1 de abril de 2014

Projeto Shakespeare: Hamlet

Ser ou não ser - eis a questão.
Será mais nobre sofrer na alma
Pedradas e flechadas do destino feroz
Ou pegar em armas contra o mar de angústias -
E combatendo-o, dar-lhe fim? Morrer, dormir;
Só isso. E com o sono - dizem - extinguir
Dores do coração e as mil mazelas naturais
A que a carne é sujeita; eis uma consumação
Ardentemente desejável. Morrer - dormir -
Dormir! Talvez sonhar. Aí está o obstáculo!
Os sonhos que hão de vir no sono da morte
Quando tivermos escapado ao tumulto vital
Nos obrigam a hesitar: e é essa reflexão
Que dá à desventura uma vida tão longa.
Como já tinha dito antes, nas resoluções de ano novo, aproveitando que esse mês comemoramos 450 anos do nascimento de Shakespeare e já no embalo para o especial de aniversário do Coruja, vamos falar de Hamlet, talvez a mais importante e discutida das peças do bardo.

Todo mundo sabe do que se trata a história de Hamlet, ‘há algo podre na Dinamarca’ e ‘há mais coisas entre o céu e a terra, Horácio, do que sonha a nossa vã filosofia’. Desafio encontrar alguém que não saiba completar o “Ser ou Não Ser” com o "eis a questão" – o mais famoso de todos os solilóquios dramáticos.

Se você não sabe, provavelmente nasceu e viveu sempre debaixo de uma pedra nalguma caverna perdida no meio do Tibete. Mas, enfim, de todo jeito, lá vai o resumo da história...

Hamlet é o príncipe da Dinamarca. Seu pai morreu recentemente, sua mãe se casou com seu tio e tudo parece indo razoavelmente bem a despeito das perdas recentes quando Hamlet encontra-se com o fantasma de seu pai.

O fantasma demanda do filho vingança, revelando que o próprio irmão foi quem o assassinou, para então se casar com a rainha e tomar o trono para si. Hamlet então concatena um plano absurdo e dramático para expor o tio – um plano que o fará passar por insano e trás morte e desgraça para todos.

Hamlet é rico em possibilidades de interpretação do texto original. De uma forma ou de outra, nada é preto no branco, tudo está imerso em sombras, confuso demais para que você possa ter certeza de alguma coisa.

Os personagens são ambíguos – nenhum mais que o próprio protagonista. Hamlet é intenso, atordoante. Ele é um filósofo, mas é também uma criança – embora a certa altura da peça se diga que ele vai pela casa dos trinta, em boa parte do tempo em age como um adolescente perdido, com variações de humor atordoantes e um ligeiro complexo de Édipo.

O interessante é que Hamlet parece estranhamente relutante em agir para consolidar sua vingança – e quanto mais ele reluta, mais ela o amarra, mais gente acaba sendo afetada por seus atos.

Enquanto Hamlet finge estar louco, suas ações acabam por enlouquecer Ofélia, filha do conselheiro real Polônio e seu antigo interesse amoroso – ao ponto em que a moça acaba por se afogar (suicídio ou ela realmente não tinha consciência dos fatos? Eis a questão...). Antes disso, por engano, o príncipe matou o dito conselheiro. Depois, desviando-se de uma maquinação do tio, matou dois de seus amigos. Por fim, arrastou consigo em seu fim o irmão de Ofélia, Laertes; a própria mãe e, finalmente, o tio.

E teria levado Horácio também, simplesmente por espírito de lealdade, se antes de dar seu suspiro final não tivesse feito o amigo prometer que justificaria o comportamento de Hamlet até aquele ponto. Esse fato, aliás, me faz pensar em quem era o príncipe antes da morte do pai – a lealdade de Horácio e a paixão de Ofélia falam muito sobre o carisma de Hamlet para além de seus altos e baixos pós-fantasma.

Hamlet é uma peça incrivelmente complexa, e por isso mesmo tão mais catártica. É uma história que assistimos com o fôlego suspenso, dolorosamente conscientes da tragédia que se segue. Para um ator, representar o príncipe da Dinamarca é ascender ao Olimpo, para os críticos, o texto é o mais próximo que chegaram do divino, para os leitores comuns como você e eu, é uma obra-prima que nunca se esgota, um deleite a cada nova leitura.


A Coruja


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3 comentários:

  1. Meu Deus! Eu nasci e vivi debaixo de uma pedra nalguma caverna perdida no meio do Tibete e nao sabia! O.o"

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    1. Eu estava pensando do ponto de vista de completar o "ser ou não ser" com "eis a questão", não o monólogo inteiro XD Comi uma letra na digitação e acabei mudando o sentido da frase... Corrigido agora.

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    2. Meu orgulho de "leitora dedicada" quase foi morto aqui. x.x"

      Fiquei com vontade de comprar esse livro, parece muito interessante! Obrigada pelo blog!

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