20 de fevereiro de 2014

Clube do Livro (Fevereiro): O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu

Ambos os distúrbios eram extraordinários e de tal modo estranhos que não se conseguia acreditar neles - pelo menos, a medicina tacanha não conseguia. Eles não podiam ser enquadrados nas estruturas convencionas de medicina e, portanto, foram esquecidos e misteriosamente "desapareceram".
Eu provavelmente nunca teria lido esse livro se não fosse pela indicação dele pela Débora. Não necessariamente porque eu não leia livros ‘técnicos’, mas porque normalmente me concentro em História, Lingüística e Política quando me aventuro pelas estantes de não-ficção e O Homem que Confundiu sua Mulher com um Chapéu está mais relacionado à área de interesse do meu irmão, que é estudante de medicina...

Seja como for... decidi me aventurar pelas páginas da neurociência... e o resultado foi bastante surpreendente.

Oliver Sacks sabe contar uma história, sabe envolver o leitor nas narrativas dos casos com que trabalhou. Mais importante talvez seja o fato de que as ‘curiosidades’ de que ele trata nesse livro são coisas próximas de nós – abstratamente, o medo de perder a memória e a noção de si mesmo, concretamente, a relação com familiares mais idosos que podem estar passando por situações semelhantes.

Note-se ainda que não existe um distanciamento frio dos pacientes, um tratamento de ‘rato de laboratório’ – que era um dos meus receios logo que comecei a ler e me deparei com um prólogo repleto de referências a teorias e sumidades na área de neurologia.

Há, claro, a curiosidade natural em torno de situações que nos parecem quase irreais – o homem que confunde sua esposa com um chapéu por não ser mais capaz de reconhecer rostos, outro cuja memória aparentemente parou em 1945 e é incapaz de reter qualquer coisa recente -, mas existe também uma preocupação muito humana na forma como se respeita as limitações dadas pela doença e se tenta reinserir essas pessoas no convívio social.

Ao mesmo tempo, algumas das situações descritas parecem ter saído dos nossos piores pesadelos. Eu fiquei arrepiada com a história da mulher que, por conta de uma neuropatia, acabou perdendo o comando de todos os músculos do corpo, ficando com a sensação de, nas palavras dela, estar desencarnada.

Curiosamente, terminei o volume tendo me auto-diagnosticado com meia dúzia de síndromes, em especial as de manias...

A despeito de ser um livro voltado para a área de neurologia, com estudos de caso, não são tanto os termos técnicos – exceto nos capítulos introdutórios para cada uma das partes - e mesmo eles são compreensíveis dentro do contexto apresentado. É um volume bem interessante, que gostei bastante de ter conhecido.


A Coruja


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