3 de junho de 2014

Projeto Shakespeare: Os Dois Cavalheiros de Verona

Quem é Sílvia? O que ela oculta
em si, pois tudo a exalta?
Ela é pura, bela, culta
e, como não tem falta,
qualquer moço, ao vê-la, exulta.

Será doce como é bela?
Beleza inclui doçura.
Cego, o Amor, tão logo apela
a seu olhar, se cura
e hoje habita os olhos dela.
Eu sinceramente não sei qual das duas peças do bardo me deixa mais indignada: se é essa aqui ou Bem Está O Que Bem Acaba, de que pretendo falar mês que vem para já passar a raiva toda de uma vez só...

Você começa com dois amigos, Proteus (grrrr...) e Valentino, que deixam Verona, sua cidade natal, para terminarem sua educação em Milão. Proteus deixa para trás a jovem e adorável Júlia, ao passo que Valentino encontra em sua nova morada seu próprio grande amor, a bela Sylvia.

Por motivos que a nós só cabe especular, Proteus, ao conhecer Sylvia, decide esquecer seus juramentos de amor por Júlia e sua amizade por Valentino, para cortejar (raptar e até tentar estuprar) Sylvia. Minha teoria é que era mais fácil ser um babaca com uma mulher que estava na mesma cidade que ele, em vez de esperar para voltar para a própria cidade e ser um babaca com a outra.

A explicação para o comportamento de Proteus, obviamente, é que ele é um babaca de ordem maior, sem caráter ou escrúpulo nenhum. Qual a explicação para ele ser perdoado depois por Valentino, Júlia e Sylvia é algo que não me passa pela cabeça.

Os Dois Cavalheiros de Verona é uma das primeiras peças de Shakespeare, quando ele ainda estava experimentando e tentando encontrar seu próprio estilo. A história, em si, é apenas esse troca-troca de amores e insultos, e há quem entenda o texto como uma crítica à frivolidade e superficialidade do caráter e das relações na corte. É uma forma de ver a peça por um ângulo mais favorável, embora, para ser sincera, nada me faça engolir o Proteus.

O interessante aqui, contudo, é que Os Dois Cavalheiros de Verona já traz algumas características que seriam bem marcantes no trabalho do bardo – o bando de deslocados com um discurso todo pessoal (dessa feita fazendo as vezes de Robin Hood), a mocinha que se veste de rapaz, as paixões impulsivas e, claro, o bobo.

Launce é o destaque da peça e antepassado de todos os bobos sábios de Shakespeare que roubam a cena sempre que surgem – Touchstone em Como Gostais, Feste de Noite de Reis, Bottom em Sonho de Uma Noite de Verão, o Bobo na corte de Rei Lear. Sua real afeição por seu cão, Crab rende não apenas uma das cenas mais divertidas da peça, mas também o único amor verdadeiro na peça – em contraste com os mais letrados e mais nobres personagens.

Não consigo gostar de Os Dois Cavalheiros de Verona, para ser bastante sincera, porque aos meus olhos, nenhum dos protagonistas consegue se salvar. Mas para além do fato de que faz parte do meu projeto ler todas as peças de Shakespeare, há a curiosidade de ser capaz de comparar esses primeiros trabalhos com aquilo que veio depois, enxergar como evoluiu o estilo do bardo.


A Coruja


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2 comentários:

  1. Bom, cheguei aqui seguindo uma referência a Fullmetal Alchemist no Blog do Amer... mas estou ficando pela galeria e a sessão de resenhas, deveras interessante o método de organização por autores... Visto que de quebra aprendi que Shakespeare tem mais bobos como personagens quanto eu tenho dedos na minha mão esquerda... digo que a minha experiência foi bem aproveitada...

    Até mais ver
    mr. Poneis

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    Respostas
    1. Fico feliz que tenhas encontrado nosso humilde ninho, Mr. Poneis. De fato, os bobos do senhor Shakespeare são uma galeria para lá de interessante de personagens - muitas vezes, roubando a cena completamente. Espero vê-lo por aqui mais vezes!

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Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

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