15 de maio de 2014

O Mundo Inteiro é um Palco – Parte III: “A vida é uma sombra errante...”


“A vida é uma sombra errante; um pobre comediante
que se pavoneia no breve instante que lhe reserva a cena,
para depois não ser mais ouvido.
É um conto de fadas, que nada significa.
Narrado por um idiota cheio de voz e fúria.”


- Macbeth

À sua época, Shakespeare era conhecido como um poeta do amor – para além dos sonetos, a crítica foi muito bem receptiva para O Rapto de Lucrécia e Vênus e Adônis e suas comédias eram favoritas do grande público. Hoje, por outro lado, pensamos em sua obra lembrando principalmente suas tragédias.

Foram os românticos e vitorianos que o redescobriram e para eles, as tragédias de fato tinham um grande apelo. Ainda que gregos e outros poetas clássicos deem uma dimensão introspectiva bem grande aos seus personagens, os críticos desse período reconheciam em Shakespeare e seus solilóquios o drama levado aos limites do humano.

Tal se deve ao fato de que foi ele quem primeiro se tem notícia de usar na dramaturgia o recurso dos monólogos sem inserir um personagem ou um coro que sirva de ouvinte e resposta.

A primeira peça em que Shakespeare se utiliza desse novo mecanismo é Júlio César.

Primeiro deve-se observar que por volta de 1599, período em que se acredita ter o dramaturgo trabalhado na tragédia romana, a Inglaterra estava um caos e não era uma boa época para escritores que se aventuravam a filosofar sobre política: Thomas Kyd acabou-se na tortura; a morte de Marlowe nunca foi completamente elucidada, mas a teoria de que foi ele assassinado a mando da coroa faz sentido; Ben Jonson foi preso pelo conteúdo virulento de Isle of Dogs e muitos outros tiveram problema com os censores clericais.

É nessa situação que Shakespeare escreve Júlio César. O enredo clássico que conhecemos das aulas de História está impregnado de preocupações políticas contemporâneas do dramaturgo – a dualidade de feriado religioso/político das lupercais (Ísis: ?! Lulu: É um feriado romano que celebrava a loba que supostamente alimentou Rômulo e Remo, fundadores da cidade. Lupercal vem de lupino, lobo. Ísis: E nós devíamos saber disso como?! Lulu: Bem, eu sabia, não posso me responsabilizar por você não saber... O que fazias durante as aulas de história na escola???) e entrada de César em Roma ecoam a substituição de dias de santos católicos pelas festividades pela coroação de Elizabeth; os discursos de Marco Antônio e Bruto pela monarquia e pelo tiranicídio; o brutal assassinato do poeta Cina em lugar da censura e proibições, livros queimados e escritores presos sob acusação de traição.

Ísis: Certo, e ele não foi preso/torturado/etc por quê? Ninguém percebeu as metáforas? oO

Lulu: Embora se pudesse reconhecer alguns temas, Júlio César não defende explicitamente nenhum dos pontos de vista apresentados. Marco Antônio e Brutus fazem seus discursos e a ‘plebe rude e ignara’ muda de opinião à medida que as palavras dos dois se tornam mais apaixonadas. No final, tudo acaba numa guerra civil, com o lado monarquista vitorioso. Mas Shakespeare nunca deixa de fato visível o que a peça defendia – tudo depende da interpretação de quem a está assistindo.

Aliás, só para ser metida? Eu estou com o ingresso comprado para assistir Júlio César em setembro no Globe. Há!

Sobretudo há a campanha do Conde de Essex na Irlanda católica. Essex que começa como um favorito da Rainha, mas acaba perdendo a cabeça por ser carismático e apressado demais...

Mas a despeito de enriquecermos nossa leitura com todas essas toneladas de contexto histórico, não é isso que realmente importa, não é por isso que lemos Shakespeare – não quando Brutus levanta-se no palco e tenta encontrar na própria consciência os motivos para matar César, a quem amava como um filho.

