29 de janeiro de 2015

Para ler: The Sleeper and the Spindle

Parecia, a um tempo, improvável e extremamente final. Ela se perguntou como se sentiria sendo uma mulher casada. Seria o fim de sua vida, decidiu, se a vida é um tempo de escolhas. Em uma semana a partir daquele momento, não teria escolhas. Ela iria reinar sobre o seu povo. Ela teria filhos. Talvez fosse morrer no parto, talvez morresse como uma mulher velha, ou em batalha. Mas o caminho para a sua morte, batida por batida de seu coração, seria inevitável.
Quando foi publicado, The Sleeper and the Spindle vendeu-se como polêmico pelo painel em que a Branca de Neve dá o beijo que quebra a maldição da Bela Adormecida. Lendo algumas críticas que saíram em grandes jornais pelo mundo, fiquei na impressão que de alguma forma Gaiman tinha criado um grande romance lésbico entre as duas personagens.

Aí o livro chegou nas minhas mãos, eu li e fiquei me perguntando com meus botões se os críticos que tanto teclaram nessa história do beijo leram uma versão diferente da história que eu tinha.

O problema é que muita gente parece só conhecer a versão da Bela Adormecida da Disney, onde o Phillip e Aurora têm tempo de se conhecer e se apaixonarem antes da maldição ter início. Dá-se muita importância ao beijo como sendo de ‘amor verdadeiro’, mas o quão verdadeiro pode ser o amor entre duas pessoas que nunca se viram antes, uma das quais está dormindo profundamente há quase cem anos?

Todo mundo que frequenta o Coruja há tempo suficiente sabe da minha cisma com a Bela Adormecida. Para mim, esse é dos contos de fadas que mais me dão calafrios – especialmente quando você conhece as versões mais antigas da história, em que o príncipe é, na verdade, um estuprador. Amor é algo que não tem muita importância no contexto da pobre adormecida.

Sabendo disso, qualquer um com motivação e persistência suficiente poderia despertar a princesa. Branca de Neve – que na história de Gaiman já venceu a madrasta, foi coroada Rainha e está às vésperas de casar com seu próprio príncipe encantado – entende como funcionam histórias e o que é necessário fazer.

Eu não estou dizendo com isso que a ilustração de duas páginas que Riddell fez de duas das maiores princesas dos contos de fadas se beijando não seja uma bela provocação aos puristas e as gentes de mente fechada que existem pelo mundo. O que estou dizendo é que essa polêmica não é o foco da história e que autor e ilustrador têm muito mais que isso para oferecer.


Gaiman já tinha escrito uma versão bastante assustadora da história da Branca de Neve antes (procurem em alguma de suas muitas antologias Snow, Glass, Apples), mas aqui a personagem aparece mais próxima da versão com que estamos habituados. Ela é gentil com seus amigos anões (três, em vez de sete), corajosa e capaz. Ao mesmo tempo, contudo – e a despeito dos preparativos para o seu ‘felizes para sempre’ – ela parece uma criatura estranhamente melancólica.

O alerta dos anões sobre a doença do sono que está se espalhando vindo do reino vizinho é uma feliz desculpa para adiar o casamento e as responsabilidades que estão fazendo Branca perder sua própria identidade (em nenhum momento seu nome é realmente utilizado; ela é sempre chamada de Sua Majestade).

Em vez de um vestido não particularmente prático para caminhar pela floresta, ela enverga armadura e espada e parte através da montanha, para além das fronteiras de seu próprio reino, decidida a resolver o mistério da doença do sono.

Do outro lado da história você tem um reino quase que completamente adormecido - embora à medida que Branca e seus amigos anões vão passando, eles começam a murmurar e a caminhar como sonâmbulos... ou zumbis (eu tive calafrios nessa hora, não vou negar). A exceção é para uma velhinha resmungona no castelo, tentando subir as escadas da torre da princesa com seus ossos artríticos.

A despeito do fato que eu já tinha começado a desconfiar da reviravolta que a história daria no momento em que surgiu a velhinha, ainda assim fiquei admirada quando toda a história é revelada pela forma como Gaiman conseguiu trabalhar tanta coisa interessante em sua versão.

Para além da excelente narrativa, The Sleeper and the Spindle - pelo menos a edição que eu tenho, da editora Bloomsbury britânica – tem um projeto gráfico soberbo. As ilustrações de Riddell são em preto e branco com detalhes em dourado. A capa dura é apenas a imagem da princesa adormecida, com uma luva feita com um material parecido com papel-seda, tornando-se assim semi-transparente. É sobre a luva que estão título e flores com aplicações douradas.


Quando recebi o livro (depois de quase dois meses de espera e isso porque comprei em pré-venda...), fiquei de queixo caído com o apuro, a beleza mesmo da encadernação. Meu motivo principal para tê-lo encomendado foi o nome do Gaiman, mas acho que se eu não conhecesse o autor e tivesse me encontrado por acaso com esse livro nas estantes da livraria, eu teria me apaixonado e trazido ele para casa simplesmente por causa da bendita capa.

No conjunto final, entre narrativa, ilustrações e projeto gráfico, The Sleeper and the Spindle é uma pequena obra de arte com que se deleitar em todos os mínimos detalhes.

(E é também quase um milagre, porque, é, tenho de confessar: nessa sua versão, Gaiman me fez gostar da Bela Adormecida...)

Nota:
(de 1 a 5, sendo: 1 – Não Gostei; 2 – Mais ou Menos; 3 – Gostei; 4 – Gostei muito; 5 – Excelente)

Ficha Bibliográfica
Título: The Sleeper and the Spindle
Autor: Neil Gaiman
Ilustrações: Chris Riddell
Editora: Bloomsbury Publishing
Ano: 2014
Número de páginas: 68

Onde Comprar

Book Depository || Cultura


A Coruja


____________________________________

 

2 comentários:

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog