10 de abril de 2014

180º - Calendário

Oi, mais uma vez! m(_ _)m

E no estilo japonês de fazer negócios (ou não, depende do ponto de vista...), vou direto ao objetivo: hoje eu resolvi abordar o tema que mencionei da outra vez, sobre o schedule nipônico. Isso porque há alguns itens verdadeiros, e outros falsos, na nossa vã filosofia sobre os japoneses workaholics.

Vamos começar com um pedaço de informação do qual muita gente tem posse: que os japoneses trabalham muito. Bem mais que nós, brasileiros, por exemplo. A verdade é bem próxima disso, mas alguns pontos merecem maior esclarecimento. Vou fazer um comparativo com o panorama brasileiro. De acordo com a legislatura trabalhista no Brasil (ou, pelo menos, da última vez que a estudei), excluindo-se horas extras e horário noturno etc, a jornada de trabalho diária do trabalhador brasileiro é de 8 horas diárias e 44 horas semanais. A maior parte dos estabelecimentos comerciais funciona das 7 horas da manhã até umas 8 da noite, pelo menos (que eu saiba, ou, no mínimo, é assim que eu mais observo onde eu moro); excluem-se bancos, correios, restaurantes e shoppings, por exemplo.

Por outro lado, o horário médio de abrir as portas dos estabelecimentos aqui é por volta das 9, embora tenha MUITA gente no metrô (principal meio de locomoção nas grandes cidades) e trens já às 7 da manhã ou mesmo antes (tanto trabalhadores, quanto estudantes). Já o de encerramento é por volta das 5-6, embora haja várias exceções, incluindo as nossas acima citadas (bancos, correios, restaurantes e shoppings, por exemplo), além de grandes áreas destinadas a compras (equivalem aos nossos shoppings, já que não existem tantos no Japão como há no Brasil, por exemplo). Só com essa informação, parece que nós trabalharíamos mais.

Mas é aqui que o espírito trabalhador japonês entra em jogo. Pra começo de conversa, só porque o estabelecimento fechou portas, não quer dizer que os trabalhadores vão para casa. Muitas vezes, saem para beber juntos depois de fecharem e organizarem a casa – e, sim, isso é parte da relação de trabalho. Os japoneses, em princípio, não são muito chegados a se expressarem – e isso é reforçado até mesmo no sistema educacional – o que faz com que muitos (MUITOS MESMO) dos estrangeiros aqui nessas terras considerem-nos falsos.

Pequena pausa para explicar isso: para nós, é difícil acostumar com as máscaras que eles usam sempre, e a entendê-los. Mas os japoneses são muito bons em ler nas entrelinhas, justamente por causa desse costume, então, para eles, comunicação não é tão dificultada. Entretanto, fazer isso cansa, quer seja costume ou não, então sair para beber aqui é muito comum, tanto para se divertir, quando para socializar, quanto para trabalhar. E a genética asiática aparentemente é extremamente fraca contra o álcool (algo do tipo “não ter a enzima que transforma álcool em açúcar”, ou assim me explicaram essa semana mesmo), o que os fazem extremamente susceptíveis à influência etílica. Em outras palavras, a bebida é usada para jogar fora essa máscara e conversar “de verdade”, ou simplesmente para fazer amigos, por exemplo.

Mesmo quem não gosta de beber, acaba sendo induzido a participar, sob o risco de ser considerado antissocial, ou coisa parecida, e complicar-se em seu ambiente de trabalho. O mesmo clima rola nos clubes universitários. É a primeira atividade do clube: marcar o nomikai de inauguração, onde eles embebedam os novos membros (e os mais velhos também) para conversarem e se conhecerem.

Graças a todas as forças poderosas que comandam o universo, eu vim para o Japão numa época em que eles não pressionam – pelo menos não na universidade – os que não gostam de beber a beberem. A gente pode pedir suco ou chá, ou seja lá o que for, e ninguém esfola a gente. ^^

Voltando ao ponto. Fora isso, muitos trabalham o sábado todo também. Falei com minha senpai sobre isso, e ela comentou que o marido dela, por exemplo, levanta umas 5 da manhã e só volta às 10 da noite, há uns 20+ anos (acho que ela disse 30, mas não lembro bem). Trabalhava de segunda a domingo (parece que agora só de segunda a sábado). Ela também mencionou que, em muitos casos, mesmo no domingo, boa parte dos japoneses que trabalham não sabe o que fazer e fica em casa lendo jornal ou trabalhando mesmo.

