9 de outubro de 2014

180º - Mulheres no Japão


Eu tô enrolando esse tema há algum tempo, admitidamente porque não tenho experiência pessoal com ele. Já falei com japoneses e estrangeiros que vivem mais a situação até mesmo nos seus cotidianos. Tendo dois colegas meus que estudam muito sobre isso, o tópico sempre aparece nas rodas de conversa brasileiras cedo ou tarde.

Quando falei do Valentines, mencionei sobre a diferença de salários entre homens e mulheres. Pois hoje vou abrir a boca um pouco mais sobre o assunto.

Países em desenvolvimento costumam ter algumas características em comum afora o valor de seus PIBs (Produto Interno Bruto) e o tamanho de suas dívidas externas (e internas). Um detalhe que se apresenta em muitos deles é a distribuição de trabalho entre o homem e a mulher, quer seja legal, quer seja religioso, quer seja por puro costume. No Brasil mesmo existem muitos locais em que não é incomum que o homem trabalhe e a mulher fique em casa cuidando dos filhos e das tarefas domésticas. Existe também o contrário, embora seja menos observado.

O mesmo acontece aqui. Eu não sei se é o único, mas o Japão é um dos poucos países desenvolvidos que mantém essa característica. Não me admira, na verdade, vez que é um dos raros casos de países asiáticos desse prestigiado grupo, e a diferença de cultura entre Ásia (a oriental, pelo menos) e o mundo que a maior parte de nós conhecemos (leia-se: o Ocidente) não deve ser desprezada. Apesar da globalização, a Ásia (graças a Deus) ainda mantém muita de sua essência.

Essa diferença existe tanto dentro, quanto fora do mercado de trabalho. Por exemplo, é normal - e até esperado - no Japão que as mulheres tenham certos comportamentos para serem socialmente aceitas. Quando garotas, que sejam "bonitinhas" (o termo que todos usam e que todo otaku conhece é kawaii), ajam toda envergonhadas, não se expressem muito etc. Em termos de vestimentas, por exemplo, se comparadas às mulheres da mesma idade do resto do mundo, as japonesas são bonequinhas, e as outras são candidatas a Miss Universo na fase do desfile dos biquinis. Sendo mais específica, a maior parte das meninas e mulheres procura cobrir toda a região do colo e ombros. Isso não só pela discrição, como também para proteger a pele do sol, vez que pele branca é um dos elementos de beleza daqui. Para isso, as mais novas (ensino fundamental até o universitário) costumam usar muitos babados e camadas até os joelhos.

Como eu não tenho muitas blusas com mangas (curtas ou longas), que não sejam de inverno, minha senpai frequentemente fica chocada e comenta comigo sobre meus decotes (leia-se: não cobrir ombros e/ou colo), a alça do sutiã aparecendo etc. Uma vez perguntei a ela, e ela me respondeu o seguinte: "porque os homens podem se excitar" e "tenha cuidado com homens". Isso me espantou, porque não sabia que uma alça de sutiã do tipo básico podia ter tamanho efeito. Fez-me, porém, bastante sentido: como parte do currículo de uma cadeira da Escola de Direito, visitei uma penitenciária, e, então, descobri que um grande número dos crimes cometidos no Japão é do tipo sexual. Não lembro bem a proporção, se era quase metade ou mais ou menos um terço (e, infelizmente, não acho o caderno no qual fiz as anotações), mas uma proporção significativa dos reclusos esta lá por esse motivo.


Em termos de políticas, existe uma secretaria no governo central japonês que foi criada especialmente para trabalhar projetos que diminuam a diferença entre os sexos. Isso é curioso, contudo, porque, olhando a história do Japão - e foi uma surpresa descobrir isso na aula de Direito - as mulheres tinham mais direitos aqui, há uns 150 anos e mais, do que no resto do mundo. Elas podiam herdar normalmente, ter seu próprio negócio, casar com quem quisessem (embora existisse casamento arranjado também), etc. Curiosamente, os homens também podiam casar para entrar na família, ou como herdeiros, ou como simples maridos. Isso começou a mudar quando o maldito Perry forçou a abertura do país e a ocidentalização do Japão teve início.

