7 de outubro de 2014

Desafio Corujesco: The Crestomanci Quartet

Charles cambaleou para o centro do vestiário, perguntando-se qual tipo de milagre era aquele que conseguia fazer um garoto enorme olhar direto através de uma pessoa. Agora que sabia que isso havia acontecido, Charles tinha certeza de que o rapazinho não fingiu – ele realmente não vira Charles parado ali.

– Então o que foi que fez isso acontecer? – Charles perguntou às roupas anônimas penduradas. – Magia? – Sua intenção havia sido fazer uma pergunta sarcástica, o tipo de coisa que a gente diz quando desiste de entender alguma coisa. Mas, por um motivo qualquer, não foi assim que soou. Logo que ele disse isso, uma suspeita enorme e terrível que vinha tomando corpo, quase despercebida, no fundo da mente de Charles, como uma dor de cabeça chegando, foi para frente dos seus pensamentos, como uma dor de cabeça que já chegou. Charles começou a tremer outra vez.

– Não, não foi isso. Foi outra coisa qualquer! – disse. Mas a suspeita, agora que estava ali, exigia ser expulsa agora e de forma definitiva.
Eu acredito que li quando era mais nova um ou outro volume da série Crestomanci, mas confesso que não lembro de nada. Sei que o conheci à mesma época em que estava folheando meus primeiros Pratchett na Nobel, e que um pouco depois disso descobri o brilhante O Castelo Animado, que é da mesma autora.

Aliás, curiosidade: a Jones foi aluna de Tolkien e Lewis em Oxford e professora da Rowling. Mundinho pequeno, não?

Minha edição é uma que vem com os quatro volumes juntos, mas aqui no Brasil elas foram publicadas em separado e falarei um pouquinho sobre cada um dos livros, começando por Vida Encantada.

Nesse primeiro volume, somos apresentados a Eric “Gato” Chant, um garoto aparentemente comum que está sempre seguindo e obedecendo sua irmã mais velha, Gwendolen, uma bruxa brilhante e extremamente talentosa. Os dois ficam órfãos e acabam indo morar no castelo de Crestomanci, um poderoso e mais que temido mago.

Gwendolen tenta de todas as formas chamar a atenção de Crestomanci, de fazê-lo reconhecer seu talento – tornando-se progressivamente mais agressiva. Mas nada do que faz é capaz de forçar Crestomanci a notá-la e isso vai fazendo-a ficar mais e mais furiosa.

Enquanto isso, Eric assiste a tudo sem poder fazer nada – para além do fato de que não aparenta ter qualquer poder, ele foi dominado a vida inteira por Gwendolen. Só que existe algo bem mais sombrio por trás dos acontecimentos que sua irmã põe em marcha – acontecimentos que afetam Eric bem mais do que ele imagina.

Cá entre nós, Gwendolen é não apenas um porre, como uma forte candidata a vilã do ano. Ela é desnecessariamente cruel e sem qualquer tipo de escrúpulo, o quase exato oposto de Eric.

O segundo volume do quarteto – embora aqui no Brasil ele tenha sido publicado como o quarto título da série – é A Semana dos Bruxos.

A primeira coisa a se observar aqui é algo que descobrimos já no volume anterior – o mundo de Crestomanci é apenas um entre vários e a história que se descortina por trás das ações de Charles, Nan, Brian e os outros alunos da sala 6B não se passam no mesmo universo em que Eric descobre afinal porque seu apelido é Gato.

Esse mundo está cheio de bruxas só que... bruxaria é proibida e condenada com a morte. O mundo inteiro está ardendo em fogueiras e repleto de Inquisidores – e muitas das crianças que estudam em Larwood House, onde a ação se passa, são órfãs de bruxos – tiveram um ou os dois parentes queimados ou presos por ajudarem outros bruxos.

Tudo começa quando um dos professores recebe um bilhete misturado às tarefas da turma: “alguém nesta classe é um bruxo”. Tal acusação vai espiralar fora de controle com trocas de recriminações, perseguições e enorme potencial para desastre – e desastres do tipo “o mundo vai acabar” também.

Algo importante a se observar aqui é que... Charles Morgan, bruxinho de extraordinários poderes, usando óculos e possuindo um temível olhar, inspirou Neil Gaiman a criar Timothy Hunter da série Os Livros da Magia... que, por sua vez, é apontado como muitos como inspiração direta por trás da criação de Harry Potter.

Considerando que Rowling foi aluna de Jones e que existem muitos elementos da série Crestomanci que podemos encontrar em paralelo a elementos da série Harry Potter, eu diria que de uma forma geral, os livros de Jones foram uma das grandes inspirações por trás da criação de Rowling.

O volume seguinte do quarteto é Os Magos de Caprona e nesse volume a ação novamente corre no próprio mundo de Crestomanci, só que dessa vez numa Itália ainda não unificada. Caprona é uma cidade-estado, um Ducado, que vem perdendo poder e pode terminar por ser anexada por outra cidade – Florença, Pisa e Siena estão na corrida para isso.

Parte do motivo de seu declínio é a rivalidade existente entre duas famílias de magos, a Casa Montana e a Casa Petrocchi – uma rivalidade que parece ecoar aquela dos Montechio e Capuleto de Shakespeare...

Há um demônio e uma canção trazida por um anjo; um duque muito louco e teatros de marionetes. Os Magos de Caprona parece em constante ação e confesso ser ele meu favorito dessa série.

Para terminar, temos As Vidas de Christopher Chant, que deveria ser na realidade o primeiro volume, vez que ele conta a história do Crestomanci que aparece em Vida Encantada.

Por algum motivo, esse livro me fez pensar em Dickens – se Dickens tivesse escrito livros em que magos e bruxas são comuns em Londres e garotinhos podem sair pulando de um mundo para outro em sonhos, visitando deusas e gatos e virando noites para ler As Mil e Uma Noites.

De uma forma geral, a série Crestomanci é uma delícia. São histórias mais ingênuas em certos aspectos que as escritas por Rowling – que a despeito de ter vindo depois, tornou-se paradigma desse tipo de história – mas nem por isso bobinhas. Pelo contrário, ela em nenhum momento subestima a inteligência de seu leitor.

Foram traduzidos, até onde eu saiba, todos esses quatro volumes de que falei hoje e mais um, Mil Mágicas, todos em belas edições – adoro as artes da capa deles. A série completa compõe-se de seis romances e mais uma antologia de contos, todos mais que recomendados.


A Coruja


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2 comentários:

  1. Ai, estamos chegando no final do Desafio Corujesco desse ano... não li o seu livro, mas fiquei curiosa, vou colocar na minha lista de livros a ler. Eu resolvi arriscar esse mês :-) peguei um livro bem chick lit, mas dei uma sorte danada, o livro é ótimo!!!! Muito engraçado!!! Aqui a minha resenha:
    http://leiturasdelaura.blogspot.com.br/2014/10/a-taste-of-magic.html
    Mas a continuação, infelizmente, é sofrível, melhor ficar só nesse livro mesmo.
    Já vi que teremos desafio literário corujesco ano que vem! Já vou preparar a minha lista e daqui a pouco posto por aqui <3
    Beijos!

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    Respostas
    1. Já fui lá comentar o seu livro do desafio ;)

      Crestomanci é interessante, é meio que um precursor para Harry Potter. Mas da Jones, eu ainda prefiro O Castelo Animado - é um dos meus livros favoritos de todos os tempos.

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