22 de novembro de 2014

Para ler: Reparação

Como pode uma romancista realizar uma reparação se, com seu poder absoluto de decidir como a história termina, ela é também Deus? Não há ninguém, nenhuma entidade ou ser mais elevado, a que ela possa apelar, ou com que possa reconciliar-se, ou que possa perdoá-la. Não há nada fora dela. Na sua imaginação ela determina os limites e as condições. Não há reparação possível para Deus nem para os romancistas, nem mesmo para os romancistas ateus. Desde o início a tarefa era inviável, e era justamente essa a questão. A tentativa era tudo.
É possível existir reparação quando uma mentira não apenas destrói a vida de uma pessoa como joga à lama todo o seu caráter e seu próprio futuro, roubando até mesmo o senso de identidade de alguém?

Essa é a grande pergunta que me fiz tanto ao assistir o filme quanto ao ler, mais recentemente, o livro de Ian McEwan, Reparação.

Tudo começa num dia de verão quase insuportavelmente quente e nas ações de um trio de personagens: Briony, sua irmã Cecilia e o jovem Robbie, filho da arrumadeira da mansão da família Tallis.

Briony é uma criança precoce, apaixonada pela idéia de ser uma escritora, de manipular personagens para alcançar uma perfeita ordem. Briony detesta o caos e a incerteza e acaba sendo pega na tormenta de sentimentos conflitantes entre a irmã e Robbie.

Considerando que mesmo Cecilia e Robbie se enrolam sem saber classificar seus sentimentos, sem entender a tensão que existe entre eles, é compreensível que Briony também seja incapaz de entender a atemosfera carregada de eroticismo que existe entre os dois. Mas essa não é uma desculpa plausível para que ela meta seu nariz onde não devia e, decidida a proteger a ‘ordem’ que ela acredita ser necessária, acuse Robbie de um crime odioso – o estupro de sua prima, que estava passando as férias na mansão.

Sendo bastante sincera, não considero esse um engano honesto por mais jovem que seja Briony. Primeiro porque ela se convence que Robbie é o culpado porque essa é a melhor alternativa para a história que ela vê se desenrolando ao seu redor. E segundo porque anos mais tarde ela sabe quem foi o real criminoso, então, ao menos em algum nível inconsciente, ela sabia que Robbie era inocente.

Fora que existe uma possibilidade de interpretação de que ela mentiu conscientemente numa espécie de revanchismo: é dito claramente que em algum momento no passado, Briony nutriu uma paixonite por Robbie e o fato de ter sido trocada pela irmã provavelmente não a deixou muito feliz.

Ao ser responsável pela prisão de Robbie, Briony rouba dele seu futuro, seu respeito e sua família. Os sonhos de ir para a faculdade de medicina, de crescer e ir além do ‘filho da arrumadeira’, a paixão por Cecilia, a consideração do patriarca dos Tallis que até então fora seu principal protetor – Robbie perde tudo isso e, quando estoura a guerra, é despachado como um soldado raso, bucha de canhão basicamente.

O mesmo destino tem Cecilia, que rompe com a família e sai de casa para nunca mais retornar. De certa forma, a mudança é benéfica para Cecilia, que amadurece e encontra seu próprio caminho – mas essa é uma mudança que vem à custa da separação com Robbie, da eterna espera para que possam ficar juntos.

Briony também cresce e na parte seguinte do livro vamos vê-la tentando consertar seus erros do passado. Mas existe possibilidade de reparar o mal que fez?

Mais que arrependimento, Briony me parece ser movida pelo seu desejo de escritora de restaurar a ordem entre seus ‘personagens’ – Cecilia e Robbie – e alcançar uma espécie de final feliz. A reparação que ela é capaz de dar aos dois fica muito aquém do necessário por conta de circunstância que ela mesma não tinha como controlar, mas mesmo que tivesse sido possível, o fato é que Briony destruiu a vida dos dois e plantou as sementes que implodirão sua própria família no futuro.

Briony é uma personagem extremamente complexa, que eu amo odiar...

O filme de Joe Wright adapta essa história de maneira soberba. A trilha sonora é uma das melhores que já ouvi, os atores são fantásticos, fotografia, cenários, tudo está muito bom. O diretor fez jus à obra e devo dizer que esse é um dos meus filmes favoritos.

Reparação é uma excelente história, que rende muito pano para um debate sobre ética e moral, sobre mentiras, concessões sociais, aparências. Vale à pena conhecer.


A Coruja


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2 comentários:

  1. Os livros do Ian parecem ótimos! Ainda não li nenhum mas tenho muito vontade de ler Serena.

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    1. Bem, eu só li Reparação dele, então não posso opinar sobre os outros... mas, de fato, eu gostei da prosa dele, ele não enrola muito, tem uma escrita bem limpa e sabe criar um suspense.

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