Sério, tudo bem que é graças a isso que estou aqui hoje, mas não sou nem um pouco fã desse tipo de afronta à soberania de um país.

Bem, continuando, atualmente, embora haja mudanças lentas, o quadro é um pouco diferente. Legalmente, elas têm os mesmos direitos trabalhistas, e a Constituição Japonesa, assim como a nossa, proíbe discriminação por sexos. Eu não sou pesquisadora do assunto, então honestamente não sei qual a fundamentação que usam para burlar essas leis, mas sei que são desviadas em vários setores.

Neste ponto, anoto que a pressão maior, contudo, é a social. Dificilmente se vê uma profissional casada e com filhos... E por profissional, refiro-me a alguém que não tenha abandonado o emprego e tenha continuado sua carreira, mesmo após o casamento ou, ainda, após ter filho(s). Das duas uma, ou segue-se a carreira e é solteira, ou casa-se e fica em casa. Não digo que não existam mães que trabalhem mais que meio-período (muitas têm assumido esse tipo de labor para ajudar nas contas de casa, desde que a crise chegou), mas seus números são bastante reduzidos.

Darei um exemplo o qual me foi passado por colegas numa conversa informal: uma amiga havia-se casado (salvo engano era brasileira), mas não pedira demissão porque queria continuar sua carreira, algo que nos é normal. Porém, pouco depois, ela recebeu emails de seu chefe os quais apontavam-na como uma desgraça e que deveria estar em casa cuidando do marido e dos (futuros) filhos. Esse caso ilustra bem o seguinte ponto: há toda uma expectativa - e, portanto, uma pressão - social para que uma mulher recém-casada ou prestes a se casar saia do emprego. De certa forma, elas são "forçadas" moralmente a fazê-lo tanto pela sociedade como um todo, como pela vizinhança, que, no Japão, têm laços muito mais fortes que no Brasil, pelo menos.


Atualmente, o que acontece aqui é um reflexo do que se observou acima: muitas mulheres não querem se casar, ou então não querem ter filhos. Uma parcela cada vez maior quer seguir carreiras, e isso tem um forte impacto na taxa de natalidade do país. Sendo isso uma grande preocupação para a administração do país, o governo tem investido em campanhas de incentivo à prole e há vários programas de auxílio para quem resolve ter filhos, inclusive para estrangeiros residentes (e trabalhadores). O que eu acho estranho é que eles só trabalham essa vertente, a de ter filhos. As ações de igualdade entre os sexos (ou gêneros, se quiser ser ir mais a fundo) estão cada vez mais diminutas.

E é nesse momento que eu quero fazer uma observação: francamente, sou contra impor os nossos modelos só porque achamos que está dando certo. Se é cultural, e se é a livre escolha das mulheres ficar em casa, eu dou total apoio. É um sistema que pode funcionar tão bem quanto ter dois pais trabalhadores. O que tem complicado é a forma como muitos dos homens tratam as mulheres. Algumas casam por pressão, ou porque acham que só terão aquela oportunidade. Mesmo antes do casamento, alguns homens tratam as moças como objetos. Depois que casam, mais ainda. Já, inclusive, ouvi relatos assustadores (para mim, aparentemente elas se conformam) sobre as atividades sexuais de dominação das esposas, ou namoradas. Isso também explica porque um número significativo de japonesas está interessado em estrangeiros, vez que muitos deles as valorizam mais que seus conterrâneos.

Vamos resumir meus pontos: eu não estou dizendo que todo japonês é um maníaco sexual, nem que nenhum japonês trata a mulher como pessoa, e nem que nenhuma japonesa trabalha e é mãe ao mesmo tempo. Minhas duas orientadoras são dois exemplos das duas situações: uma, é casada, tem uma filha e também segue uma carreira de sucesso, sendo pesquisadora e viajando meio mundo assim; a outra é solteira e já trabalhou pro Ministério do Meio Ambiente, é formada pela Escola de Direito da Universidade de Tóquio (o que é MUITA coisa aqui no Japão) etc. Não estou generalizando nada; isso seria como dizer que todo muçulmano é suicida e propenso a matar alguém de fé diferente. Aliás, antes que alguém argumente que muçulmanos são perigosos, vão conhecer alguns, sim?

