8 de julho de 2014

Desafio Corujesco: O Devorador de Sonhos

A história de 'O Devorador de Sonhos' começa com um bilhete sucinto - uma carta de Roger Bascombe, noivo de Celeste Temple, escrita em papel timbrado e entregue pela criada numa bandeja de prata, dando fim ao relacionamento dos dois. Assim, sem maiores explicações e sob o clima austero da Inglaterra vitoriana, começa o romance de estreia do dramaturgo Gordon Dahlquist.

A senhorita Temple que foi para Londres em busca de um marido, e não de aventuras, não se contenta com as explicações do bilhete e, tomada a decisão de investigar o motivo, vai parar num sinistro baile de máscaras. Este é apenas o ponto de partida de uma jornada para bem longe do mundo respeitável que Temple estava acostumada. Para a jovem, a inexplicada rejeição funciona como estopim de uma busca aflita e atordoante, capaz de colocá-la em perigo iminente.

Para se proteger, Temple contará com aliados importantes. O Cardeal Chang, homem de reputação tão baixa que foi contratado para matar um homem, se vê surpreso ao descobrir que seu alvo mascarado já foi assassinado antes mesmo de ele alcançá-lo. Ao perceber que não pode mais confiar em quem o contratou, se lança à caça de quem quer que esteja se antecipando aos seus passos. E também o Doutor Svenson, que nunca pediu para ser anfitrião de um príncipe, mas se dedica ao posto da mesma forma. Até mesmo quando o gosto do príncipe pela devassidão o põe à mercê de tipos sinistros e de um processo diabólico que tem efeitos nefastos sobre a mente humana.

O caminho destes três personagens os levará até o interior de uma propriedade em ruínas - a Mansão Harschmort. Palco de violência e libertinagem, a casa evoca as lembranças mais íntimas dos personagens de 'O Devorador de Sonhos', porque exatamente ali todos eles perderem alguém muito querido.
Como esse mês é de férias (não para mim, mas...), o tema do meu desafio corujesco é (háhá) um livro grande. É, eu sei, eu sou hilariante... Enfim, diante desse tema, escolhi tirar da minha estante as 650 páginas de O Devorador de Sonhos, que consegui através de alguma troca e que peguei mais por causa do título – que me chamou a atenção – que por saber qualquer coisa da história.

Os três primeiros capítulos apresentam cada um dos heróis da trama – a ingênua senhorita Temple, o Cardeal Chang e o médico Albert Svenson – cada qual numa linha paralela de acontecimentos que se centram em torno de uma misteriosa festa, até convergirem no Hotel Boniface e na grande intriga que pode bem resultar em dominação mundial que é o cerne de toda a história.

A primeira coisa que tenho a dizer é que toda a galeria de personagens desse livro – dos mocinhos aos vilões – é fascinante. Confesso que não gostei muito de Celeste Temple porque algumas atitudes dela me parecem forçadas e um bocado contraditórias, mas Chang e Svenson são diferentes e extremamente interessantes. Da longa galeria de vilões, você tem com que se servir à vontade: cientistas malucos, lordes depravados, condessas maquiavélicas...

A idéia da história é muito boa, com experimentos científicos em torno de uma substância e processo capazes de controlar totalmente a vontade de qualquer pessoa – o que leva a uma tentativa de golpe no melhor estilo Pink e Cérebro, com um duque irmão da Rainha Vitória pronto a assumir o Conselho de Estado, mais um príncipe de ascendência alemã que seria o primeiro passo no controle de todas as casas reais européias.

O grande problema de O Devorador de Sonhos é que ele é longo... longuíssimo. Há muita coisa que podia ter sido cortada, que podia ter sido enxuta – da forma como a coisa está, tudo acontece ao mesmo tempo, a narrativa é manobrada por uma demasia de coincidências que não apenas soam forçadas, como acabam por criar uma série de contradições.

Eu cheguei ao final do livro sem entender como depois de tudo aquilo o autor ainda precisava de mais dois volumes para continuar a história, especialmente a se considerar a forma como o livro acaba. Que mais outros conflitos à altura daquele confronto final o cara ainda conseguiria escrever???

De uma forma geral, eu gostei da idéia do livro, mas tenho a impressão de que ela perdeu o rumo em algum ponto. Existe um punhado de personagens bastante carismáticos e cheios de presença (eu realmente, REALMENTE adorei o Chang e o Svenson) e uma série de boas idéias; mas em vez de se prender a um caminho e desenvolvê-lo bem, o autor juntou tudo de uma forma tão convoluta que você acaba por se perder – você tem um romance gótico, uma aventura detetivesca, uma ficção científica, uma intriga política, uma boa dose de erotismo e de misticismo e mais um sem número de sub-gêneros soltos pelo meio.

É realmente uma pena. Uma boa revisão teria enxugado uma parte das tramas e deixaria o livro muito mais acessível. Da forma como está, contudo, ele só consegue ser extremamente cansativo...


A Coruja


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4 comentários:

  1. Que pena... puxa, ler 650 páginas e chegar à conclusão que podia ser melhor é muito triste.
    Eu escolhi para o seu desafio ler "os miseráveis", no original em francês. Confesso que estou com dificuldades... 5 tomos em um mês é dureza. Deseje-me sorte!

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    1. Realmente, Laura, haja coragem... mas você está pelo menos de férias? Eu me adiantei um pouco para conseguir dar conta desse livro, já que minhas férias só serão em setembro... Mas boa sorte! Tenho certeza que ler Os Miseráveis - e no original ainda por cima - será uma aventura digna de seu próprio romance ;)

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    2. Pois é... não estou de férias :-( minhas férias são só em agosto! Mas nada como um bom desafio para nos animar não é?

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