradução.

E que tradução. Essa edição da Leya possui uma introdução que é um verdadeiro (e delicioso) ensaio sobre o poema, repleto de contexto histórico, teorias biográficas e análise poética. A obra em si vem publicada tanto no original, em inglês, quanto no português, permitindo a quem se interessar o exercício de comparar entre uma página e outra as escolhas feitas para manter a forma do poema.

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica

Título: Vênus e Adônis
Autor: William Shakespeare
Tradução: Alípio Correia de Franca Neto
Editora: Leya
Ano: 2014
Número de páginas: 176

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Amazon || Cultura || Saraiva








A Coruja


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4 comentários:

  1. Eu também resolvi ler Shakespeare nesse tema! Mas acho que não escolhi tão bem quanto você :-(
    http://leiturasdelaura.blogspot.com.br/2015/02/romeu-e-julieta.html
    Beijos!

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    Respostas
    1. Considerando o número de vezes que resmunguei sobre Romeu, entendo perfeitamente seu ponto ;)

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  2. E eu acho que entendi errado o tema. Li um livro de poemas do Mario Quintana. Não dou uma dentro!
    http://screloaded.blogspot.com.br/2015/02/resenha-poemas-para-se-ler-na-escola.html

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    Respostas
    1. Isso não é um problema, Evelyn! O fato de ser escrito em verso livre não significa que seu livro de poemas também não conte histórias ;)

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