E olha que o Japão é cheio de parques (naturais e de diversões), game centers (dos quais já falei antes) etc. O problema é que diversão é um certo tabu por aqui. Sim, eu mencionei que nos arcades também se vê trabalhadores assalariados, mas, muitos deles estão jogando pachinko (pense em caça-níqueis, estilo Japão) ou são jovens recentemente aparentemente empregados. Isso não significa, contudo, que não haja trabalhadores veteranos por ali, mas a proporção é definitivamente menor. Em geral, ser visto se divertindo (e eu não entendo como é que ser visto bebendo por aí aparentemente não entra nessa lista) é interpretado como “vagabundagem”, ou seja, alguém que não trabalha, portanto não contribui e, portanto, está indo contra a coletividade.

É importantíssimo frisar que o conceito de “coletividade” é central na cultura e na sociedade japonesa.

Isso não quer dizer que não tenha gente se divertindo, mas numa sociedade estratificada como essa, é relativamente fácil saber quem vai para onde. Por exemplo, boliche é uma diversão bastante comum por aqui. Já vi grupos de trabalhadores e de amigos, desde estudantes a aposentados. Nos cinemas, apenas amigos e famílias. A principal atividade em família é sair para algum restaurante, ou para parques nos feriados (é mais comum ver as mães levando as crianças aos parques, não a família toda).

Em resumo, os brasileiros (na verdade, a população das nações em desenvolvimento, em geral) acabam trabalhando menos que os japoneses por conta das atividades extras que estes últimos têm... E porque a cultura do Japão é baseada na construção do coletivo, ou seja, cada um tem que fazer a sua parte. Os brasileiros, por outro lado, trabalham muito, mas, em geral, é por sobrevivência.

Afora isso, o calendário anual brasileiro tem inúmeros feriados (1º de maio, Tiradentes, dia do padroeiro do estado e também o da cidade, Natal, Sete de Setembro etc), mas, no Japão, esse número não é tão grande. Há três “grandes feriados”: o Ano Novo, o Golden week (sim, é em inglês mesmo) e o Obon. O primeiro é o mais importante, equivale ao nosso Natal, por ser uma época de juntar a família (ou seja, voltar pra casa dos ascendentes), e dura três dias: metade de 31 de dezembro até 3 de janeiro. O segundo equivaleria ao nosso Carnaval, por ser quase uma semana inteira de feriados (consecutivos) e durante a qual muitos viajam (sério, é impossível ir a qualquer lugar nessa época sem experimentar calor humano intenso, de tão cheio de gente). É nessa semana que se comemora o aniversário do imperador anterior (Shouwa), o dia da Constituição, o dia do Verde e o dia das crianças. Por fim, o Obon, que é em geral comemorado no meio de agosto (durando também três dias), é um feriado espiritual, razão pela qual eu o considero equivalente à nossa Páscoa/semana santa. É o feriado dos mortos, o dia em que se vai aos cemitérios e se reza pelos falecidos amigos e familiares. Há inclusive festivais para tanto.

Tirando esses feriados e um ou outro ao longo do ano (tipo o dia do mar, em julho), quase ninguém tira férias. Não que seja proibido – a legislação permite de 10 a 20 dias por ano de férias, a depender do tempo de serviço – mas como aparentemente não há fiscalização nesse sentido (ou assim me disse outra senpai formada em direito), é uma faculdade do trabalhador. Só que quase ninguém tira férias, e, quando o fazem, não chega a uma semana. O motivo é simples e, de novo, volta-se para o pensamento da coletividade: quando um membro do grupo, falta, vira meiwaku (pode ser traduzido como “problema”) para os outros.

No Brasil, é garantido a cada trabalhador 30 dias de férias por ano (podendo ser deduzidas daqui as faltas injustificadas), dos quais 1/3 pode ser “vendida” ao empregador, mas os outros 2/3 precisam ser tirados – e o Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) cai em cima se não for cumprido. Admitidamente, ainda existe trabalho escravo no Brasil, assim como empresas (ou chefes) que não cumprem essa lei, ou trabalhadores que têm medo de exigir férias. EM geral, porém, esse direito é mais usufruído no Brasil que no Japão. Afora que o brasileiro tem menos objeções em procurar a Justiça para resolver qualquer afronta a seus direitos (não só trabalhista). Já, no Japão, embora esteja mudando agora, os casos que vão ao Judiciário constituem-se primordialmente (pelo menos 40%) em contratos entre empresas; tanto é que não existe Justiça do Trabalho ou outras especializadas afora a Justiça de Família – os casos vão para um juiz civil ou criminal.

