27 de maio de 2014

Clube do Livro (Maio): O Médico e o Monstro

A cada dia, e de ambos os lados da minha inteligência - o moral e o intelectual -, eu chegava cada vez mais próximo daquela verdade cuja descoberta parcial tinha-me condenado a um terrível fim: o de que o homem não é apenas um, mas sim dois. E eu arrisco a suposição de que, ao final, o homem será sempre multifacetado, incongruente e independente de vários alienígenas que nele fixam residência.

Foi a partir de meu lado moral, e em meu próprio ser, que aprendi a reconhecer a completa e primitiva dualidade do homem. Percebi que, das duas naturezas que contendiam no campo da minha consciência, mesmo se eu pudesse ser corretamente reconhecido como uma delas, isso somente seria possível porque eu era radicalmente ambas. E, já cedo, antes mesmo que o rumo de minhas descobertas científicas tivesse sugerido a mais remota possibilidade de tal milagre, eu já me percebia sonhando, prazerosamente, com a separação desses elementos. Se cada um deles pudesse, dizia a mim mesmo, ao menos localizar-se numa identidade diferente, seria possível aliviar a vida de tudo o que era insuportável. O injusto tomaria seu próprio rumo, livre das aspirações e remorsos de seu gêmeo opressor, e o justo poderia andar com firmeza e segurança em seu caminho ascendente, fazendo coisas boas nas quais encontra seu prazer e não mais se expondo à desgraça e à penitência pelas mãos desse estranho mal.

A maldição do gênero humano foi a de que esses ramos incompatíveis ficassem fortemente amarrados um ao outro - que esses gêmeos polares vivessem em luta contínua no angustiado útero da consciência. Como, então, dissociá-los?
Esse mês no Clube do Livro debatemos um clássico da literatura do horror: o estranho caso do Dr. Jekyll e Mr. Hyde. E a primeira coisa que me dei conta quando comecei a ler é que... eu não o tinha lido antes. A questão é que a história de Dr. Jekyll e Mr. Hyde está tão inserida no imaginário popular que eu sabia a história e por saber a história, tinha a impressão de já ter lido o livro.

As peças que nossa mente nos prega...

A base de O Médico e o Monstro representa um dos meus maiores medos: a idéia de perder a própria personalidade, anular-se completamente. Claro que fora da ficção esse terror não se deve a um misterioso elixir, mas a doenças como Alzheimer, que tem como sintomas desde a perda da memória até a mudança de personalidade tornada mais violenta (e não avancemos para o momento em que a mente se torna um quarto vazio e um corpo desocupado).

Não sei se é possível que Stevenson tenha se inspirado em algum caso de demência para criar seus personagens, ou se a dualidade de Jekyll e Hyde é uma referência direta à dualidade moral humana, mas o fato é que a história é suficientemente aberta para fazermos uma série de interpretações.

Como, por exemplo, a possibilidade de ser Jekyll homossexual - que é uma interpretação inteiramente possível e bastante crível para uma obra do período vitoriano.

Quando escrevi o especial sobre Sherlock Holmes para o Coruja, acabei por ler um bocado sobre homossexualidade no período vitoriano, incluindo subtexto e códigos lingüisticos. Minha conclusão é que nunca houve um período tão tristemente hipócrita quanto esse. A sociedade vitoriana era obecada por questões de moralidade e sexo - sério, eles tinham de ter toalhas que cobrissem as mesas até o chão porque não era considerado de bom-tom que as pernas da mesa ficassem à vista ou isso faria as pessoas pensarem em sexo.

A suspeita de que alguma indiscrição de Jekyll o teria deixado a mercê de Mr. Hyde é a primeira hipótese de Mr. Utterson para justificar a existência do testamento. Considerando que Stevenson publicou seu livro em 1886 - e um ano antes, o Parlamento aprovou a Labouchere Amendment, que transformava em crime toda e qualquer atividade imoral ocorrida entre homens, ainda que intercurso não pudesse ser provado, é uma possibilidade. Essa lei, aliás, foi a base da condenação de Oscar Wilde. Curiosamente, o crime ocorria apenas se o casal em questão fosse do sexo masculino.

Agora, sobre a questão da aparência - de princípio me fez lembrar Lombroso, mas eu não acho que seja de fato a aparência de Hyde que cause repulsa nas pessoas, mesmo porque as descrições que são feitas dele são muito vagas. A fisiognomia vai muito pela descrição da face - tamanho do crânio e das orelhas são duas coisas de que me lembro das aulas de direito penal. Minha impressão é que a maldade de Hyde é algo como um... pólo magnético, que acaba por repelir as outras pessoas. Não se trata simplesmente de circunstâncias físicas, mas de algo mais espiritual.

O que é hilariante é que a narrativa de Stevenson chegou a ser usada como exemplo em sermões religiosos do que acontece quando você 'se desvia do bom caminho'. Li um ou dois relatos sobre o assunto, que fazem questão de sublinhar o detalhe de que Stevenson teria rompido com o pai ainda na juventude por conta da religião e não se filiava a algum igreja. Minha interpretação é exatamente o contrário da feita pelos pastores da época: O Médico e o Monstro demonstra o risco de reprimir completamente seus próprios instintos (Jekyll observa que precisou reprimir sua natureza 'alegre' da juventude); é uma crítica à moralidade vitoriana.

A Coruja


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