18 de fevereiro de 2014

Para ler: Ferragus – O Chefe dos Devoradores

Uma mulher, generosa e bela como um anjo, suspeita de adultério; um jovem oficial que se lança na mais vã e desastrada das investigações; um agente de câmbio perdido nos tormentos da paixão; uma soma de dinheiro que ninguém explica; uma sociedade secreta (Os Treze) cujos membros se protegem para usufruir do poder ao seu ao seu bel-prazer; duelos, assassinatos, suicídios; e de pano de fundo, como gigantesco e febril teatro de todas as paixões, a cidade de Paris nos incandescentes anos da restauração da monarquia.
Esse é um dos volumes que estava há mais tempo à espera na minha estante e não sei porque razão demorei tanto... acho que isso ocorreu pelo fato de que (1) eu estava com um pé atrás com o Balzac depois de ler Pele de Onagro, e (2) ele é um livro pequeno tipo pocket que acaba se perdendo no meio de tantos outros na estante...

Mas, enfim... quando viajei no ano passado, esse foi um dos volumes que levei na mala para matar tempo no aeroporto... Estava decidida a lê-lo de qualquer jeito, até porque ele fora um presente da Régis, que tem um gosto literário muito parecido com o meu, e eu tinha uma curiosidade de longa data com Balzac. Um primeiro contato que me deixara escaldada não deveria me impedir de explorar um pouco mais...

Eu não me arrependo de ter demorado tanto tempo para ler porque isso me ajudou a deixar de lado o fato de não ter gostado do estilo do Balzac num primeiro contato. Acredito que Pele de Onagro tenha sido um dos primeiros romances do francês, quando ele ainda estava experimentando seu estilo (o fato de que não consegui simpatizar com o protagonista também não ajudou).

Ferragus – O Chefe dos Devoradores foi uma leitura bem mais agradável. Sociedades secretas, conspirações, vilões maléficos, mocinhas sublimes, amores proibidos... o que há para não se gostar num livro com todos esses motivos?

Temos um nobre protagonista, Auguste de Maulincour, que é profundamente apaixonado por uma senhora casada, Madame Desmarets. Madame, por sua vez, é fiel e devotada ao marido – e a impossibilidade desse amor é talvez um dos principais motivos pelos quais Auguste mantém-se apaixonado.

Isso até que ele descobre, por acaso, que Madame talvez não seja tão casta e pura quanto aparenta... e aí se inicia um conto de obsessão e morte com grande potencial para te deixar mais que zonzo.

É uma história curta – e esse é um dos grandes trunfos de Balzac aqui. Seu estilo, que é exageradamente adjetivo, parece-me funcionar melhor em histórias curtas. Sério, se fôssemos cortar as tangentes e descrições cheias de adjetivos do livro, ele provavelmente diminuiria pela metade... só que com isso perderíamos parte do encanto.

Mais que a história de Maulincour, do casal Desmarets e do terrível Ferragus, o que chama a atenção é a forma como Balzac nos representa Paris. A cidade pulsa nas páginas do romance, há algo de perfeitamente tangível nas ruas e becos ou nos grandes salões aos quais somos levados nos calcanhares dos personagens.

É algo impressionante, que me deixou suficientemente curiosa para querer tentar as obras mais maduras do autor – porque, como Pele de Onagro, Ferragus é também da primeira safra de Balzac.

Talvez para alguns o estilo seja um tanto cansativo. Balzac é, de fato, excessivamente adjetivador. Mas, ao menos aqui, isso funciona, prende, fascina. O próximo na minha lista dele é Ilusões Perdidas. Vejamos no que vai dar...


A Coruja


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