9 de dezembro de 2014

180º - Natal Japonês

Famosa banda AKB (não olhem pra mim, eu detesto... >.<)

Ho ho ho! Não é original, mas pelo menos lembra o Natal que eu conheço... Me dêem esse gostinho, pelo amor de Deus!

E, sim, por falar em Natal, é disso mesmo que se trata o 180º de dezembro. Ao contrário do que se pensa, o Natal é comemorado aqui, sim. Diferente da Coréia do Sul, entretanto – e foi-me um choque descobrir que, lá, comemora-se do mesmo jeito que o Ocidente: família, ceia e presentes – o Japão tem um jeito diferente de comemorar.

Só por curiosidade, a China também tem um jeito particular de “celebrar” essa data (com alguns traços em comum com o japonês), mas tem uma característica singular: na noite de Natal, dá-se maçãs aos amigos e familiares. Isso porque, em chinês, véspera de Natal é conhecida como “Píng'ān yè”, que quer dizer “Noite de Paz”, mas “píng (guǒ)” também é a pronúncia de “maçã”. Parecido com nossos presentes, eles embalam essas frutas em caixinhas bonitinhas ou algo similar e as dão às pessoas mais próximas. Como eu adoro jogos de palavras, amei o costume (sem falar que é saudável). A ideia é que você deseja saúde e paz para quem você as dá de presente.

O cartão diz, mais ou menos, em chinês:
“Feliz Natal, desejo mandar essa calorosa benção [a maçã] para
meu amado (minha amada).”

Bem, voltando às terras nipônicas. Antes de dizer como isso é comemorado atualmente no Japão, vou passar pela história do feriado nessas bandas. Com a ocupação pelos norte-americanos, muitos costumes ocidentais encontraram alguma forma de reprodução por aqui, principalmente dos EUA. O Natal, por ser um feriado relativamente comum, e que os soldados aliados queriam comemorar, foi um dos que teve rápida disseminação.

Como boa parte dos militares norte-americanos não traziam suas famílias (nem o podiam fazer), a noite de Natal para essas criaturas era particularmente dolorosa. Digo isso porque eu sei bem o que é passar esse feriado tão importante para nós do outro lado do mundo, longe dos entes queridos. Esse será meu quarto Natal seguido passado dessa forma. #choralitros

Ehr... perdão pela interrupção. Voltemos ao assunto: qual a solução global para tristeza e solidão?

Álcool e sexo!

Não, eu juro, não estou brincando. Foi exatamente assim que os norte-americanos apresentaram o Natal aos japoneses (ou assim me contou a senpai que faz doutorado em pesquisa histórica da época da ocupação). Eles iam a bares e/ou hotéis e/ou cabarés, como já diz a nossa clássica letra de música, “para esquecer os (...) pobrema”...

Aos poucos, o costume de beber na noite de Natal, ou/e de ir a prostíbulos, começou a se espalhar entre os japoneses também (porque, aparentemente, beber nunca é demais para eles... >.>). Alguns anos mais tarde, tornou-se costume levar a namoradas ou esposas para hotéis nessas noites. Óbvio que isso era possível apenas aos que tinham condições, mas à medida que a economia ia se recuperando, e, eventualmente, conferindo a uma maior parte da população situações econômicas mais confortáveis, ir a hotéis nessa noite tornou-se popular.

A tradição de dar presentes também se manifestou quando a econômica subiu: tornou-se praxe presentear a namorada/esposa com presentes caros. Não menosprezem esse “caro”, não. Pelo que me conta a senpai, eram do nível de diamantes, ouro, joias, viagens etc. Quanto mais caro, melhor.

Mas eis que temos as sucessivas crises, e esses presentes de alto valor já não eram mais possíveis, ou, pelo menos, a parcela da população que o poderia continuar torna-se menor, mais restrita.

E eis que temos a situação atual: no Japão, o Natal é um feriado para amantes, estilo o Valentine’s. Leva-se a namorada/esposa – ou, pelo menos, espera-se que assim seja – a um parque, cinema, hotel, restaurante etc. Dada a quantidade absurda de casais em todos os restaurantes da cidade na noite do dia 24, creio que essa opção seja bastante popular...

Para quem lê mangás, especialmente os shoujo, dá para perceber esse costume. Quase todos eles têm um(ns) capítulo(s) dedicados a Natal, Valentine’s e férias de verão na praia. Apesar de ser esperado no Valentine’s que haja alguma coisa mais romântica (ou tentativa disso), pode ser uma surpresa para os desavisados que o rapazinho ou/e a mocinha queira passar com seu par. Normalmente não há menção à família, a menos que seja uma família bem diferente.

Até aqui, descrevi a noite de Natal padrão dos japoneses. Todavia, temos alguns outros grupos com situações um pouco diferentes: primeiro, para poder levar (ter) uma namorada/esposa, pressupõe-se que seja um koukousei (aluno de ensino médio) pra cima. Vou abrir aqui um pequeno parêntesis: eu sei que no Brasil, e em vários outros países, não seria incomum ter namorado(a) na 7ª serie, por exemplo, ou até antes, mas, por aqui, pelo menos em Nagoya, as coisas andam mais devagar. Dito isso, retomo o raciocínio anterior: normalmente, até o ensino médio, por aí, sendo menor de idade, e não tendo um par romântico, aí, sim, passa-se o Natal com a família (pai, mãe e irmãos, se houver). Nesse caso, faz-se um jantar que normalmente inclui frango (porque não há peru no Japão, então se popularizou o frango), principalmente o do KFC (Kentucky Fried Chicken, uma rede de fast-foodque é originalmente americana e é especializada em vender frango) e um Kurimasu ke-ki, ou seja, um bolo de Natal. Quando há crianças pequenas, alguns pais dão-lhes presentes.

Esse “balde” é vendido lotado de frango frito no KFC

O segundo caso é para os “adultos” (sentido literal ou não) que não têm um par. Isso conta tanto universitários, quanto shakaijin (basicamente: quem trabalha numa companhia, caracterizado como alguém que usa terno ou uniforme), e mesmo alunos com menos de 20 anos (idade em que se torna adulto no Japão). Nesse caso, para os que têm tempo (normalmente os shakaijin não entram nesse grupo), faz-se uma comemoração entre amigos, e não com a família (repito: o Natal no Japão originalmente não é um feriado familiar). Para tanto, o mais comum é ir a um karaokê, mas pode ser um restaurante (normalmente um fast-food, na casa de alguém etc.

Aliás, pequeno comentário: às vezes parece que, assim como as conbinis (vide o 180º 2014-Agosto), karaokês brotam! Eles tem isso em todo lugar da cidade... oO.

A diferença de comemoração também acaba por trazer uma consequência interessante: muitos japoneses sabem que, no exterior, o Natal é celebrado pelos cristãos dando-se presentes, mas muitos (japoneses) não sabem que é um feriado de família. Mais curiosamente ainda, muitos não sabem a origem do feriado. Lembro-me da cara de espanto quando expliquei para uma que, nessa data, comemora-se o nascimento de Iesu.

É por isso que digo, adoooooro diferenças culturais quando se está num ciclo de pessoas receptivas. Elas me ensinam muitas coisas, e eu a elas.

Sejam pessoas receptivas, pois isso lhes abrirá mais portas do que imaginam. Pronto, esse conselho foi meu presente de Natal. :D

Feliz aniversário, Jesus! Feliz Natal a todos! o/

E até o próximo 180º do ano que vem!


A Elefanta


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