Então o que eu estou dizendo? Bem, que o Japão tem um índice relativamente alto de crimes sexuais, que muitas mulheres ganham até metade do salário de um homem ocupando a mesma posição, que muitas tendem a abandonar o emprego quando casam porque há uma certa obrigação social para o fazer. Não estou dizendo que o país é retrógrado, nem que é avançado - e eu posso argumentar os dois lados, vez que também não apoio a nossa visão predominante de hostilizar o cônjuge (normalmente a mulher) que resolveu não trabalhar e ficar em casa para cuidar de filhos e tarefas domésticas. Em geral, estou citando fatos comprovados, ou relatos que ouvi. O que eu quero alertar é que, além de não se dever julgar sob nossos padrões o que acontece noutro país, deve-se ter uma visão sistemática da coisa.

Por exemplo: o que eu acho estranho é que o país confira em sua Constituição (admitidamente a que lhe foi imposta após sua ocupação em 1945), no artigo 13, o "direito de buscar sua felicidade", enquanto, simultaneamente, não permita a livre escolha, forçando uma pressão social que empurra “opções” aos membros de sua sociedade.

Isso, sim, não me desce.

Incrivelmente, eu continuo aqui. Essa é, contudo, uma das principais razões do porquê de eu não querer morar/trabalhar/viver no Japão para sempre. Como universitária estrangeira, porém, é possível escapar de vários estigmas, e, por isso, tenho aproveitado minha temporada.

Até o próximo 180º!


A Elefanta


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4 comentários:

  1. Muito interessante, Ísis (acho que seja você...). Tudo que você falou condiz bem com perspectivas de alguns sociólogos e economistas - eles dizem que práticas discriminatórias apenas se mantêm se forem socialmente aceitas. Nesse caso, a discriminação de gênero torna-se aceitável porque os japoneses, tanto homens quanto mulheres, consideram-na uma tradição e um imperativo moral da mulher. Bem, isso também não me desce, mas é parte da cultura deles e deve ser respeitada, até que eles próprios decidam mudar.

    Davi

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    1. Olá, Davi. ^^

      Ísis = A Elefanta.

      É verdade que, sendo aceita, a prática (que para nós é discriminatória) perpetua-se. Mas é por isso que eu gosto de fazer essa coluna: não apenas pelas curiosidades, mas também para mostrar, com exemplos práticos, as diferenças culturais. É virtualmente impossível não as sentir, mesmo estando preparado(a). Eu já sabia de muitos dos hábitos quando vim para cá, mas, ainda assim, vivê-los dá um certo choque. Está mudando um pouco, mas creio que levará no mínimo uma geração e meia para mudar isso socialmente. Politicamente, como há poucas mulheres (e, creio, poucos homens a favor da causa feminista), demorará ainda mais.

      De qualquer forma, obrigada pelo seu comentário. Não tenho bases na sociologia (é um grande fraco meu), mas foi muito bom ler seu comentário (de que não estou indo contra essa ciência). :D

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  2. Sei pouco sobre sociologia, mas acho este post importante, interessante. É uma faceta que poucos blogs sobre o Japão exploram, e que, contudo, deveria ser discutido.
    Mas, lá está, é uma questão cultural própria deles. E conforme tem aspectos bons, outros tem que são menos bons.
    Também não se trata de uma questão que possa ser alterada de um dia para o outro (a mentalidade está enraizada, uma vez que é uma questão de pressão por parte de família, amigos e colegas). Não acredito que o Japão seja retrógrado, só tem aspectos na forma como trata os direitos das mulheres que, como alguém que vê de fora e faz parte de uma sociedade diferente, acho que poderiam ser melhor trabalhados. Mas, é a cultura deles, a sociedade deles.
    É um assunto que daria muito para falar e discutir. Deveras interessante.

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    1. Também acho. Na verdade, temos discussões disso quase toda semana, experiências diárias e, daqui a três dias, um simpósio das NU sobre o assunto (referentes à Ásia)... Deveras grande. :D

      Obrigada pelo comentário. ^^

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