15 de abril de 2014

Desafio Corujesco: O Atentado

Amin, cirurgião israelense de origem palestina, sempre se recusou a tomar partido nos conflitos que opõem seu povo de origem a seu povo de adoção e dedicou-se integralmente a seu trabalho e à esposa, que ama apaixonadamente. Até que um dia um kamikase se faz explodir dentro de um restaurante em Tel-Aviv e Amin é obrigado a reconhecer o corpo mutilado da bela Sihem, sua mulher, acusada de ser a mulher-bomba, a protagonista daquele cruel atentado suicida. Uma cena comum nesta guerra, mas que revira o destino de Amin.Sentindo-se duplamente traído, ele começará uma investigação que o conduzirá ao coração do inferno e o colocará frente a uma situação que ele se recusava a enfrentar após tantos anos de vida na neutralidade.
Esse livro me foi indicado e emprestado por dois colegas e amigos do escritório e imediatamente me pescou a atenção – não apenas por ter sido uma recomendação de pessoas que me conhecem e sabem um pouco do meu gosto literário, mas também pelo tema.

A história é contada em primeira pessoa pelo médico cirurgião Amin, um palestino naturalizado israelense cuja esposa, logo ao início da narrativa, se faz explodir num restaurante em Tel-Aviv. Amin é incapaz de entender o que levou à mulher àquele ponto, incapaz de compreender como isso pudesse acontecer sem que ele tivesse a menor idéia do que ia pelo íntimo da pessoa com quem convivia.

A história toda, a partir do atentado do título é a tentativa desesperada e quase suicida de Amin de entender. A vida inteira, ele evitara participar dos conflitos que contrapunham o povo entre o qual ele nascera e aquele entre o qual escolhera viver. Ele não se considerava particularmente religioso, e tampouco era a mulher alguma fundamentalista: ser médico, salvar vidas era sua profissão de fé, uma vocação que o impedira de harmonizar-se com qualquer idéia de terrorismo.

O Atentado é angustiante em seu retrato da realidade do conflito entre israelenses e palestinos – do preconceito, do ódio, da revolta. Angustiante não apenas porque extremamente autêntico, mas porque de um lado e de outro, não há forma fácil de fazer escolhas; de estabelecer aquele que tem razão, de justificar as atitudes de cada lado.

É uma história diferente porque não aborda simplesmente a visão do terrorista ou das vítimas, mas daqueles que ficaram para trás, da família dos supostos vilões, que então têm de arcar com a recriminação e com a tentativa de entender aquilo e de encontrar um novo lugar para si no mundo, numa sociedade que o rejeita não por suas atitudes, mas pelas atitudes daquele outro.

É um livro que desperta muitas reflexões, especialmente por seu final vazio de significado, trágico – passei uns dois dias remoendo a história, tentando digerir tudo o que tinha acontecido e tentando encontrar uma lógica em tudo o que acontecera, mas o problema – que é exatamente o que, penso eu, o autor quer colocar – é que não existe lógica. Você tem o preconceito e as humilhações que se originam do medo, que então geram ódio e mais preconceito e ações que alimentam o medo, que termina em mais ódio, mais sangue, mais medo, num ciclo que nenhuma das partes é capaz de se libertar.


A Coruja


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