5 de novembro de 2013

180º - Mangá

BOM DIAAAAAA! (Bom, pra mim, tecnicamente é boa noite, e sabe-se lá que horas é para você que está lendo, mas o que vale é a intenção!)

Alguém sabe que dia foi dia 3 de Novembro, pelo menos no Japão? Dia 3 foi nada mais, nada menos, que o dia nacional do manga!!!! Ou seja, adivinhem de que eu vou falar esse mês? Siiiim, mangas! Já não era sem tempo, né? ^^

Quem quiser saber sobre a história do manga ou alguns títulos em particular, há livros sobre o assunto, mesmo no Brasil, e centenas de sites com os nomes e resumos de várias obras. Essa coluna não está aqui para comentar sobre isso, mas para comentar sobre a cultura do manga no Japão.

Vamos com o mais básico primeiro: a publicação. OK, não é o mais básico, mas eu tinha de começar por algum ponto, então que seja apontando um diferencial bem simples. No Brasil, publicam-se os tankoubon diretamente, mas aqui, as coisas ocorrem de uma forma um pouco diferente.

E antes que alguém pergunte ou me ameace de morte por não explicar o que raios é um tankoubon, aqui vai: tankou significa “encadernado”, e hon (nesse caso lido como “bon”), significa “livro”. Resumindo, livro encadernado. Para nós brasileiros, isso não faz tanto sentido, porque tudo pra nós é assim publicado – pelo menos os manga.

Porém, para os japoneses, as coisas funcionam de uma forma um pouco diferente. Primeiro, lembremos que a sociedade japonesa tem um padrão de consumo muito forte, e isso inclui livros, mesmo que sejam simplesmente jogados fora depois (voltemos ao assunto um pouco mais à frente). Segundo, aqui, livros não são só para a escola ou para o meio acadêmico. Qualquer um lê, quer no metrô, quer enquanto espera por alguém, quer esteja simplesmente tentando esquecer suas vidas rotineiras por alguns instantes. Chegando numa loja de conveniência (elas existem em toda esquina, praticamente), é bastante comum ver alguns japoneses folheando as edições mais recentes de suas revistas preferidas, e ao fim nem comprá-las.

Um terceiro fator não menos importante, diferentemente do estigma nosso lado do mundo, em que ler revistas em quadrinhos é coisa de nerd, de criança ou de quem não tem o que fazer, no Japão, ler manga é normal para qualquer idade. Existe manga pra toda faixa etária, fase da vida, tema etc. You name it, they got it. Vai por mim, depois que eu descobri que existe manga sobre trabalho em corporações e outros temas, realmente existe de tudo. Tem manga para ensinar química, matemática e história, por exemplo, tem manga para educação sexual (e também simplesmente sexual, sem o cunho educativo mesmo – mas acho que esse gênero quase todo mundo já conhece ou ouviu falar).

Em suma, é cultura ler manga, e a publicação é tão grande, que alguns títulos têm seus capítulos publicados semanalmente. Sim, você leu certo: capítulos. No Japão, manga não sai diretamente encadernado, todo mês, como as comics ou HQs, não. Há várias editoras, e cada uma delas possui revistas com diferentes temas (adulto, garotas, garotos, crianças etc). Algumas delas são semanais, outras são mensais, bimestrais etc. Os capítulos são publicados nessas revistas primeiro; um capítulo de diferentes títulos na mesma revista, periodicamente.
Tomemos a mais famosa delas: a Shounen Jump, casa de sucessos como Dragonball, Naruto e One Piece, para citar alguns. Digamos que, essa semana, saia o capítulo 324 de Dragonball, o 689 de Naruto e o milésimo e um de One Piece, além de outros títulos, todos na edição 52 do ano 2013. Semana que vem, seria lançada a edição 53, com os capítulos 325, 690 e 1002, respectivamente.

Agora, voltemos aos tankoubon. Quando capítulos suficientes forem lançados, a edição encadernada tankoubon daquele título é publicada, mas a quantidade de capítulos por volume varia. Alguns contém apenas três capítulos, outros contém uns dez. É o tankoubon que os japoneses realmente compram para guardarem, ao passo que as revistas semanais são jogadas no lixo.