Outra forma de se olhar esse calendário anual é comparando os calendários escolares, por exemplo. Para começar, o ano letivo inicia e termina em momentos diferentes: no Brasil, é de fevereiro até o começo de dezembro, enquanto, no Japão, é de abril (quando desabrocham as cerejeiras) até o meio de março. Só aí, já há quase dois meses de diferença. Quanto às férias de verão, para nós, normalmente são mais dois meses: do começo ou meio de junho até começo de agosto, enquanto que, no Japão, apenas agosto (porque agosto no Japão é o inferno sobre a Terra! >.<). Os três grandes feriados (e os esparsos) que mencionei antes também contam como feriados escolares. Em resumo, sim, você leu certo: em outras palavras, as kodomo (crianças) estão em aula quase que o ano todo. Graças aos céus, não estudei aqui do elemental ao médio...

Além disso, até algum tempo atrás, sábado era um dia escolar quase como qualquer outro (era só um pouco mais curto), mas uma reforma educacional eliminou-o do ano letivo, embora algumas escolas tenham obtido autorização para continuar – e outras recentemente estão requerendo tal licença. Em geral, atualmente sábado é um dia para os clubes escolares, assim como o horário da tarde de segunda à sexta. Durante a semana, as aulas vão (em média) das 8:45 até umas 15:00, e depois disso quem tem clubes vai participar das atividades dos mesmos (que podem durar duas ou mais horas, provavelmente todo dia). Esses clubes eram mandatórios, mas atualmente não o são, embora boa parte dos alunos participe de pelo menos um deles. Além de treinar o corpo (no caso dos clubes de esporte) e/ou o espírito (nos culturais), eles também servem para treinar os alunos nas relações de hierarquia entre kouhai e senpai, algo que lhes será vital à medida que crescerem, principalmente no trabalho. Finalmente, como eu mencionei antes, também servem para socializar – inclusive a maioria organiza viagens em grupo (somente os membros do respectivo clube) para tanto (e para treinamentos intensivos).

Vou confessar que estou doida para me juntar a algum círculo esse ano, e viver essa experiência. (Na universidade há clubes e círculos, sendo o segundo menos exigente quanto à presença.)

E, para finalizar, vou comentar algo que me deixou verdadeiramente boquiaberta: os hospitais. Aliás, vou salientar que estou pressupondo que estes funcionem do mesmo jeito que o que eu uso, que fica perto daqui – o da Cruz Vermelha, um dos melhores de Nagoya. Admitidamente os hospitais não são tão caros, devido ao sistema de seguro de saúde público, que é mandatório, embora clínicas ainda sejam mais baratas. Eles são limpos, e o paciente é atendido com educação, mas, conforme já me disseram, nem sempre com atenção. Uma amiga minha (que VIVE batendo no hospital, é impressionante!) já comentou várias vezes que o médico da vez mal a examinava... e ela não foi a única. Felizmente, eu não tive esse problema (OBRIGADA, forças do universo! \o/). É importante notar, contudo, que a espera para o atendimento é, sim, demorada, até mesmo na emergência (para esse eu tenho experiência e testemunhos).

Não estou dizendo não tem jeito e que atendimento médico tem mesmo que ser demorado. Só estou dizendo que, quando os críticos do sistema de saúde do Brasil compararem com os de países desenvolvidos, como o Japão, o qual tem um dos melhores sistemas de saúde do mundo, não acreditem imediatamente que funciona tudo às mil maravilhas.

Chegando ao assunto dessa edição: até mesmo o hospital fecha bem cedinho (umas quatro horas já está encerrando, além de só aceitar pacientes para consulta de manhã). Fora desse horário é considerado emergência, e – adivinhe! – existe uma cobrança extra por isso. Como se a gente escolhesse que horas passar mal... >.>

Essa, eu preciso admitir, não consegui engolir. Na maior parte das coisas/situações diferentes que eu noto/encaro, procuro aprender mais sobre e entender. O resultado é que, normalmente, mesmo que eu discorde, posso perfeitamente entender a motivação e respeitar. Entretanto, essa é uma das poucas situações que não me desceram... >.>

Pelo menos, eles não discriminam os estrangeiros.

Então, vou encerrar por aqui porque o meu calendário está totalmente preenchido pela Rainha. Essa louca tá jogando tanta coisa na nossa lista de tarefas que eu não tenho tempo de respirar. TRABALHO ESCRAVO... OU TRABALHO JAPONÊS, eu digo!!!!
*foge antes que a Rainha mande cortar a cabeça


A Elefanta



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