Não quando suspendemos o fôlego junto com a multidão de romanos frente aos discursos de Bruto e de Marco Antônio, acusando as ambições ou declamando as virtudes do general. Ou quando o próprio César retorna como espectro às vésperas da batalha para assombrar o homem que o traiu.

Se fosse apenas pelos fatos e curiosidades históricas, Shakespeare não passaria de uma nota de rodapé em teses acadêmicas – ou talvez sequer tivesse sobrevivido ao teste do tempo, que obliterou quase a totalidade das peças de seus contemporâneos. Não foi por isso que os românticos, no século XIX, resgataram-no do esquecimento.

Lemos Shakespeare porque ele retratou de uma forma como poucos artistas conseguiram as angústias de nossa própria existência. Suas tragédias não apenas nos levam às lágrimas: elas ressoam em nós mesmos, em nossa essência.

Hamlet tem a frase mais simples e paradoxalmente mais complexa e mais lembrada de toda a literatura inglesa: “to be or not to be”, ser ou não ser, eis a grande questão. Sua primeira versão manuscrita é muito provavelmente do mesmo ano de Júlio César e aqui o recurso do monólogo introspectivo é levado às últimas consequências.

Quem haverá de se comparar ao Príncipe da Dinamarca na angústia da dúvida, na tentativa de entender sua própria posição, seu propósito neste mundo?

Exceto por Tito Andrônico, sua primeira tragédia - que é um tal banho de sangue que se diz algumas montagens do espetáculo deixavam uma ambulância do lado de fora para atender quem da plateia passasse mal, - e da paixão adolescente fulminante de Romeu e Julieta, todos os outros dramas trágicos de Shakespeare trabalham com a dúvida, com medo e expectativas.

É a dúvida sobre as intenções de César que leva Bruto a se unir aos outros senadores na grande conspiração. É a dúvida que permite Iago plantar a semente do ciúme na mente de Otelo. As expectativas de Lear o induzem a tramar o tolo desafio entre as filhas que o levará à própria ruína. O medo é um combustível tão poderoso quanto a ambição para Macbeth e sua esposa. Cleópatra brinca com as esperanças de Antônio e Antônio ignora as expectativas de Augusto.

E todas essas dúvidas são apresentadas ao público em longos solilóquios, permitindo-nos vislumbres do âmago dos personagens, suas motivações, suas dores, até que chegue o momento da catarse final: Lear ensandecido sobre o corpo de Cordélia, Hamlet à morte implorando a Horácio que conte sua história, o silêncio de Iago perante as consequências de suas mentiras.

De onde teria vindo a idéia de introduzir esses momentos privados, esses mergulhos na psiquê dos personagens?

É por volta de 1600 que um novo gênero literário é introduzido na Inglaterra: os ensaios. O pioneiro do gênero é o francês Montaigne e seu livro de ensaios foi traduzido pela primeira vez do outro lado do Canal da Mancha em 1603. Mesmo antes disso, alguns escritores ingleses já começavam a utilizar a estrutura literária dos ensaios.

Não é irrazoável crer que Shakespeare tenha tido acesso à obra de Montaigne mesmo antes dela ser traduzida – como já dito antes, ele teve uma educação clássica, com gramática latina e grega e provavelmente também teve contato com o francês e o italiano. Mas mesmo que ele não tenha lido Montaigne antes de atacar Júlio César em 1599, havia outros autores para apresentá-lo ao gênero.

O fato é que os ensaios têm uma grande similaridade com a estrutura dos famosos solilóquios e as datas também batem, de forma que muitos críticos concordam com essa correlação. Do meu ponto de vista, é uma teoria que faz bastante sentido, especialmente a se considerar que Shakespeare era um canibal no melhor estilo ‘Manifesto Antropofágico’.

Ísis: So, he was a bookworm? oO

Lulu: Considerando as referências existentes em suas peças, parte-se do pressuposto de que sim.

