24 de dezembro de 2013

Para ler: Noite de Reis

Olívia: De onde vem, senhor?

Viola: Sei dizer muito pouco além do que estudei e essa pergunta não está incluída no meu papel. Gentil e bondosa donzela, dê-me garantia razoável de que é a senhora da casa, para eu poder continuar minha fala.
De todas as peças de Shakespeare, essa é, muito provavelmente, a que mais merece o epíteto de “o samba do crioulo doido”. A despeito do título, não há nada que de fato remeta à noite de reis, 06 de janeiro (a festa da epifania, como é chamada na terra da Rainha) – a noite de reis aqui serve para marcar apenas a época em que se passa a história, que na Inglaterra Elizabetana, era, aparentemente, comemorado como um prelúdio do carnaval...

Era um período para dançar, beber e se empanturrar – e é exatamente isso que acontece ao longo de toda a história, com alguns delírios provavelmente provocados pela quantidade de álcool consumida.

Como de hábito, nas obras do bardo, existem dois núcleos de história que se intercruzam. O primeiro gira em torno de Viola, uma jovem que sobrevive a um naufrágio, perdendo-se no processo do irmão gêmeo, Sebastian, indo dar às costas do ducado de Ilyria. Para proteger-se e enquanto tenta encontrar o irmão, Viola decide vestir-se de homem e, no papel de “Cesário”, emprega-se no serviço do Duque Orsino, que controla a região.

Orsino, que é louco e meio e tem vários parafusos a menos, ama loucamente à bela Condessa Olívia, que carrega luto pesado pela morte do irmão e não quer saber de ouvir falar no Duque. De forma extremamente inteligente, Orsino, que se encantou com os atributos da juventude e beleza de Cesáreo, decide mandá-lo cortejar Olívia em seu lugar.

Não, sério, vejam que idéia genial: mandar o carinha novo que ainda não deu grandes provas de lealdade, que é bonitão, adorável, jeitoso e de fala mansa – atributos que o próprio Orsino reconhece no ‘rapaz’ – ir cascatear a moçoila relutante pra ti. Perdoem-me o palavreado, mas eis uma criatura que merecia um belo par de chifres. Não que houvesse alguma coisa da parte da Olívia para que se pudesse falar em traição, mas...

De toda forma, Orsino parece mais interessado em amar por amar pelo amor à própria voz. Amar porque é necessário amar, porque se precisa de uma Dulcinéia para o seu quixotesco coração. Amar porque a descarga de endorfinas na corrente sangüínea dá um barato legal. Simplesmente amar porque assim se desculpa sua loucura.

Deu para perceber que eu meio que não vou com a cara do Orsino, não é?

Enfim... Orsino manda Cesário ir encantar Olívia como seu representante... Só que Cesário, que na verdade é Viola, apaixona-se à primeira vista pelo Duque. Assim mesmo, ela obedece às ordens, muito tristemente indo se apresentar à Olívia... que por sua vez se apaixona perdidamente por Cesáreo – provando que há algo de bem estranho na água em Ilyria...

Viola, coitada, fica numa situação impossível: apaixonada por Orsino, que ama Olívia, que por sua vez ama o disfarce masculino da própria Viola. Como resolver tal imbróglio?

Não esqueçamos que ainda existe em algum lugar dessa história um certo irmão gêmeo, que está às voltas com seu próprio protetor, que pode ou não estar meio encantado demais com o protegido.

Do outro lado da confusão temos a animada turma de sanguessugas da casa de Olívia: o mordomo Malvolio com sua mania de grandeza e seu puxa-saquismo; Maria, a brilhante e maliciosa criada e sir Toby, o tio bêbado, bem como o único personagem que se salva em toda a peça, Feste, o bobo.

Maria decide dar um troco na arrogância de Malvolio e arma um esquema que faz o mordomo pensar que é amado pela patroa. A partir de cartas escritas de forma extremamente ambígua, Maria manipula Malvolio para que este adote atitudes cada vez mais ridículas, até o ponto da perda da razão.

Não tenho bem certeza se é justificável a humilhação de Malvolio a despeito de sua perfídia. Ele é um bobo muito mais consumado que Feste (que na verdade é um sábio) e talvez mereça ser ridicularizado por suas pretensões e suas atitudes para com os outros que o cercam – mas ao deixá-lo louco, Shakespeare o torna, também digno de pena.

Como em Sonho de Uma Noite de Verão, penso que Noite de Reis é um retrato de como Shakespeare enxergava a impulsividade e falta de lógica das escolhas amorosas. Não tenho certeza se há finais felizes ou apenas finais possíveis. Seja como for, o bardo se encontrava em rara forma ao escrevê-la, cortante e ácido.

Ao virar de pernas para o ar todos os conceitos pré-estabelecidos, especialmente em termos de gênero, Noite de Reis se traduz como uma das melhores e mais mordazes comédias shakespearianas.


A Coruja


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