4 de novembro de 2014

Projeto Shakespeare: Medida por Medida

LÚCIO — Por que estás preso, Cláudio? Que foi isso?

CLÁUDIO — Liberdade demais, Lúcio; excessiva. Do mesmo modo que o comer à farta longo jejum engendra, a intemperança nos prazeres nos tolhe a liberdade. Tem sede a Natureza — como os ratos que em seu próprio veneno se comprazem — de algo diabólico; e, ao beber, morremos.

LÚCIO — Se eu fosse capaz de falar com tamanha sabedoria, quando preso, mandaria chamar alguns dos meus credores. Mas ainda assim, para falar franco, prefiro a loucura da liberdade à gravidade da prisão. Qual foi o teu crime, Cláudio?
Essa é uma das poucas peças do bardo que eu tinha selecionado para resenhar esse ano que eu não lera em anos anteriores: minha leitura de agora foi meu primeiro contato com Medida por Medida - o que é curioso, porque eu jurava pra mim mesma que já o tinha visto, antes de começar a ler e perceber que tudo era novo ali.

Eu não sei como classificar Medida por Medida - aliás, essa é uma sempiterna dificuldade com Shakespeare. Não é uma tragédia, nem um drama histórico, obviamente, mas não vejo muito bem onde isso se classificaria como uma comédia.

Tudo começa quando Vincentio, o duque de Viena, decide tirar umas ‘férias’ de seu posto – para em seguida voltar para a cidade sob o disfarce de um monge e ficar de olho no que estão fazendo em seu nome.

Ângelo, o nobre que o duque colocou em seu lugar para administrar a cidade enquanto está fora, é aparentemente um consciencioso governante, disposto a cuidar bem daquilo que foi deixado sob sua responsabilidade – o problema é que Ângelo decide fazer valer antigas leis caídas em desuso e é absolutamente intransigente no cumprimento delas.

Isso resulta na prisão e condenação à morte do jovem Cláudio, que engravidou a própria noiva antes do casamento. Veja bem: Cláudio está inteiramente disposto em assumir responsabilidades; em nenhum momento ele parece querer se furtar ao casamento – mas o fato de que tirou a virgindade de uma donzela antes do sagrado matrimônio é um crime apenado com morte e não há nada que se possa fazer.

Não adiantam súplicas e rogos, pois Ângelo deseja fazer de Cláudio um exemplo. Ou, pelo menos, não adiantam súplicas e rogos até que a irmã de Cláudio, Isabella, que é uma noviça se preparando para fazer os votos, aparece para pedir pelo irmão.

Ângelo se vê tomado por uma luxúria infernal pela moça... e se propõe a cometer o crime pelo qual condena o outro rapaz: na verdade, contanto que Isabella aquiesça em se deitar com ele, ele libertará Cláudio.

O que não passa de balela, claro, porque ele sabe que se conseguir levar a moça pra cama e o irmão sobreviver, Cláudio vira tirar satisfação com ele e a reputação de Ângelo irá ralo abaixo.

Para a sorte de todos, o Duque, sob seu disfarce de frade, vai mexendo os pauzinhos para solucionar o imbróglio tudo – o que me parece bastante justo, vez que se ele não tivesse decidido usar toda essa histórias de férias do trono, nenhuma das tragédias subseqüentes teria acontecido.

Com exceção do carcereiro da prisão – que parece ser o único personagem da história que sente realmente alguma compaixão e entende algo de justiça – praticamente todos os homens da peça merecem entrar para o meu elenco de babacas shakesperianos.

Medida por Medida é uma peça complicada, mas que provoca algumas reflexões – questões sobre justiça, verdade, compaixão, orgulho e humildade ou, como resumiria muito bem Shakespeare na própria peça: “alguns elevam-se pelo pecado, outros caem pela virtude”.


A Coruja


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