Ao mesmo tempo em que somos convidados à intimidade dos pensamentos de cada um desses personagens, existe uma ausência de julgamentos morais. Shakespeare não se interessa em discorrer sobre o bem e o mal – aí estão Lear, que trama o próprio aniquilamento por ser incapaz de se satisfazer com o amor e respeito que lhe devotam; Cleópatra com sua carga manipulativa é ainda mais digna que o próprio Augusto; e, antes de todos, Brutus, que pode ser visto como assassino ou como libertador, a depender do discurso.

Goethe talvez seja quem melhor resumiu o real interesse do bardo: para o poeta alemão, as peças de Shakespeare giram em torno do ponto em que colide o nosso livre-arbítrio com o curso inevitável do todo.

A história em que essa incapacidade de resguardar a própria liberdade perante um caminho predestinado se torna mais clara é Macbeth. O destino que lhe é previsto pelas bruxas usurpa-lhe a própria vontade. A grande questão da peça é se Macbeth teria matado Duncan caso não lhe tivesse sido dito que ele se tornaria rei ou se ele se tornaria um assassino independente das palavras das bruxas.

Ísis: Esse tipo de questão aparece muito em histórias em que o futuro é previsto – se saber altera ou não o resultado, aka, se é possível mudar o destino, quer no sentido geral, quer seja o seu próprio.

O que fica de tudo isso, ao final, é que Shakespeare encontrou uma nova forma de fazer teatro. Suas tragédias são hoje mais conhecidas até que os dramas gregos – que afinal inventaram a arte. Desafio encontrar alguém na rua que saiba de cor ao menos uma frase de Sofócles. Tente, no entanto, pedir para que ele recite qualquer coisa de uma peça e aposto que a primeira passagem de que ele se lembrará será o “ser ou não ser, eis a questão”. E talvez seja difícil achar alguém que tenha ouvido falar de Antígona (Édipo não vale, que a culpa é do Freud), mas dou minha mão à palmatória se 99,9% dos entrevistados não souber quem é Romeu e Julieta.

Ísis: Certo, então, antes de Shakespeare, as peças de teatro eram “supérfluas”? Tipo, se ele é “humano”, quer dizer que mais ninguém conseguia trabalhar isso?

Lulu: No teatro clássico grego – que foi onde tudo começou – não existiam esses solilóquios introspectivos a revelar o âmago dos personagens: era o coro quem cantava a consciência do herói. Para além disso, praticamente todas as peças gregas que sobreviveram e chegaram até nós se fundamentam fortemente no fato de que os deuses convivem com os mortais e influenciam em suas vidas. Os personagens, em sua maioria, são joguetes dos deuses e do destino.

Com a evolução do teatro, o foco sai dessa manipulação divina dos seres mortais e vai para o homem, pura e simplesmente. Só que - mais uma vez -, até Shakespeare colocar os solilóquios que revelam os pensamentos e anseios mais profundos de seus personagens, esse tipo de vislumbre só aparecia em diálogos que quando não são forçados, são incompletos.

A natureza humana é o centro do mundo no teatro shakesperiano e ela é revelada em todas as suas nuances. É por isso que mais de um críticos diz que Shakespeare “inventou o humano”: porque, no teatro, foi ele quem conseguiu, com mais naturalidade, nos dar essa visão da essência de cada personagem.

Shakespeare é universal e humano em praticamente tudo o que compôs, mas em suas tragédias somos levados a novos limites – ou, talvez, ao ilimitado, tendo resistido, atual e grandioso, a quatrocentos anos de interpretações.

Para ler mais...

Tito Andrônico
Romeu e Julieta
Julio Cesar
Hamlet
Otelo
Rei Lear
Timão de Atenas
Macbeth
Antônio e Cleópatra
Coriolanus

(Continua com os Dramas Históricos...)


A Coruja


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