19 de dezembro de 2013

Para ler: Horizonte Perdido

Piorara consideravelmente a situação em Baskul naquela terceira semana de maio, e no dia 20 chegaram de Peshawar aparelhos da Air Force, mediante arranjo feito para evacuar os residentes brancos. Eram estes mais ou menos oitenta e a maior parte foi conduzida sem novidade, atravessando as montanhas em aviões de transporte de tropa. Empregaram-se também nesse mister alguns aparelhos de várias espécies, entre eles um avião de cabina, cedido pelo marajá de Chandapor. E foi nesse avião que embarcaram, pelas dez horas da manhã, quatro passageiros: Miss Roberta Brinklow. da Missão do Oriente; Henry D. Barnard, cidadão americano; Hugh Conway, cônsul de S. M. Britânica; e o capitão Charles Mallinson, vice-cônsul.
Esse é mais um volume da minha lista de mestres da fantasia antes de Tolkien – um título que quase se perde entre outros mais vistosos e épicos no meu rol de leituras... especialmente porque eu consegui uma edição dele em português bem antiga, num sebo e o cheiro de livro antigo acabou por me deixar longe dele durante inúmeras crises de alergia...

Mas, enfim... está na lista, lá vamos nós ler. E vou dizer que Hilton vale bem à pena um ou dois espirros – ou ler em inglês, numa edição nova ou ebook. Uma pena isso porque Horizonte Perdido é um título que gostei de conhecer e que me prendeu do início ao fim. Ele me fez lembrar muito alguns dos meus romances de aventura favoritos quando mais nova - As Minas do Rei Salomão e A Ilha do Tesouro em especial.

Hilton tem um estilo muito fluido, uma linguagem simples, clara, mas que te prende, deixa você aflito para saber o que vem a seguir. A história, em si, é um tanto prosaica – um grupo de ingleses (e um americano) fugindo de uma revolução às vésperas da Segunda Guerra, acabam tendo seu avião seqüestrado e levado para um lugar paradisíaco e de difícil acesso entre as montanhas do Tibete.

Esse lugar é Shangri-Lá, uma vila e um mosteiro em que se prega a moderação acima de tudo; em que se cultiva a sabedoria e o bom gosto, o estudo e o prazer. É um lugar que apela à essência do protagonista, Conway.

Há alguns mistérios em torno do lugar e da forma como nossos relutantes aventureiros chegaram até ali e boa parte do primeiro encanto com a obra é justamente tentar entender o que está acontecendo.

Ao terminar de ler, contudo, dei-me conta de que Horizonte Perdido era bem mais que uma aventura juvenil. A introspecção de Conway, sua experiência na Primeira Guerra Mundial, suas reações, sua forma de se relacionar com os outros personagens – do ansioso Mallinson ao Grande Lama – são algo que nos faz pensar, especialmente quando se consideram os paralelos e contrastes que os personagens estão constantemente traçando entre sua sociedade ocidental e o modo de vida oriental que os cerca.

Mais que isso, pela própria forma como a história nos é contada, vamos do início ao fim questionando se tudo aquilo que está acontecendo é ou não realidade. E, se realidade, se a mágica e os anseios que Shangri-Lá representam justificam os atos feitos em seu nome.

É, em fim, um livro surpreendente, que se permite a muitas leituras e interpretações, capaz de prender a atenção do começo ao fim, com uma linguagem elegante e sucinta que faria inveja a muitos autores atuais.


A Coruja


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2 comentários:

  1. Andei revendo umas memorias, e lendo o Setimo Selo, e revivendo quem eu fui e quem me tornei... talvez esteja muito poetica, mas como uma leitora silenciosa de muito tempo, pensei em dar uma passadinha por aqui, e te agradecer por umas boas risadas e uma nostalgia gostosa. Um bom fim de ano pra vc, Silver. E pra Lulu também.

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    1. É sempre uma alegria reencontrar o pessoal que me conheceu inicialmente como Silver - especialmente a se considerar que em 2014 eu faço dez anos escrevendo pela internet... obrigada pelos votos, espero que o ano seja maravilhoso para ti também!

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