31 de dezembro de 2013

Clube do Livro (Dezembro): O Feitiço de Áquila

- Senhor - murmurou. - Nunca mais esvaziarei outro bolso enquanto viver, juro! - Sua voz tremia ligeiramente. - Só que... eis o problema: se não me deixares viver, como poderei provar minha boa fé em Ti?

Não houve resposta. Phillipe olhou para cima. A água pingou em seu olho.

- Vou me içar agora, Senhor - disse ele, com mais firmeza. Seus dedos começavam a ficar com cãibras. Ainda não houve resposta. - Se me ouviste, esta platibanda permanecerá firme como uma rocha. Caso contrário, sem ressentimentos, naturalmente, mas vou ficar muito decepcionado.
O tema da última rodada do ano no Clube do Livro foi “livros sessão da tarde” – no sentido de livros que inspiraram ou foram inspirados por filmes clássicos da sessão da tarde. Em outras palavras, dezembro foi um debate pura nostalgia – especialmente a se considerar que o título que ganhou na votação é favorito de muita gente do grupo (como o Dé mesmo já falou no Livros para Assistir desse mês): O Feitiço de Áquila.

O livro fez o caminho inverso das adaptações, tendo sido escrito a partir do roteiro original do filme. A história segue bem de perto aquela que assistimos na película, mas ao mesmo tempo aprofunda na caracterização dos personagens, no sentido em que temos acesso aos seus pensamentos mais íntimos.

Desde o primeiro capítulo, confesso que me encantei com a história. Eu não sabia bem o que esperar, considerando que se trata de um livro que se inspirou num filme - e não o contrário. Mas ele me ganhou logo na forma como se descreveu Áquila, do contraste entre a riqueza do bispo e a pobreza do povo, da forma mecânica com que se entoam os cânticos em latim do lado de dentro da catedral enquanto do lado de fora se executam prisioneiros. Deu-me vontade, claro, de rever o filme...

Phillipe ganha muito mais brilho na versão escrita, porque vemos bem além daquilo que está na aparência, seus diálogos bem humorados com Deus e suas fraquezas e tristezas. Ele é um personagem que cresce do começo ao fim da história e que se revela o mais sábio de todos os personagens, a despeito de ser um ladrão teoricamente sem qualquer educação ou princípios.

O que mais me impressionou foi a sensação generalizada de solidão que Phillipe, Navarre, Isabeau e Imperius passam – algo que eu não me lembrava de ter percebido quando assisti o filme (coisa que fiz já faz muito tempo...). Isso está na forma como Phillipe conversa com Deus em voz alta, sabendo que só numa entidade intangóvel é que tem alguma companhia; em Navarre desmoronando “o homem de pedra” que até ali só pensara em vingança sem nunca ter uma nesga de esperança de mudar a triste realidade de sua situação; na resposta que Isabeau dá a Phillipe quando eles finalmente se apresentam: “eu sou... Tristeza”.

Esses personagens se encontram numa espécie de encruzilhada de coincidências (que talvez não sejam simples coincidências, no final das contas) e Phillipe Gaston, o Rato, o ladrão que nunca conheceu outra vida que não a do abandono, é quem acaba – ao servir de ponte aos amantes separados – por resgatar todo mundo na história, tanto física quanto moralmente.

A particular maldição que separa Navarre e Isabeau é de partir o coração – eu li o livro sabendo o final, mas isso não me impediu de ficar com os olhos cheios d’água toda vez que eles pensavam um no outro, e em especial na cena em que eles ficam frente a frente pelo breve segundo antes do nascer do sol:
Os dois acordaram ao mesmo tempo, bruscamente, quando a metamorfose teve início dentro deles. Então, surpreendidos no âmbito daquele instante intemporal de mudança, Isabeau e Navarre se viram frente a frente, em carne e osso.

Isabeau estendeu o braço, quando a cara do lobo tremeluziu, tornando-se o rosto de Navarre. Seus dedos distenderam-se para ele - espalhando-se, modificando-se, transformando-se em asa emplumada. O lobo estremeceu, sua espinha desempenou-se, a pata de garras encompridou-se em mão e dedos humanos. Navarre estendeu o braço para Isabeau, mas os olhos anelantes da jovem estreitaram-se, endurecendo-se no olhar frio e penetrante de uma ave predatória. Navarre gemeu de agonia, quando sua mão se fechou sobre o vazio e a mulher amada desapareceu diante de seus olhos.

Miseravelmente infeliz, ele tornou a deitar-se sob a capa - e o falcão, abrindo as asas magníficas, decolou para o céu. Phillipe baixou a cabeça, condoído pela angústia dos dois e por sua própria agonia.
O livro, como o filme, se tornou um favorito – gosto tanto dessa história, afinal, que até escrevi minha própria versão dela (contando ainda com ilustrações de tirar o fôlego feitas pela Dani). Não é que a história seja extremamente profunda com personagens cheios de nuances (embora você até as possa achar, dependendo de como queira fazer sua interpretação), mas é um título que conversa com nosso senso de nostalgia, que faz partes das nossas lembranças – ou ao menos, da lembrança coletiva da minha geração.

Para se emocionar, para ter o coração partido, para rir sozinho, dialogando de volta com as tiradas de Phillipe, para se apaixonar e se encantar - para tudo isso, eu recomendo O Feitiço de Áquila, em qualquer de suas encarnações.


A Coruja


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