Sim, é um desperdício enorme de papel... ou melhor, seria um grande desperdício, se a reciclagem não existisse no Japão. Pelo menos na minha cidade, cerca de 85% ou mais dos resíduos são reciclados – incluindo papel. No caso das revistas e livros, há um processo de reciclagem próprio para eles.

Alguém conhece a regra dos três “erres” (atualmente são cinco, na verdade, mas não vamos complicar, né?)? “Reduza, reutilize e recicle”? Bem, o “reutilize” também é popular aqui no Japão, pelo menos em relação a manga. Existem algumas lojas – a mais famosa chama-se “Book-off” – onde se pode vender e comprar produtos usados, como DVDs, CDs, jogos, tankoubon, artbooks etc. Quase sempre, é mais barato comprar nessas lojas (as exceções são as peças raras, mas que muita gente quer, como um pôster autografado ou algo assim). Mesmo que não queira comprar nada, simplesmente entrar, olhar o que está à venda e/ou ler alguns manga ali mesmo, já vale a pena. Sempre que entro numa Book-off, vejo japoneses de todas as idades lendo suas preferências, e sei que muitos deles fazem isso regularmente. Como comentei antes, parece que não é mal visto ir a uma livraria (incluindo as Book-off) para ler e não comprar, desde que não de danifique o produto.

Eu realmente admiro essa cultura do “passar à frente”. Para uma sociedade de alto consumo como o Japão, onde comprar as coisas mais recentes e usar as roupas mais na moda é quase uma obrigação, é fantástico que, diferente de nós, eles não joguem fora um livro velho que não queiram mais. É só passar na Book-off ou loja parecida mais próxima e vender lá. No Brasil, várias vezes, vi livros antigos indo para o lixo, e isso sempre me cortava o coração. O mesmo efeito sinto ao ver crianças na rua pedindo esmola, e imagino que poderiam estar curtindo um livro ou, por que não? Um manga.

Cortando um pouco o assunto e, ao mesmo tempo, finalizando: mês que vem já é Natal, que é uma época de dar (no sentido restrito da coisa) e contribuir para a felicidade de outros. É uma época de pensar o que você pode fazer para ajudar o próximo (bem, na verdade, é a única época do ano em que as pessoas realmente se permitem pensar nisso, o que eu acho uma lástima). Ou seja, se você tiver algum manga ou uma coleção que não queira mais, que tal, em vez de mandar pro lixo mais próximo, doar pra biblioteca, escola ou pessoa mais próxima? Nesse Natal, passem à frente os manga... ou qualquer livro mesmo, porque, francamente, toda leitura é um presente.

Feliz Natal adiantado pra todos! (Ainda que não se comemore Natal aqui, mas isso é outro assunto...)


A Elefanta


____________________________________

 

5 comentários:

  1. Só de curiosidade, Iguinha: por aqui começaram a dar às caras uns tais "Guias Mangá de X". E são guias de coisas complicadas, do tipo Cálculo Integral e Diferencial (O HORROR, O HORROR!!!), Biologia Molecular, Relatividade e coisas assim.

    E quanto à história dos 3 Rs... Bom, isso é uma coisa que os japoneses poderiam ensinar pro resto do mundo, né?

    ResponderExcluir
  2. me mandem isso pelamordedeus! eh soh td q eu quero!!! aprender matematica (que saudades da matematica!!!!! nao, isso nao eh ironia.) com manga... e fisica quantica, e a po**a td! XD

    uhm, mas sabe, de 3R passou pra 5R (nao no Japao) e recentemente pra 2Rs (reuse and Reduce)... ISSO eh q eu acho que deveria ser enfatizado mais ainda.. ^^''

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Já sei o que dar de presente para a Ísis no próximo aniversário dela...

      Excluir
    2. Eu aceito demais.... pode mandar! ^.^/

      Excluir

Sobre

Livros, viagens, filosofia de botequim e causos da carochinha: o Coruja em Teto de Zinco Quente foi criado para ser um depósito de ideias, opiniões, debates e resmungos sobre a vida, o universo e tudo o mais.

Cadastre seu email e receba as atualizações do blog

facebook

Arquivo do blog